NOS LANÇAMENTOS DA SEMANA, SATYAJIT RAY – O MAIOR CINEASTA DA ÍNDIA

Vencedor de um Oscar honorário em 1992, Satyajit Ray (1921-1992) é considerado um dos maiores diretores da história do cinema. Ilustrador, músico e publicitário, Ray foi assistente de Jean Renoir em “O Rio Sagrado” (1951) antes de estrear na direção de longa com “A Canção da Estrada” (1955), que deu início à trilogia do personagem Apu completada por “O Invencível” (1956) e “O Mundo de Apu” (1959) .

Com poucos recursos, Ray exercia diversas funções (direção, roteiro, fotografia, direção de arte, trilha sonora) na produção e aos poucos seus filmes foram conquistando o reconhecimento da crítica internacional para seu trabalho, que ao longo da carreira compreendeu mais de 30 filmes, incluindo curtas e documentários.

Satyajit Ray durante as filmagens de “O Invencível” (1956)

Capaz de impregnar de lirismo as situações mais prosaicas da vida, o cineasta, nascido em Calcutá, conseguiu algo raro: extrair humanidade e poesia do ordinário e prosaico, desnudando em sua obra a sociedade bengali, o lugar das mulheres nessa sociedade, e a relação entre as classes, sem falar no misticismo popular. Admirado por nomes como Martin Scorsese e Wes Anderson, Ray elevou o cinema indiano à condição de arte, mostrando que o mesmo não se restringia somente às fantasias musicais de Bollywood.

Em filmes como “O Covarde“, “O Santo“, “O Herói“, “O Deus Elefante” e “O Estrangeiro” (seu último longa) — que acabam de sair pela primeira vez em DVD na 2001 –, o cineasta evidencia o embate entre o mundo interior de seus personagens e as forças antagônicas do mundo exterior, tendo como inspiração os problemas, costumes e línguas de seu país.

Mesmo diante de uma cultura tão distante e única, o espectador experimenta algo que talvez nem tenha muito a ver com a Índia, mas sim com sentimentos universais como a cobiça, a compaixão, a solidão, o amor e suas desilusões.

Segundo o cineasta Akira Kurosawa, “não ter visto o cinema de Satyajit Ray significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua”.

SATYAJIT RAY EM DVD NA 2001

TRILOGIA DE APU

O trabalho mais famoso do diretor mostra o cotidiano de uma família pobre em Bengali pelo olhar do jovem Apu, cujo crescimento (físico e espiritual) iremos acompanhar. Desde Apu menino em “A Canção da Estrada” (1955), premiado em Cannes, passando por seus dias de estudante em Calcutá em “O Invencível” (1956), até as adversidades e responsabilidades da vida adulta, em meio às tradições (e contradições) de seu país, em “O Mundo de Apu” (1959).

A SALA DE MÚSICA

Realizado entre os longas da saga de Apu, este clássico de 1958 reflete sobre a diferença de classes sociais e a fugacidade do status material, a partir da decadência de um nobre preso ao passado. Último representante de uma alta casta, Huzur Biswambhar (Chhabi Biswas) insiste em manter o padrão de vida de seus antepassados, mesmo passando por dias difíceis. A enorme sala de música de sua mansão serve de cerimonial para um personagem que não consegue se desvincilhar do próprio orgulho.

O COVARDE

Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1965, o longa começa com Roy, roteirista de cinema que reencontra por acaso seu antigo amor, Karuna. E para sua surpresa, descobre que ela está casada justamente com o dono da fazenda em que está hospedado. Perturbado pela presença da ex, Roy relembra em uma série de flashbacks, durante sua curta estadia ali, momentos-chave de sua relação com Karuna.

O SANTO

Mais um conto moral de Ray filmado nos anos 1960, sobre o uso da religião por um charlatão, Mirchai Baba. Com muita ironia, a história mostra em tom de farsa o frenesi em torno desse “messias”, cujos dotes espirituais – que incluem curas milagrosas – fazem dele uma figura divina aos olhos do povo mais humilde em busca de salvação. Só que logo um grupo arma um plano para desmascarar o impostor.

O HERÓI

Premiado no Festival de Berlim em 1966, este é um dos trabalhos mais originais de Ray, tratando do eterno conflito entre a esfera pública e a vida privada de uma celebridade. No caso, Arindam Mukherjee (papel do antigo astro bengali Uttam Kumar), que é abordado durante uma viagem de trem por uma humilde jornalista, dando início a uma longa entrevista na qual o astro de cinema se desnuda, revelando seus segredos.

OS JOGADORES DO FRACASSO

Primeiro trabalho do mestre indiano não falado na língua bengali, o filme se passa em 1856 e mostra duas histórias paralelas ambientadas na Índia: uma partida de xadrez disputada por dois nobres; e a disputa política em torno do reino de Oudh, até então independente do Império Britânico. Através do xadrez e o imobilismo de seus jogadores, Ray comenta à sua maneira o conflito de interesses entre colonizador e colonizado, e a luta pela tradição e cultura locais.

O DEUS ELEFANTE

Em 1974, Ray saiu de sua zona de conforto – os dramas sociais – para contar uma história de detetive diferente, em “A Fortaleza de Ouro” (1974). Cinco anos depois, o ator Soumitra Chatterjee (revelado pelo diretor em “O Mundo de Apu“, de 1959) retorna ao papel do detetive particular Prodosh “Feluda” Mitra, agora envolvido na investigação do roubo de uma imagem de Ganesh, o deus local com cabeça de elefante.

O ESTRANGEIRO

Último trabalho de Ray antes de sua morte, em 1992, o filme é fiel aos temas do autor, mostrando como a desconfiança pode arruinar o relacionamento de um casal. Pois é a rotina do executivo Sudhindra Bose e sua esposa Anila que é subitamente alterada com a chegada de uma carta inesperada: Manmohan Mitra, tio distante dela que havia deixado a cidade há trinta anos, planeja retornar à Calcutá e ficar na casa dos Bose por uma semana.

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *