DE VOLTA AO CATÁLOGO, “CIDADE DOS SONHOS”, ELEITO MELHOR FILME DESTE SÉCULO

“É absurdo um cineasta dizer com palavras o que significa um filme em particular.”  David Lynch

OBJETO DE CULTO ENTRE OS CINÉFILOS, FOI ELEITO “MELHOR FILME DO SÉCULO 21” POR UMA LISTA DE CRÍTICOS ORGANIZADA PELA BBC EM 2016, FICANDO À FRENTE DE, POR EXEMPLO, “AMOR À FLOR DA PELE” (2º LUGAR) E “SANGUE NEGRO (3º).

Inicialmente criado como piloto para uma possível série de televisão, o projeto foi cancelado pela rede ABC mas, com o auxilio do Studio Canal francês, David Lynch recriou o material como longa, adicionando e refilmando cenas. Indicado à Palma de Ouro, “Cidade dos Sonhos” recebeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes em 2002 e concorreu ao Oscar na mesma categoria.

Naomi Watts (“O Impossível”), até então uma desconhecida, foi escolhida a melhor atriz do ano pela Sociedade Nacional dos Críticos de Cinema dos EUA.

Com sua narrativa não-linear, o filme transita entre o plano real e o mundo inconsciente, e a indissociação entre ambos é a chave para essa experiência sensorial sem igual na sétima arte.

Um acidente de carro na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa cadeia de personagens atormentados. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e recebe a ajuda de Betty (Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade. Juntas, as duas descobrem fatos e segredos sobre a real identidade de Rita, em meio a uma teia de intrigas na capital do cinema americano.

Em cena, Naomi Watts e Laura Harring

Um dos diretores mais cultuados pelos cinéfilos, David Lynch transcende a sétima arte. É um inquieto artista multimídia também com trabalhos nas artes plásticas, fotografia, escultura, desenho, música e até nos quadrinhos (“O Cão Mais Raivoso do Mundo”). Recentemente, voltou à televisão com a aclamada nova temporada de “Twin Peaks”, sem abandonar seu estilo e mais uma vez desafiando as convenções da indústria. Seus trabalhos fogem do realismo, ao apresentar uma série confusa e irracional de eventos aleatórios que fazem – aparentemente – pouco sentido.

Para ele, ao representar a vida, os filmes devem ser complicados, e, em alguns casos, inexplicáveis. Por isso, dificilmente o cineasta explica o enredo de suas produções; cabe ao próprio espectador estabelecer sentido e significação para aquilo que vê.

Lynch durante as filmagens

“Imagine um livro que, quando publicado, faz muito sucesso, deixando seus leitores intrigados e com muitas dúvidas, mas sem conseguir respondê-las, pois seu autor faleceu antes da primeira edição ser vendida”, propôs David Lynch certa vez ao comentar “Cidade dos Sonhos“. “É assim que vejo meu filme, como uma caixa cujo segredo está na chave de cada um, que irá abri-la e desvendá-la a seu modo”.

Curiosidade: Inspirados pelo filme, Lynch e seu sócio Arnaud Frisch criaram, no final de 2011, uma nova casa noturna na Rua Montmartre, em Paris: o Club Silencio, complexo que inclui ainda sala de shows, restaurante, cinema e biblioteca. Aqueles que não puderem dar um pulo em Paris para conferir essa nova empreitada sensorial de Lynch podem ver (ou rever) o Club Silencio original no filme que acaba de ser relançado em DVD.

E NÃO PERCA, EM PROMOÇÃO NA 2001:

O CINEMA DE DAVID LYNCH

A coleção reúne quatro de seus filmes – três deles fora de catálogo. Anteriormente lançado pela Lume, “Eraserhead” (1977) – estreia de Lynch na direção de longa – virou item de colecionador. Indicado a 8 Oscar, “O Homem Elefante” (1980), “Coração Selvagem” (1990) – vencedor da Palma de Ouro em Cannes -, e o surreal quebra-cabeça “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) completam o box.

ERASERHEAD

Primeiro longa-metragem do cineasta, o filme começou a ser rodado em 1971 e foi lançado apenas em 1977. Seu penoso processo de produção resultou inclusive no primeiro divórcio do diretor.

Bizarro, original, surrealista. “Eraserhead” é um pesadelo em forma de drama familiar, acompanhando Henry Spencer (Jack Nance), que luta internamente para lidar com sua raivosa namorada e os gritos de seu filho, um bebê mutante. Entre os admiradores deste cult incontornável do cinema, estão Stanley Kubrick e Mel Brooks que, impressionado, produziria o filme seguinte do diretor, “O Homem Elefante”.

O HOMEM ELEFANTE

Usado como uma atração de circo, John Merrick (John Hurt) é constantemente humilhado pela sociedade a sua volta. Frederick Treeves (Anthony Hopkins), um famoso cirurgião, o leva para o hospital em que trabalha e descobre que, a despeito de sua aparência incomum, Merrick é um ser humano sensível, inteligente e gentil.

Drama vitoriano filmado na Inglaterra, com bela fotografia em preto e branco influenciada pelo expressionismo alemão, o filme foi reconhecido pela Academia de Hollywood com oito indicações ao Oscar, incluindo a primeira das três nomeações de Lynch a melhor direção.

CORAÇÃO SELVAGEM

Lynch homenageia à sua maneira o clássico “O Mágico de Oz” por meio da bizarra jornada de Sailor (Nicolas Cage) e Marilyn (Laura Dern), que deixam sua cidade para fugir das garras da diabólica mãe dela (papel de Diane Ladd, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Premiado com uma polêmica Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1990, o longa é um road movie erótico, perturbador e violento, repleto de humor negro. O elenco ainda conta com Willem Dafoe, Isabella Rossellini e Harry Dean Stanton – falecido em 15 de setembro deste ano, aos 91 anos.

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DELAURA PALMER

Cercado de expectativa, por conta do sucesso da série criada por Lynch e o roteirista Mark Frost, o filme estreou no Festival de Cannes de 1992, mas foi duramente vaiado na Croisette. Incompreendido na época de seu lançamento, é mais um surreal conto de horror lynchiano sobre a perda da inocência.

Na trama (ou anti-trama), o agente do FBI Chet Desmond (Chris Isaak) e seu parceiro Sam Stanley (Kiefer Sutherland) investigam o assassinato da garçonete Teresa, em uma pequena cidade do estado de Washington. Após descobrir uma pista, Chet desaparece a alguns quilômetros da cidade de Twin Peaks. Um ano depois, outra morte parece ter ligação com o crime: o assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Seus últimos dias de vida podem ajudar a solucionar o mistério.

Reavaliado com o passar do tempo, o filme adquiriu status de cult e ganha mais relevância agora com o retorno – 25 anos depois – da série, com a qual estabelece conexões importantes.

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