As Duas Faces da Felicidade

AGNÈS VARDA: 4 CLÁSSICOS DA SENHORA NOUVELLE VAGUE

MAIS UMA COLEÇÃO IMPERDÍVEL PARA OS CINÉFILOS, COM 2 DISCOS REUNINDO OS MELHORES LONGAS DE FICÇÃO DA ACLAMADA CINEASTA FRANCO-BELGA.

Viúva de Jacques Demy – diretor de “Os Guarda-Chuvas do Amor” e de vários outros trabalhos que acabam de sair em DVD na 2001 -, Agnès Varda é considerada uma das maiores cineastas de todos os tempos, com mais de 30 filmes no currículo.

Aos 89 anos, ela concorreu ao Oscar deste ano pelo documentário “Visages, Villages”, que codirigiu ao lado do jovem JR e sua filha Rosalie Varda. No ano passado, tornou-se a primeira diretora a receber um Oscar honorário da Academia de Hollywood.

Nascida em 30 de maio de 1928, em Bruxelas (capital da Bélgica), ela transitou entre diferentes formatos (e gêneros) cinematográficos, tendo a fotografia como base de pesquisa. Sua experiência de fotógrafa se fez notar em sua estreia na direção de cinema, “La Pointe-Courte” (1955), considerado por críticos e historiadores como Georges Sadoul “verdadeiramente o primeiro filme da Nouvelle Vague”.

Seu longa seguinte, “Cléo das 5 às 7“, crônica de uma mulher esperando o resultado de uma biópsia, é um marco do movimento criado pelos ex-críticos da célebre revista francesa Cahiers du Cinéma.

A cineasta realizaria mais uma obra-prima, “As Duas Faces da Felicidade” (1965), evocando a arte dos impressionistas, antes de exilar-se na Califórnia no final dos anos 1960, quando passou a registrar a efervescência cultural do período em vários documentários desenvolvidos a partir de imagens fixas como fotografias, pinturas ou grafite.

“As Duas Faces da Felicidade” (Le Bonheur, 1965)

Após uma série de documentários, voltou em grande estilo à ficção com “Sem Teto, Nem Lei“, que lhe valeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1985.

Semelhantes a diários ou cadernos de anotações, os filmes de Varda incorporam lirismo ao realismo, criando documentários tão interessantes quanto a ficção e longas ficcionais cujo naturalismo beira o real.

Ao desafiar os códigos sociais burgueses com suas personagens iconoclastas, ela foi uma pioneira do cinema feminista, bem antes de Chantal Akerman (“Jeanne Dielman”) e Jane Campion (“O Piano”) – só para citar duas grandes cineastas -, propondo em sua obra uma reflexão sobre a subjetividade feminina.

Sua sensibilidade e extrema curiosidade pela experiência humana permeiam cada fotograma de seus filmes.

AGNÈS VARDA

No formato digipak, com 2 discos e bela arte conceitual, o box reúne traz 4 clássicos da diretora na seara da ficção, todos remasterizados. Seus filmes, fotografias e instalações revelam, com seu estilo experimental único, seu diálogo com o documentário, o feminismo e o comentário social.

Edição limitada com 4 cards e quase uma hora de extras.

DISCO 1:

LA POINTE COURTE (Idem, 1955, 80 min)
Com Philippe Noiret, Silvia Monfort.

Dividido em duas partes, o longa retrata, primeiramente, os habitantes de um pequeno povoado pesqueiro na França. E apresenta, em sequência, um casal em crise, Lui e Elle (Philippe Noiret and Silvia Monfort), que visitam a cidade natal dele, La Pointe Courte. Influenciada pela obra “Palmeiras Selvagens”, de William Faulkner, Varda realizou o filme com poucos recursos e a ajuda de Alain Resnais, responsável pela edição das cenas.

CLÉO DAS 5 ÀS 7 (Cléo de 5 às 7, 1962, 90 min)
Com Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray.

Cléo (Corinne Marchand) é uma cantora francesa que vive um momento de angústia, enquanto espera o resultado de um exame. O teste pode apontar se ela tem ou não um câncer. Sem saber o que fazer, Cléo perambula por Paris, fazendo coisas banais, à procura de distração por 1 hora e meia, até conhecer um soldado prestes a ir para a guerra na Argélia. Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, esta é uma das obras capitais do movimento nouvelle vague.

DISCO 2:

AS DUAS FACES DA FELICIDADE (Le bonheur, 1965, 80 min)
Com Jean-Claude Drouot, Claire Drouot, Olivier Drouot.

Precursora da Nouvelle Vague com “La Pointe Courte” (1954), Agnès Varda (“Cléo das 5 às 7“) dirige esta evocação sem culpa sobre o casamento e o desejo, refletindo sobre o significado da felicidade e a relação conjugal.

Visualmente influenciado pela pintura impressionista, este é um dos mais belos trabalhos de uma das grandes diretoras da história do cinema. Nele, um pai de família casado se envolve com outra mulher, mas não quer abandonar a esposa. O filme conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim.

SEM TETO SEM LEI (Sans toit ni loi, 1985, 106 min)
Com Sandrine Bonnaire, Macha Méril, Stéphane Freiss.

Depois de chamar atenção em “À Nos Amours” (1983), Sandrine Bonnaire foi premiada no Festival de Veneza pelo papel de uma jovem andarilha em “Sem Teto, Nem Lei”. A trajetória da personagem é narrada por aqueles que a encontraram em suas últimas semanas de vida.

Como em “A Grande Testemunha” (1966), do mestre Robert Bresson, revela-se mais sobre quem interage com ela – seja ajudando-a, amando-a ou abusando dela – do que sobre esse espírito livre, mantido um mistério ainda maior ao longo da história. Varda dirigiu o filme após intensa pesquisa com vagabundos, rebeldes, drogados e mendigos, além de usar atores não-profissionais no elenco.

EXTRAS:

* Entrevista com Agnès Varda (30 min.)
* Depoimentos sobre “As Duas Faces da Felicidade” (15 min.)
* Sem Teto Nem Lei: Viagéns e músicas (12 min.)

CLÁSSICOS E CULTS RAROS EM PROMOÇÃO SÓ NA 2001

A MAIORIA FORA DE CATÁLOGO, INCLUINDO FILMES ACLAMADOS E PRODUÇÕES ICÔNICAS DO CINEMA LGBT, COMO “JOHAN“, “MAURICE” E O DOCUMENTÁRIO “BEFORE STONEWALL“, AGORA COM PREÇO ESPECIAL. 

Entre os filmes selecionados, há obras importantes adaptadas para a telona (“Senhorita Julia“, “Electra“, “Os Vivos e os Mortos“, “Maurice“), clássicos franceses (“Os Amantes“, “Zazie no Metrô“, “As Duas Faces da Felicidade“) e preciosidades como o noir “A Lei dos Marginais“, de Samuel Fuller, “Um Gosto de Mel“, um marco do cinema inglês, “O Condenado de Altona“, baseado em peça de Jean-Paul Sartre, “Esposamante“, com o grande Marcello Mastroianni, “Os Vivos e os Mortos“, último trabalho de John Huston, e um cult por excelência – “Paixão Selvagem“, do cantor e diretor francês Serge Gainsbourg.

Não deixe de adquirir seus filmes favoritos, nem de descobrir produções menos conhecidas, pois os estoques são limitados. Confira a seguir uma pequena amostra com 20 sugestões de nossa equipe. Tem muito mais em nosso site.

Boa sessão “cult”!
Equipe 2001

MADAME DU BARRY

Mestre da farsa sofisticada, Ernst Lubitsch dirigiu este clássico do cinema mudo na Alemanha, logo após a Primeira Guerra Mundial. Estrelado por Pola Negri e pelo maior ator alemão da época, Emil Jannings (“Fausto”), o filme acompanha as peripécias da amante do rei Louis XV da França até sua execução durante a Revolução Francesa.

O ESTUDANTE DE PRAGA

Lançado em 1926, este clássico expressionista do cinema mudo apresenta Conrad Veidt (“O Gabinete do Dr. Caligari”) no papel de um estudante pobre que faz pacto com um estranho que, em troca, rouba o seu reflexo contido no espelho. Uma raridade do cinema alemão, com simbolismos e trama semelhante ao “Fausto” de Goethe.

SENHORITA JULIA

O sueco Alf Sjöberg dirigiu e escreveu esta adaptação da peça homônima do dramaturgo August Strindberg (1849-1912), escrita em 1888, dissecando conflitos sociais seculares por meio do intenso encontro entre uma aristocrata e seu empregado, cuja relação desigual sofre uma inversão – com o dominado passando a dominador. Refilmado em 2014 (“Miss Julie“) por Liv Ullmann, o filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

ELECTRA, A VINGADORA

Depois da guerra de 10 anos contra Tróia, Agamenon volta para casa. Em sua ausência, sua esposa, Clitemnestra, esteve nos braços de um amante, que mata Agamenon logo após o seu retorno. Seus filhos, Electra e Orestes, esperam vingar, agora adultos, o assassinato do pai. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Electra” trouxe notoriedade ao grego-cipriota Michael Cacoyannis, que depois dirigiria o sucesso mundial “Zorba, o Grego”(1964).

AS TROIANAS

O cineasta grego Michael Cacoyannis notabilizou-se por sua trilogia de adaptações de grandes tragédias gregas, formada por “Electra, a Vingadora” (1961), “As Troianas” (1971) e “Ifigênia” (1977), todas estreladas por sua musa, Irene Papas, e adaptadas de peças de Eurípides. “As Troianas” não nega sua estrutura teatral, que valoriza ainda mais o trabalho de Papas, Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave (foto) e Geneviève Bujold.

A VIDA DE GALILEU

Joseph Losey (de “Uma Estranha Mulher” – também em promoção na 2001) dirige esta versão da peça “Galileu Galilei”, de Bertolt Brecht, com grande elenco britânico (Topol, Edward Fox, Colin Blakely, Margaret Leighton, John Gielgud). Um dos responsáveis pela fundação da ciência moderna, Galileu apoia a teoria de Copérnico, segundo a qual a Terra gira em torno do Sol, e entra em conflito com a Igreja Católica.

O AMANHÃ É ETERNO

Orson Welles interpreta um homem dado como morto na 1ª Guerra e que reaparece – 20 anos depois – desfigurado e com nova identidade. Ele encontra acidentalmente a esposa, Elizabeth (Claudette Colbert), e descobre ter um filho, Drew. Assim, neste clássico melodrama de 1946, o protagonista precise decidir se revela ou não a sua verdadeira identidade.

ZAZIE NO METRÔ

Dirigida por Louis Malle (“Lacombe Lucien”), esta adaptação do livro de Raymond Queneau é uma adorável e excêntrica comédia francesa que transborda criatividade, com montagem e concepção visual elaboradas, e o espírito libertário da Nouvelle Vague. No filme, Zazie, garota do interior da França, tem a chance de conhecer Paris pela primeira vez, passando dois dias na capital francesa. Hospedada na casa de seu tio Gabriel (Philippe Noiret, de “Não Toque na Mulher Branca” – também em promoção), ela cultiva um sonho: andar de metrô.

AS DUAS FACES DA FELICIDADE

Precursora da Nouvelle Vague com “La Pointe Courte” (1954), Agnès Varda (“Cléo das 5 às 7“) dirige esta evocação sem culpa sobre o casamento e o desejo, refletindo sobre o significado da felicidade e a relação conjugal. Visualmente influenciado pela pintura impressionista, este é um dos mais belos trabalhos de uma das grandes diretoras da história do cinema. Nele, um pai de família casado se envolve com outra mulher, mas não quer abandonar a esposa. Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim. Aos 89 anos, Varda concorreu ao Oscar deste ano com o documentário “Visages Villages”.

PRIVILÉGIO

A premissa do filme – um artista que tem sua individualidade sacrificada, transformando-se em um produto – nunca foi tão atual em tempos de astros-relâmpagos. Dirigido pelo influente (e provocador) documentarista britânico Peter Watkins, este clássico de 1967 desconcertou a crítica com seu misto de musical, cinema-verdade e crítica à indústria cultural, em um futuro indeterminado que não esconde suas raízes nas mudanças comportamentais da virada dos anos 1960 para os 1970.

UM BEATLE NO PARAÍSO

Corroteirista do clássico “Doutor Fantástico” (1964), o escritor Terry Southern também escreveu esta anárquica comédia lançada durante a efervescência da Swinging London sessentista. Contando com a colaboração dos ex-Monty Python John Cleese e Graham Chapman no roteiro, esta sátira surreal debocha da moral e dos costumes ingleses em uma série de esquetes com a participação de Raquel Welch, Yul Brynner e Roman Polanski, em papéis bizarros.

OS CRIMES DE OSCAR WILDE

A excelência dos atores ingleses se confirma nesta crônica do processo enfrentado pelo escritor Oscar Wilde (Peter Finch, premiado com o Bafta em 1961) na década de 1890. Acusado de manter um relacionamento com outro homem, o célebre autor de “O Retrato de Dorian Gray” luta pela liberdade, expondo sua homossexualidade numa época em que a mesma era condenada com a prisão.

PAIXÃO SELVAGEM

Estreia na direção do compositor e cantor francês Serge Gainsbourg (1928-1991), a ousada história de amor entre o personagem homossexual de Joe Dallesandro e uma garçonete (Jane Birkin) provocou escândalo com sua crueza e cenas de sexo, além de eternizar a canção “Je T’Aime Moi Non Plus”, composta originalmente para Brigitte Bardot. Serge e Birkin foram casados e tiveram uma filha, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg (“Melancolia”).

ESPOSAMANTE

Em um de seus melhores papéis, Marcello Mastroianni interpreta um comerciante ligado a grupos anarquistas. Dado como morto, ele acompanha, à distância, cada passo da esposa Antonia, que acreditava ser frígida. Antes passiva e inerte, a personagem de Laura Antonelli vive uma fase de renascimento (inclusive sexual), assumindo seus negócios. Este drama romântico dirigido por Marco Vicario fez muito sucesso no Brasil.

MAGNICÍDIO

Mais um trabalho de vanguarda do provocador cineasta britânico Derek Jarman (de “Caravaggio”), uma alegoria sobre a sociedade inglesa em um futuro pós-apocalíptico. Considerado oficialmente o primeiro filme punk da história, “Magnicídio” é um produto de seu tempo, um filme-experimento do diretor apresentando uma Inglaterra caótica e sem-lei, na qual a rainha está morta e as ruas dominadas por gangues de jovens, orgias e violência brutal.

MAURICE

Escrito por E.M. Forster (1879-1970) e publicado postumamente, o romance “Maurice” retrata as dificuldades do personagem-título em lidar com sua homossexualidade na repressora Inglaterra do começo do século XX. A adaptação para cinema é mais uma requintada produção de Ismail Merchant com direção de James Ivory, que, aos 89 anos, acaba de receber o Oscar de melhor roteiro adaptado por filme de temática semelhante, o sucesso indie “Me Chame Pelo Seu Nome” (já em pré-venda na 2001). “Maurice” venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza.

OS VIVOS E OS MORTOS

Último trabalho de John Huston, o filme é considerado seu testamento, com a filha Anjelica Huston no elenco e roteiro (indicado ao Oscar) do filho Tony – uma adaptação do conto “Os Mortos”, de “Os Dublinenses”, escrito por James Joyce. Como outras obras do célebre escritor irlandês, a história é uma meditação em torno do tempo e da memória: em 6 de janeiro de 1904, Dublin (Irlanda) celebra o Dia dos Reis, e, na casa das irmãs Morgan, Julia e Kate, são oferecidos uma ceia e um sarau a amigos e parentes.

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA E PROSTITUÍDA

Dirigido por Uli Edel, o filme é baseado no livro homônimo escrito pelos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck a partir de depoimentos de Christiane Felscherinow. Com cenas fortes, o relato marcou época e continua a chocar, apresentando um retrato melancólico e sem retoques do ocaso de uma jovem que sucumbe ao inferno das drogas. Curiosidade: na trama, Christiane vai a um show do saudoso David Bowie que, além de fazer uma ponta, marca presença na trilha sonora, composta por várias músicas de sua fase alemã, como a inesquecível “Heroes”.

OVOS DE OURO

Famoso por retratar, desde seus primeiros filmes, a sexualidade e as aspirações da classe média espanhola, Bigas Luna dirigiu esta história de ascensão e queda de um típico machão hispânico, cujas motivações materiais compõem um quadro crítico do homem contemporâneo. Com título sugestivo, o filme traz no elenco Javier Bardem, já se notabilizando como galã, e uma pequena participação de Benicio Del Toro. Prêmio Especial do Júri no Festival de San Sebastián.

SEGUNDA PELE

Produção espanhola centrada no dilema vivido pelo personagem de Jordi Mollà (“Profissão de Risco”), dividido entre a sensação de normalidade do casamento e o desejo compartilhado com o amante – interpretado por Javier Bardem, com quem protagoniza ousadas cenas de sexo. Sem apontar culpados, o filme explora a dor advinda da traição, sem esquecer também do ponto de vista da esposa.

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 E S T O Q U E S    L I M I T A D O S

AGNÈS VARDA

Nascida em 1928, Agnès Varda é uma das maiores cineastas de todos os tempos. Um de seus melhores trabalhos, Sem Teto, Nem Lei (ou Sem Teto, Sem Lei), acaba de chegar em DVD na 2001

Senhora Nouvelle Vague

Com mais de 30 filmes no currículo, a viúva de Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor) é considerada uma das maiores cineastas de todos os tempos. Nascida em 30 de maio de 1928, em Bruxelas (capital da Bélgica), ela transitou entre diferentes formatos (e gêneros) cinematográficos, sempre empregando a fotografia como base de pesquisa. Sua experiência de fotógrafa se fez notar em sua estreia na direção de cinema, La Pointe-Courte (1955), considerado por críticos e historiadores como Georges Sadoul “verdadeiramente o primeiro filme da Nouvelle Vague“. Seu longa seguinte, Cléo das 5 às 7, crônica de uma mulher esperando o resultado de uma biópsia, tornou-se um marco do movimento criado pelos ex-críticos da célebre revista francesa Cahiers du Cinéma. A cineasta realizaria mais uma obra-prima, As Duas Faces da Felicidade(1965), evocando a arte dos impressionistas, antes de exilar-se na Califórnia no final dos anos 1960, quando passou a registrar a efervescência cultural do período em vários documentários desenvolvidos a partir de imagens fixas como fotografias, pinturas ou grafite.

Arte conceitual do filme As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur)

Após uma série de trabalhos documentais, voltou em grande estilo à ficção com Sem Teto, Nem Lei, que lhe valeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1985.

Varda ao lado da protagonista de Sem teto, Nem Lei, a grande atriz francesa Sandrine Bonnaire

Semelhantes a diários ou cadernos de anotações, os filmes de Varda incorporam lirismo ao realismo, criando documentários tão interessantes quanto a ficção e longas ficcionais cujo naturalismo beira o real. Ao desafiar os códigos sociais burgueses com suas personagens iconoclastas, ela foi pioneira do cinema feminista, bem antes de Chantal Akerman (Jeanne Dielman) e Jane Campion (O Piano), propondo em sua obra uma reflexão sobre a subjetividade feminina. Sua sensibilidade e extrema curiosidade pela experiência humana permeiam cada fotograma de seus filmes.

Cartaz da retrospectiva realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil em 2006

Sem Teto, Nem Lei
(Sans toit ni loi, FRA, 1985, Cor, 105′)
Lume – Arte – 14 anos
De: Agnès Varda
Com: Sandrine Bonnaire, Setti Ramdane

O aclamado filme francês já está disponível para locação e venda na 2001

Sinopse: Uma jovem andarilha é encontrada morta de frio em uma vala. Sua história é contada por meio de depoimentos de pessoas que cruzaram o seu caminho.

 

Ao viver uma jovem sexualmente precoce em À Nos Amours (1983), dirigido por Maurice Pialat, Sandrine Bonnaire desconcertou o público, chamando a atenção da crítica dois anos depois com sua premiada interpretação da jovem andarilha Mona em Sem Teto, Nem Lei. A trajetória da personagem é narrada por aqueles que a encontraram em suas últimas semanas de vida. Como em A Grande Testemunha (1966), do mestre Robert Bresson, revela-se mais sobre quem interage com ela – seja ajudando-a, amando-a ou abusando dela – do que sobre esse espírito livre, mantido um mistério ainda maior ao longo da história. Agnès Varda dirigiu o filme após intensa pesquisa com vagabundos, rebeldes, drogados e mendigos, além de usar atores não-profissionais no elenco. Segundo ela, Mona “não é uma vítima. Não tem uma ideologia, quer apenas as pessoas longe do seu pé”.

Sandrine e sua inesquecível personagem Mona

LEÃO DE OURO
(MELHOR FILME)
FESTIVAL DE VENEZA

PRÊMIO FIPRESCI
FESTIVAL DE VENEZA

MELHOR ATRIZ
(SANDRINE BONNAIRE)
CÉSAR, FRANÇA

MAIS AGNÈS VARDA NA 2001:

Cléo das 5 às 7 (1962)

As Duas Faces da Felicidade (1965)

DICAS PARA O FIM DE SEMANA

Confira a seguir as sugestões da equipe 2001 Vídeo:

If…*
(If…., ING, 1968, Cor/P&B, 111’)
Direção: Lindsay Anderson
Elenco: Malcolm McDowell, David Wood, Richard Warwick, Christine Noonan

Filmado apenas alguns meses antes dos conflitos estudantis que explodiram em maio de 1968, em Paris, If…. tornou-se um filme emblemático do período e um símbolo de contestação que ainda não perdeu seu impacto, com um dos finais mais bombásticos e polêmicos da história do cinema. Primeiro trabalho do cineasta Lindsay Anderson lançado em DVD no Brasil, o filme revelou ainda Malcolm McDowell, que depois interpretaria outro rebelde em Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Inspirado pelo clássico Zero de Comportamento, de Jean Vigo, o filme de Anderson acompanha a revolta de estudantes em um rigoroso colégio público britânico. E é um ataque frontal ao conservadorismo de instituições que oprimem os valores (e diferenças) individuais.

* Palma de Ouro no Festival de Cannes.

A Duquesa*
(The Duchess, ING/FRA/ITA, 2008, Cor, 110’)
Direção: Saul Dibb
Elenco: Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper

Keira Knightley estrela mais uma produção de época, baseada na biografia Georgiana, de Amanda Foreman, a história da Duquesa de Devonshire (1757-1806) que, segundo alguns especialistas, teria parentesco (bem distante) com a princesa Diana, o que suscitou por parte da imprensa britânica associações da trama do filme com a vida de Lady Di. Georgiana foi criada para agradar a todos, principalmente seu marido, interpretado por Ralph Fiennes, indicado, entre outros prêmios, ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante. O inglês compõe um vilão sutil e entediado, interessado apenas em seus cães e em ter um herdeiro homem. Sua impaciência e comportamento anti-social afastam Georgiana, que precisa tomar uma difícil decisão: continuar seu papel de procriação em troca de segurança material e status, ou ser dona do próprio destino, sem as filhas. Como é de se esperar, o filme apresenta produção impecável, com destaque para os figurinos e direção de arte, indicados ao Oscar.

* Oscar e Bafta de melhor figurino.

Os Amantes do Círculo Polar*
(Los Amantes del Círculo Polar, ESP, 1998, Cor, 104’)
Direção: Julio Medem
Elenco: Najwa Nimri, Fele Martínez, Nancho Novo

Muito antes do termo sincronicidade estar na moda, o espanhol Julio Medem (Lucía e o Sexo) dirigiu esta grande história de amor repleta de coincidências temporais que influenciam definitivamente a trajetória do jovem casal Anna e Otto. Os dois se conhecem na infância, passam a viver como irmãos e eventuais amantes na adolescência, e seguem caminhos opostos na vida adulta. Alternando o ponto de vista de cada um dos apaixonados, Medem explora as possibilidades do tempo através de belas imagens e soluções visuais que se tornaram sua marca. Eventos do início são relacionados ao fim — a vida como um círculo que dá voltas até retornar a seu ponto de origem, completando questões inacabadas ou sonhos do passado. Após inúmeros encontros e desencontros, as reviravoltas da trama se justificam pelo amor quase místico entre dois seres destinados a viver juntos. Conduzidos pela sorte, destino ou acaso? Talvez a resposta seja, simplesmente, pelo amor.

* Kikito de melhor filme latino, direção, trilha sonora e roteiro no Festival de Gramado.

Caos Calmo
(Idem, ITA/ING, 2008, Cor, 105’)
Direção: Antonello Grimaldi
Elenco: Nanni Moretti, Valeria Golino, Alessandro Gassman, Isabella Ferrari

Além de atuar no filme dirigido por Antonio Grimaldi, Nanni Moretti escreveu o roteiro, que trata de temas recorrentes em sua filmografia, como a crise da meia-idade e a desilusão profissional. Somente após a morte de sua esposa que Pietro, personagem de Moretti, vem a conhecer detalhes familiares que ignorava, e a dar atenção integral à filha pequena. Imerso na própria introspecção e vazio do cotidiano burguês, ele passa a olhar a vida de forma mais livre, abandonando os compromissos e aspirações profissionais. Moretti afirma-se como um ator sensível e de recursos dramáticos, capaz de sublimar as emoções durante seu “caos calmo” interno. O filme traz ainda uma ponta de Roman Polanski como ator no final.

Fatal
(Elegy, EUA, 2008, Cor, 113’)
Direção: Isabel Coixet
Elenco: Penélope Cruz, Ben Kingsley, Dennis Hopper, Patricia Clarkson

A diretora Isabel Coixet (Minha Vida Sem Mim, A Vida Secreta das Palavras) empresta sua sensibilidade à adaptação do romance O Animal Agonizante, escrito pelo celebrado autor americano Philip Roth. O livro, escrito em forma de monólogo interior de um homem movido por uma obsessão sexual, é também uma reflexão sobre a velhice e o desejo, obsessões de um autor acostumado a examinar as mazelas da sociedade americana de forma crítica e irônica. Para o complexo personagem de David Kepesh, um intelectual com dificuldades para criar laços afetivos com alguém, ao mesmo tempo em que luta contra a própria mortalidade e desejo, o filme conta com o talento de Ben Kingsley (Gandhi, Sexy Beast). Já Penélope Cruz interpreta Consuelo, sua paixão (e eventual obsessão). O roteiro foi escrito por Nicholas Meyer, que adaptou outro romance de Philip Roth para o cinema: A Marca Humana, que deu origem ao filme Revelações (2003), com Anthony Hopkins.

Bettie Page
(The Notorious Bettie Page, EUA, P&B/Cor, 91’, 2005)
Direção: Mary Harron
Elenco: Gretchen Mol, Jared Harris, David Strathairn, Lili Taylor

Produção original HBO, com direção de Mary Harron (Psicopata Americano), cineasta atraída por personagens excêntricos e fora dos padrões sociais, sempre a serviço de sua investigação da cultura popular americana. Após ser notada pela crítica com Um Tiro para Andy Warhol (1996), Harron teve uma carreira errática no cinema, passando a dirigir episódios de séries como Oz, L Word e A Sete Palmos. Após alguns anos na produção, e muitas dificuldades, Bettie Page é seu retorno à direção de longa-metragem, em que examina não só a maior das modelos pin-ups dos anos 1950, mas também a hipocrisia da América conservadora da época. Ícone sexual, Bettie é retratada no filme como uma jovem sonhadora, otimista e sem consciência do papel libertador que suas fotos sensuais e filmes amadores, hoje ingênuos, exerciam. Filmado em preto-e-branco, com cenas em cores que refletem os poucos momentos em que Bettie teve realmente prazer e satisfação pessoal, o filme é reverente com sua biografada, sem explorar o submundo do comércio pornográfico do período. Acostumada a papéis de coadjuvante, Gretchen Mol (Cartas na Mesa) tem a chance de mostrar seu talento em uma interpretação corajosa, em que se expõe (completamente).
Extras: Um Olhar no Universo da Rainha do Pin-up * Striptease * Trechos de filmes originais da época: Stritorama, Varietease, Teaserama

Nome Próprio*
(Idem, BRA, 2008, Cor, 120′)
Direção: Murilo Salles
Elenco: Leandra Leal, Juliano Casaré, Rosane Mulholland

Fotógrafo de clássicos como Lição de Amor (1975) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), e também diretor (Nunca Fomos Tão Felizes, Como Nascem os Anjos), Murilo Salles tem enfocado diversos personagens encurralados nos próprios conflitos internos ou em situações-limite. Em seu último trabalho, Nome Próprio, Salles continua a olhar para personagens urbanos contemporâneos, e se reinventa como contador de histórias. Ao narrar a história de Camila, jovem aspirante a escritora, mergulhada em excessos e no seu blog na internet, o cineasta cria um filme de espírito jovem e linguagem moderna, e ainda exercita seus dois principais campos de atuação no cinema, ao operar a câmera e também dirigir. Apaixonada por autores malditos como John Fante (Pergunte ao Pó) e Charles Bukowski (Factotum), a personagem entrega-se a uma verdadeira descida ao inferno – o próprio, existencial – após desilusão amorosa. O blog é a principal forma de expressar sua liberdade, sensibilidade e sexualidade à flor da pele; sua nudez (física e emocional), em boa parte do filme, é a representação do desejo e liberdade de personagem que se faz múltipla, tanto nas ações quanto nas palavras — escritas e reproduzidas na tela. Realizado em suporte digital, o filme consegue, por meio da construção da linguagem, fugir do estilo meramente documental cada vez mais presente no cinema nacional. E tem em Leandra Leal – em interpretação corajosa, sem rede de segurança – uma intérprete à altura do furacão Camila.
Extras: Videoclipe Nome Próprio, com Porcas Borboletas * As Caras de Camila * Os Caras de Camila * Cigarro, Computador, Sala Vazia * O que você não vai ver em Nome Próprio * Videoclipe Direção de Arte

* Melhor filme, atriz (Leandra Leal) e direção de arte no Festival de Gramado.

As Duas Faces da Felicidade*
(Le Bonheur, FRA, 1965, Cor, 79′)
Direção: Agnès Varda
Elenco: Jean-Claude Drouot, Claire Drouot, Marie-France Boyer

Precursora da Nouvelle Vague com La Pointe Courte (1954), Agnès Varda ganhou notoriedade mundial por Cléo das 5 às 7 (1961), marco do movimento francês. Seu trabalho seguinte, As Duas Faces da Felicidade, é uma evocação sem culpa sobre o casamento e o desejo, refletindo sobre o significado da felicidade e a relação conjugal. Visualmente influenciado pela pintura impressionista, é um dos mais belos filmes de uma das grandes diretoras da história do cinema, que merece ser (re)descoberta. Nele, um pai de família casado se envolve com outra mulher, mas não quer abandonar a esposa. Quer as duas, no velho dilema de um homem tentando amar duas mulheres.

* Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim.

DE LOUIS MALLE:

(1932-1995)

Zazie no Metrô
(Zazie Dans Le Métro, FRA, 1960, Cor, 89’)
Direção: Louis Malle
Elenco: Catherine Demongeot, Philippe Noiret, Carla Marlier

Um dos primeiros (e raros em DVD no Brasil) filmes de Louis Malle (Lacombe Lucien), Zazie no Metrô é uma adorável e excêntrica comédia francesa que transborda criatividade, com montagem e concepção visual elaboradas, e o espírito libertário da Nouvelle Vague.
No filme, Zazie, garota do interior da França, tem a chance de conhecer Paris pela primeira vez, passando dois dias na capital francesa. Hospedada na casa de seu tio Gabriel (o grande Philippe Noiret, de Quinteto Irreverente), ela cultiva um sonho: andar de metrô.

O Sopro do Coração*
(Le souffle au coeur, FRA, 1971, Cor, 118’)
Direção: Louis Malle
Elenco: Lea Massari, Benoît Ferreux, Daniel Gélin, Michael Lonsdale

À semelhança de outros filmes de Louis Malle (Os Amantes, Pretty Baby – Menina Bonita), O Sopro no Coração provocou polêmica em seu lançamento devido a uma terna (e sutil) cena de incesto. Na verdade, poucos cineastas filmaram com tanta sensibilidade o calor e olhar adolescentes quanto o francês, que mostra o rito de passagem do jovem Laurent, cada vez mais interessado pelo jazz, pelo sexo e pelo universo adulto.

* Indicado ao Oscar de melhor roteiro original (Louis Malle).

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