CINEMA AUTORAL E POLÊMICA COM LARS VON TRIER

O DIRETOR DINAMARQUÊS DESAFIA CONVENÇÕES DESDE SUA ESTREIA EM LONGA-METRAGEM, COM “ELEMENTO DE UM CRIME” (1984), PASSANDO POR SUA BELA VERSÃO DE “MEDEIA” (1988) PARA A TV, ATÉ TRABALHOS CADA VEZ MAIS RADICAIS NA FORMA E NO CONTEÚDO, COMO “ONDAS DO DESTINO” (1996), “OS IDIOTAS” (1998) E “DANÇANDO NO ESCURO” (2000) – PREMIADO COM A PALMA DE OURO EM CANNES.

Lars von Trier nasceu em 30 de abril de 1956, em Copenhague. Formou-se na Escola de Cinema Dinamarquesa em 1983. No ano seguinte, dirigiu seu primeiro longa, “O Elemento do Crime“, que fez parte da trilogia Europeia, seguido de “Epidemic” (1987) e “Europa” em 1991. Nesse ano, von Trier e o produtor Peter Aalbæk Jensen fundaram a companhia Zentropa Entertainments.

Realizou para a televisão “Medeia” (1988) e a minissérie “O Reino” (1994), que permitiu o desenvolvimento de sua técnica particular de direção que culminaria com a criação do movimento Dogma 95, ao lado do conterrâneo Thomas Vinterberg (“Festa de Família”).

Emily Watson no premiado “Ondas do Destino

Ondas do Destino” (1996) é considerado hoje como parte da segunda trilogia do diretor, inspirada em um livro infantil de sua juventude sobre uma garotinha que estava sempre pronta para sacrificar-se pelos outros.

A radicalização estética do Dogma 95 veio com o segundo filme da trilogia do Coração de Ouro: “Os Idiotas” (1998), seguido de “Dançando no Escuro” (2000), pelo qual venceu a Palma de Ouro em Cannes. No festival, von Trier ouviu críticas de alguns jornalistas americanos que consideraram despropositado o diretor ter feito um filme, passado nos Estados Unidos, sem nunca ter visitado o país.

Em outubro do ano passado, Björk revelou ter sofrido assédio sexual ao trabalhar com um “diretor dinamarquês”. O nome de Lars von Trier veio à tona, já que ele foi o único cineasta da Dinamarca com quem a cantora trabalhou. Von Trier nega veemente as acusações, mas não é a primeira vez que atrizes relatam maus-tratos e stress extremo sob sua direção.

Personalidade controversa, decidiu afrontar as críticas elegendo os Estados Unidos como tema para sua trilogia seguinte, iniciada por “Dogville”, seguido por “Manderlay” (2005) e ainda incompleta.

Depois de causar polêmica com “Anticristo” (2009) e “Melancolia” (2011) no Festival de Cannes, de onde Charlotte Gainsbourg (pelo primeiro) e Kirsten Dunst (pelo segundo) saíram com o prêmio de melhor atriz, von Trier concluiu a sua chamada “Trilogia da Depressão”, lançando “Ninfomaníaca”- longa dividido em duas partes – em 2013.

Nicole Kidman em “Dogville” e Kristen Dunst em “Melancolia”: ambas interpretam personagens típicas do diretor que sofrem situações-limite

Controlador, desbocado, iconoclasta, infame, inovador, misógino, ousado, polêmico, provocador. São inúmeros os adjetivos que já foram aplicados ao cineasta nas últimas duas décadas. O que é inegável é sua capacidade de evocar sensações como medo, alienação, inadequação, solidão e impermanência.

MEDEIA

Realizado para a TV dinamarquesa nos anos 1980, a partir de um roteiro não filmado do mestre Carl Theodor Dreyer (“A Paixão de Joana D’Arc“, também disponível na 2001) baseado na célebre tragédia de Eurípides.

A feiticeira Medeia é abandonada pelo esposo Jasão, que deseja se casar com uma mulher mais jovem, Glauce, a filha de Creonte, o rei de Corinto. No entanto, na noite de núpcias, Glauce se recusa a se entregar para Jasão, até que Medeia seja expulsa da cidade. Mas a rejeitada e humilhada Medeia tem outros planos…

Com uma fotografia altamente estilizada e enquadramentos desconcertantes, “Medeia” é uma obra de beleza visual única na história da TV. Um programa obrigatório para os fãs do diretor – e das universais tragédias gregas.

ATENÇÃO: Licenciado oficialmente pela TV dinamarquesa, o filme apresenta imagens de aspecto granulado e aparentemente “sujo”, na verdade uma opção estética do vanguardista von Trier, que utilizou inúmeros filtros e recursos de videoarte.

ONDAS DO DESTINO

Um dos primeiros sucessos internacionais de von Trier, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Emily Watson, por sua atuação espetacular).

Em um vilarejo no interior da Escócia, a jovem Bess (Watson) se apaixona perdidamente por Jan (Stellan Skarsgård), funcionário de uma plataforma de petróleo. Infelizmente, ele sofre um acidente que o deixa incapacitado para o resto da vida. Nesta condição, ele pressiona a mulher a procurar amantes e lhe contar detalhes de suas relações.

Dialogando com “A Paixão de Joana d’Arc” (1928), a obra-prima de seu conterrâneo Carl Theodor Dreyer, von Trier realiza um contundente drama moral sobre o amor, o sofrimento e a bondade. Sem dúvida, um dos filmes seminais dos anos 1990.

CURIOSIDADE: Com canções de Leonard Cohen, Elton John, David Bowie e Roxy Music, entre outros, o filme marca a estreia da atriz inglesa Emily Watson no cinema. Helena Bonham Carter era a escolha inicial para o papel, mas recusou em razão do conteúdo sexual da história.

EXTRAS:
* Cenas cortadas
* Lars apresenta o filme em Cannes
* Teste da atriz Emily Watson
* Entrevista com Adrian Rawlins
* Trecho de documentário sobre Lars von Trier
* Trailers

OS IDIOTAS

Indicado à Palma de Ouro em Cannes, o filme foi realizado sob as normas do manifesto Dogma 95, que exigia, entre outras coisas, câmera na mão, iluminação natural e ausência de música.

Na trama, um grupo de jovens amigos finge ter problemas mentais para conseguir regalias, se divertir e incomodar as pessoas, usando como argumento que é preciso deixar aflorar o lado idiota que existe em cada um de nós para expor a hipocrisia da sociedade burguesa.

Controverso e politicamente incorreto, “Os Idiotas” é um trabalho libertário, forte e provocador, que leva ao extremo a estética de choque do diretor dinamarquês.

EXTRAS:
* Especial sobre a produção (30 min.)
* Entrevista com Lars von Trier (33 min.)
* Os filtros de “Os Idiotas” (06 min.)
* Videoclipe “You’re a lady” (06 min.)
* Trailer de cinema (02 min.)

DANÇANDO NO ESCURO

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme é considerado um dos melhores trabalhos de von Trier, que mais uma vez descontrói o “sonho americano”. Esta Ed. Especial em DVD apresenta o filme no formato widescreen anamórfico, com mais de uma hora de extras, incluindo o documentário inédito “Os 100 Olhos de Lars Von Trier”.

Premiada como melhor atriz em Cannes, a cantora Björk impressiona no papel de Selma, uma imigrante que trabalha numa fábrica no interior dos Estados Unidos. Vítima de uma doença hereditária, ela está perdendo a visão e, para evitar que o filho tenha o mesmo destino, economiza todo o seu dinheiro para operá-lo.

Apaixonada pelos musicais de Hollywood, Selma mistura realidade e fantasia. Porém, a sua vida muda radicalmente quando é acusada injustamente de um crime.

Além da excelente trilha sonora de Björk – indicada ao Oscar pela canção “I’ve Seen It All” -, “Dançando no Escuro” traz no elenco a grande Catherine Deneuve e o lendário Joel Grey (o mestre de cerimônias de “Cabaré”).

EXTRAS:
* “Os 100 Olhos de Lars von Trier”
* Trailer de Cinema
* Galeria de pôster e fotos
* Vida e obra de Lars von Trier

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