A 2001 ENTREVISTA DENIS VILLENEUVE, DIRETOR DE “INCÊNDIOS”

Por Eduardo Lucena

INDICADO AO OSCAR DE MELHOR FILME ESTRANGEIRO, O DRAMA DEVASTADOR REVELOU O CINEASTA CANADENSE E SE TORNOU UM DOS TÍTULOS DE MAIOR REPERCUSSÃO NA HISTÓRIA DA 2001. 

Recentemente aclamado por “Sicario“, Denis Villeneuve reflete em “Incêndios” – adaptação da peça homônima de Wajdi Mouawad, já encenada no Brasil com Marieta Severo – os trágicos efeitos da guerra sobre a trajetória humana. A trama segue os percalços de uma jovem canadense (Mélissa Désormeaux-Poulin) à procura de respostas para o passado de sua mãe (Lubna Azabal, de “Paradise Now”) no Oriente Médio. Os caminhos da mãe e da filha, passado e presente, irão se cruzar e trazer revelações desconcertantes pelo caminho, deixando no espectador um nó na garganta, difícil de esquecer.

“Incêndios é um diálogo entre passado e presente.” Denis Villeneuve

Grande vencedor do Genie Awards (o Oscar canadense), com oito prêmios, incluindo melhor filme, direção (Denis Villeneuve) e atriz (Lubna Azabal), Incêndios foi aclamado por público e crítica – entre seus admiradores, encontram-se, por exemplo, a jornalista Ana Maria Bahiana e a documentarista Julia Bacha (diretora de Budrus).

Roteirista e diretor do filme, Villeneuve concedeu entrevista exclusiva (e esclarecedora) para a Revista 2001 de setembro de 2011, reproduzida a seguir.

Denis Villeneuve segura os dois prêmios Genie que recebeu por Incêndios: melhor direção e roteiro adaptado

2001: Quem assiste ao filme Incêndios dificilmente imagina que foi baseado em uma peça teatral. Como você a adaptou para a linguagem do cinema e, em especial, para uma narrativa que valoriza tanto os silêncios e a construção do mistério?
Denis Villeneuve: É importante salientar que o autor da peça original, Wajdi Mouawad, me deixou totalmente livre para adaptar a peça. Era importante para ele que eu fosse inteiramente responsável pelo filme. Talvez seja uma das razões pelas quais tive que me aprofundar no território do cinema e afastar-me o máximo possível do teatro para apropriar-me do filme. Idealmente, eu teria gostado de fazer um filme totalmente silencioso para homenagear a poesia da peça original. Mas teria necessitado de muito mais dinheiro! Caro demais. O texto teatral é um poema verdadeiramente magnífico e pulsante, e que dura mais de três horas e meia. Para adaptá-lo, precisei – se posso dizer assim – “queimá-lo” para conservar somente seu esqueleto: os personagens principais e a estrutura dramática que Wajdi imaginara. Escolhi o ângulo da família. E escrevi o roteiro tentando traduzir as palavras dele em imagens, com o menor número possível de diálogos. O filme é, assim, muito diferente da peça, mas espero que seja o mais fiel possível a ela.

2001: A peça é baseada em uma história verídica? Ou você conheceu pessoas reais que viveram experiências como as da família Marwan?
DV: A peça é inspirada em alguns fatos-chave da guerra civil libanesa, mas sobretudo a respeito de Souha Béchara. Ainda jovem, ela tentou matar Antoine Lahad, chefe do Exército do Sul-Libanês, aliado de Israel. Foi detida e torturada no presídio de Khiam durante 10 anos. A resistência e o comprometimento político de Souha inspiraram Wajdi, que a havia conhecido durante sua infância. É importante enfatizar que houve uma grande transposição poética entre a inspiração inicial, que vem do real e que é Souha Béchara, e a personagem fictícia de Nawal Marwan. Incêndios é uma ficção, a personagem de Nawal e as provações que ela enfrenta foram inventadas. De minha parte, desconheço totalmente a guerra, mas conheço bem os silêncios que incrustram a raiva nas famílias, geração após geração. Posso afirmar que Incêndios é, certamente, meu filme mais íntimo e pessoal.

Uma das cenas do filme: cenário e situações atemporais

2001: A trama é construída gradativamente, sem explicar muito o contexto geopolítico ou citar onde se passa a ação. Explique essa decisão.
DV: Na peça, a ação se desenrola em uma região do Oriente Médio que lembra o Líbano, sem jamais mencioná-lo, e com nomes de lugares inventados. O filme segue o mesmo caminho, de modo a contar a história com toda a liberdade necessária e evitar, portanto, a tomada de posição no conflito, falando dos ciclos de ódio e violência, sem deles participar. Esse conflito libanês trata de uma complexidade muito grande para poder comentar sobre ele por meio de uma ficção por si só já complicada. Precisaria rodar um documentário de 20 horas para conseguir apresentar um pouquinho da verdade sobre essa guerra. Para mim, um cineasta canadense, foi uma forma de respeitar a história do Líbano. Há muitas verdades que se chocam a respeito desse conflito e eu não poderia escolher uma delas como única. Eu precisava permanecer neutro.

2001: Atos de violência em nome de ideologias e das circunstâncias do tempo histórico são, infelizmente, atemporais e cada vez mais frequentes no mundo contemporâneo. Por isso a importância de escavar e investigar o passado para atingir a paz no presente, como faz Jeanne, personagem da filha?
DV: Na minha opinião, o filme trata mais da família do que da guerra. É uma metáfora que trata dos ciclos de violência. Para afastar raivas enraizadas no passado que nos cegam, nos bloqueiam e nos impedem de sermos adultos, é preciso voltar no tempo, ao início dos problemas, e quebrar os silêncios.

Em 2014, Marieta Severo estrelou a primeira montagem brasileira de “Incêndios”, baseada no texto do escritor libanês Wajdi Mouawad que deu origem ao filme de Villeneuve

2001: A violência em Incêndios é impactante, sem ser, contudo, explícita. Foi uma preocupação evitar a espetacularização do tema?
DV: Sim, absolutamente. Dirigir cenas de violência é uma responsabilidade. Quis aproximar-me da guerra com humildade e abracei o ponto de vista das vítimas. Tentei aproximar-me da violência mostrando sua brutalidade e feiúra, mas conservando a força do impacto cinematográfico necessário para o bom desenrolar da história.

2001: Foi difícil convencer a banda Radiohead a ceder os direitos de duas de suas canções [You And Whose Army? e Like Spinning Plates] para o filme?
DV: Para que o Radiohead aceitasse ceder os direitos, foi necessário que o grupo assistisse ao filme e o aprovasse. Foram os primeiros a ver Incêndios. No entanto, não sei quem da banda o viu. Foi um grande alívio quando me ligaram para dizer que aceitariam ceder os direitos. Eu não tinha um plano B. As duas músicas faziam parte do projeto desde o primeiro dia da roteirização do filme. O fato de aceitarem a proposta foi também uma honra. São criadores por quem tenho grande respeito.

O talentoso Denis Villeneuve: “Incêndios” foi seu primeiro filme distribuído em DVD no Brasil

Denis Villeneuve
Investigando o mal estar contemporâneo

O Canadá é pródigo em produzir cineastas afeitos a investigar, de maneira original, tragédias e males sociais. Nomes como Norman Jewison (No Calor da Noite, Rollerball) no passado e, mais recentemente, Denys Arcand (O Declínio do Império Americano, As Invasões Bárbaras, A Era da Inocência) e David Cronenberg (Crash – Estranhos Prazeres, Marcas da Violência), que recebem a companhia do talentoso Denis Villeneuve.

Nascido em 3 de outubro de 1967, em Trois-Rivières (Québec), demonstrou desde cedo sua paixão pelo cinema. Aos 20 anos, já ganhava a competição “La Course Destination Monde” (Corrida ao Redor do Mundo), que desafiava seus participantes a realizar 20 curtas-metragens no período de apenas sete meses. Seguiram-se alguns videoclipes e curtas-metragens até Villeneuve estrear na direção de longa-metragem com Un 32 Août Sur Terre (1998), seguido pelo original Maelström (2000), trágico relato de uma mulher narrado por um peixe falante.

Depois de nove anos afastado, o cineasta retornou em 2009 com Polytechnique, perturbadora recriação do massacre de 14 estudantes universitárias, em Montreal, em 1989. O filme foi finalizado ao mesmo tempo em que rodava Incêndios em locações na Jordânia e Québec. Quatro vezes vencedor do prêmio Genie de melhor direção, Villeneuve foi escolhido pela publicação norte-americana Variety um dos “10 cineastas para ver em 2011” e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes por “Sicario – Terra de Ninguém“, que acaba de sair em DVD na 2001.

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Considerado pela crítica internacional um dos melhores filmes de 2015, “Sicario” concorreu ao Oscar de melhor fotografia (do veterano Roger Deakins, nomeado 12 vezes ao prêmio), trilha sonora e edição de som. Com cenas de tensão sufocante, o thriller mergulha no inferno do tráfico de drogas dos cartéis mexicanos na fronteira com os EUA. Policial do FBI, Kate Macy (Emily Blunt) entra para uma audaciosa operação da CIA, ao lado de Matt (Josh Brolin) e Alejandro (Benicio Del Toro). Ela irá testar todos os seus limites morais e éticos, em meio à violência e inimigos indefinidos.

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