cinema argentino

NOVIDADES DO CINEMA ARGENTINO E DO EUROPEU NA 2001

INSEPARÁVEIS (2016)

Marcos Carnevale (“Elsa & Fred”) dirige esta refilmagem argentina do sucesso francês “Intocáveis” (2011), com Oscar Martínez (“Relatos Selvagens”) no papel de Felipe, um rico empresário que fica tetraplégico após acidente. À procura de um novo assistente terapêutico, ele contrata o jovem Tito (Rodrigo de la Serna, de “Diários de Motocicleta”), sem qualquer experiência para a função.

NEVE NEGRA

Ambientado nas colinas geladas da Patagônia, este thriller argentino conta com dois astros de “Relatos Selvagens”: Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia. Darín interpreta Salvador, um fazendeiro que vive afastado da civilização em uma fazenda na região. A visita inesperada de seu irmão Marcos (Sbaraglia), a fim de convencê-lo a vender as terras da família, reacende antigos ressentimentos e segredos.

FRANTZ

Mais um belo trabalho do francês François Ozon, indicado em três categorias do European Film Awards: escolha do público, atriz (Paula Beer) e roteiro. A história se passa logo após o fim da I Guerra Mundial e acompanha Anna (Beer, premiada em Veneza), uma jovem alemã que perde o noivo no front. Um dia, surge Adrien (Pierre Niney), um ex-soldado francês que afirma ter feito amizade com o morto.

A GAROTA DESCONHECIDA

Indicado à Palma de Ouro em 2016, o filme é mais um exemplo do humanismo social da dupla de cineastas belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (“Rosetta“). Os irmãos Dardenne mostram a crise de consciência de Jenny (Adèle Haenel), jovem médica perturbada pela morte de uma imigrante africana, que na noite anterior procurou sua clínica, mas não foi atendida, pois o expediente havia encerrado.

SAINT AMOUR – NA ROTA DO VINHO

Depois do romântico “Paris Pode Esperar” (com Diane Lane), mais um road movie percorre a França. Em ritmo de comédia de erros, “Saint Amour” explora o conflito de gerações entre Jean (Gérard Depardieu) e Bruno (Benoît Poelvoorde, também diretor e roteirista), pai e filho fazendeiros que embarcam numa turnê por vinícolas no interior francês. Juntos com seu motorista, os dois passam por várias brigas e descobertas em busca de reconciliação.

MONSIEUR E MADAME ADELMAN

Com muito lirismo e humor irônico, o drama francês aborda o relacionamento de quatro décadas entre Sarah (Doria Tillier) e Victor (Nicolas Bedos, diretor e roteirista do filme). No funeral dele, Sarah é abordada por um jornalista que deseja contar a história de seu marido, um renomado escritor. A partir daí, o espectador tem acesso às diferentes fases desse longo relacionamento – e o que é melhor, pelo olhar feminino.

ROCK N’ROLL – POR TRÁS DA FAMA

Casados na vida real, Guillaume Canet e Marion Cotillard brincam com suas personas públicas nesta comédia metalinguística dirigida e escrita pelo próprio ator. Na trama, Canet, com 43 anos, é confrontado por uma repórter, que sugere que o ator está ultrapassado e não pode concorrer com os jovens de sua geração. Exibido no Festival Varilux de Cinema Francês 2017.

NA CAMA COM VICTORIA

Uma amalucada comédia francesa com Virginie Efira (indicada ao César de melhor atriz) no papel de Victoria, uma advogada metida em inúmeras confusões. A personagem está à beira de um ataque de nervos e, durante um casamento, encontra três homens que irão bagunçar sua vida: seu ex-marido, seu amigo Vincent – acusado de tentativa de homicídio – e Sam, um ex-traficante de drogas.

RODIN

Indicado à Palma de Ouro, o filme traz Vincent Lindon (“O Valor de um Homem“) no papel do escultor Auguste Rodin (1840- 1917). Em 1880, Rodin recebe a encomenda de ‘A Porta do Inferno’, obra composta de esculturas como O Beijo e O Pensador. Ele vive com Rose, sua eterna companheira, quando conhece a jovem Camille Claudel (1864-1943), que se torna sua aprendiz e amante.

CARTAS DA GUERRA

Esta produção de época foi escolhida por Portugal para representar o país na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, em 2016. Baseado nas cartas reunidas no livro de memórias “D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto”, de António Lobo Antunes, o longa rememora as experiências do autor como médico em Angola durante a guerra colonial, na década de 1970.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “O Médico Alemão”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Adoro quando consigo não me informar muito sobre um filme, quando assisto e vou descobrindo, junto com os personagens, as verdades apresentadas. Isso não é possível sempre, mas tento tomar esse cuidado – difícil, porque muitas vezes as informações chegam até nós quase que por osmose. As sinopses, por mais curtas que sejam, muitas vezes são capazes de funcionar como um imediato estraga-prazer. Nem ao trailer eu assisti. Aconteceu isso com Wakolda. Sabia pouco: que era o indicado argentino à vaga para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014. Isso bastou para que eu aproveitasse cada minuto do projeção e sentisse, mais genuinamente, a angústia e surpresa da família que hospeda um médico misterioso nos anos 1960.

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Até por isso, não entrarei em detalhes. Mas posso dizer que Wakolda é delicado na sua crueldade, tem ótimos atores e um tom que valoriza o ser humano e sua diversidade. O tempero que a diretora Lucía Puenzo consegue dar ao drama da família tem o fino trato da ironia, da maldade velada, da desconfiança mesclada com desesperança.

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Uma família cruza uma estrada deserta da Patagônia e é acompanhada por um médico desconhecido e bastante estranho, também no jeito de abordar a pequena Lilith, que aparente ter menos de 12 anos, por ter uma estatura mais baixa que o normal. A família abre um hotel na região do lago de Nahuel Huapi e esse médico se instala por ali, oferecendo-se para ajudá-los nas questões de saúde, mas também no sonho de Enzo de montar uma fábrica de bonecas.images

Wakolda é o nome de uma delas, que servem também como uma analogia de perfeição, produção em série do ser humano, moldado com as características ideais da composição de uma raça.

Mas quem era esse sujeito? O que queria? Por que tanto interesse pela família? Vale a pena você conferir.

Confira o Trailer de “O Médico Alemão“:

DIREÇÃO E ROTEIRO: Lucía Puenzo ELENCO: Natalia Oreiro, Alex Brendemühl, Diego Peretti | 2013 (93 min)

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “TESE SOBRE UM HOMICÍDIO”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Tese Sobre Um Homicídio tem no elenco aquele argentino que praticamente garante o programa. Depois de conferir o filme, tive certeza de que você não corre o risco de errar. Pelo contrário, vai ficar até o final pra saber se o personagem de Ricardo Darín tem ou não razão.

Chamariz natural em se tratando de cinema argentino, o ator Ricardo Darín (também em Elefante Branco, Um Conto Chinês, Abutres, O Filho da Noiva) é, como sempre, o centro. Mas, desta vez, divide a atenção com o perspicaz e audacioso olhar do ator Alberto Ammann. A ideia é muito boa e esse jogo de poder entre os atores, proposital. É disso que o filme trata: dois advogados, duas verdades, a mesma habilidade: boa lábia. E é aqui que o filme pega você de jeito e vai deixá-lo bem atento até o final.

Além do eletrizante embate entre os personagens de Alberto Ammann e Ricardo Darín, o filme adiciona ambiguidade à trama, à medida que o professor Roberto Bermúdez mergulha na própria obsessão e pode (ou não) ter seu julgamento afetado.

Além do eletrizante embate entre professor e aluno, a trama ganha ambiguidade à medida que o personagem de Ricardo Darín mergulha na própria obsessão e pode – ou não – ter seu julgamento afetado

De novo um advogado como em o ótimo O Segredo dos seus Olhos (Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010), Darín é Roberto Bermúdez, um charmoso e convincente professor de direito criminal, que adora trabalhar os casos de assassinatos reais em suas aulas. Até que uma moça é brutalmente assassinada enquanto ministra um dos seus cursos. Experiente, começa a desconfiar da atitude suspeita e arrogante de um de seus alunos – aquele com olhar audacioso,Gonzalo Ruiz Cordera, aquele com outra verdade.

Nesse jogo de verdades e mentiras entre eles, quem vai causar o desequilíbrio é Laura (Calu Rivero), irmã da vítima. Além, claro, de aguçar a curiosidade pelo desfecho, o roteiro é hábil e constrói o suspense. Não só sobre o assassinato, mas sobre o jogo de poder entre as duas forças masculinas, entre a força da sedução, entre as duas lógicas do raciocínio, entre a junção dos detalhes, entre a sempre possível construção de uma verdade diferente. Da sua verdade inquestionável. Seja ela real ou não.

 

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DICAS PARA O FIM DE SEMANA: “SESSÃO COMÉDIA”

Confira a seguir as dicas da equipe 2001 Vídeo:

O Incrível Mágico Burt Wonderstone
(The Incredible Burt Wonderstone, EUA, 2013, Cor, 100′)
Warner – Comédia – 14 anos
Direção: Don Scardino
Elenco: Steve Carell, Steve Buscemi, Olivia Wilde, Jim Carrey, James Gandolfini, Alan Arkin

001Inédito nos cinemas brasileiros, apesar da presença de dois astros da comédia americana – Steve Carrell (O Virgem de 40 Anos) e Jim Carrey (O Mentiroso) -, o filme satiriza os espetáculos de ilusionismo que fazem parte da indústria de espetáculos em Las Vegas.

A história começa com Burt Wonderstone ainda menino, ganhando um kit de mágica que desperta nele a chama que irá torná-lo um ilusionista de sucesso. Na vida adulta, o personagem é interpretado por Carrell, que apresenta com Anton (Steve Buscemi, de Fargo) o ultrapassado show “Uma Amizade Mágica”. Frases e piadas-clichês de shows de mágica e um ridículo corte de cabelo ilustram a canastrice do egocêntrico Burt, contratado por um implacável empresário interpretado pelo saudoso James Gandolfini (Família Soprano).

O conflito – e a derrocada do protagonista – começa com a ascensão de um mágico de rua, Steve Gray (Carrey). Em absurdas provas de resistência que incluem segurar a urina por 12 dias e deitar em cima de fogo em brasa, o novo ilusionista vai conquistando o público jovem. A popularidade de Burt cai proporcionalmente ao sucesso de seu antagonista, e a competição entre eles provoca risos nervosos em sequências de humor besteirol sem limites. Ao final, a comédia vira uma história de redenção sobre a percepção da mágica (ou ilusionismo) como negócio.

Um Golpe Perfeito
(Gambit, EUA, 2012, Cor, 89′)
Paris – Comédia – 12 anos
Direção: Michael Hoffman
Elenco: Colin Firth, Cameron Diaz, Alan Rickman, Stanley Tucci, Tom Courtenay

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Livremente adaptado do clássico Como Possuir Lissu, estrelado por Michael Caine e Shirley MacLaine em 1966, Um Golpe Perfeito mantém o charme inglês, mas com um roteiro ainda mais excêntrico, assinado pelos irmãos Ethan e Joel Coen (O Grande Lebowski, Um Homem Sério).

À vontade na comédia, Colin Firth interpreta Harry Deane, curador de arte que trabalha para Lionel Shahbandar (Alan Rickman, o Professor Snape de Harry Potter), um despótico magnata da mídia inglesa. Disposto a se vingar de seu detestável patrão, Deane planeja um elaborado golpe envolvendo o quadro Montes de Feno ao Anoitecer, de Monet. Ele recruta uma rainha de rodeios texana (Cameron Diaz) para atravessar o oceano e se passar por uma mulher cujo avô teria salvado a pintura no final da Segunda Guerra Mundial.

 
Bem produzido – a direção de arte é de Stuart Craig (Ligações Perigosas, O Paciente Inglês) e os figurinos assinados por Jenny Beavan (Vestígios do Dia, Assassinato em Gosford Park) -, o roteiro dos irmãos Coen explora o típico humor das clássicas comédias screwball americanas, tirando proveito do contraste entre o esnobismo intelectual do personagem de Firth e o provincianismo da loira burra e desinibida de Cameron.

dvd_15846E a trama se complica ainda mais com a entrada de um segundo especialista para avaliar o quadro, vivido por um ladrão de cenas chamado Stanley Tucci.

 

ALUGUE TAMBÉM NA 2001 A VERSÃO ORIGINAL:
Como Possuir Lissu (1966)

 

O Dobro ou Nada
(Lay The Favorite, EUA/ING, 2012, Cor, 94′)
Paris – Comédia – 12 anos
Direção: Stephen Frears
Elenco: Rebecca Hall, Bruce Willis, Catherine Zeta-Jones, Joshua Jackson, Vince Vaughn

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Cineasta de prestígio entre os anos 1980 e 90, graças a filmes como Ligações Perigosas e Os Imorais, Stephen Frears investe na comédia ligeira, retratando o mundo das casas de apostas em Las Vegas.

Baseado em história real, relatada no livro autobiográfico Lay the Favorite – A Memoir of Gambling (de Beth Raymer), o filme mostra a trajetória de Beth, uma ex-stripper (a inglesa Rebecca Hall, de Vicky Cristina Barcelona) que se torna funcionária do empresário vivido por Bruce Willis. Atrapalhada, sonhadora e sem consciência de seu poder de atração sobre os homens, ela vai despertar ciúmes na esposa do chefe, uma perua interpretada por Catherine Zeta-Jones. De uma crônica divertida sobre uma jovem destrambelhada que sonha em ser “garçonete de coquetéis”, a comédia dramática torna-se um relato fugaz sobre indivíduos tentando levar algum tipo de vantagem (financeira, sexual) em tempos de crise econômica americana.

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Um Bom Partido
(Playing for Keeps, EUA, 2012, Cor, 106′)
Swen – Comédia Romântica – 12 anos
Direção: Gabriele Muccino
Elenco: Gerard Butler, Jessica Biel, Uma Thurman, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Judy Greer

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A história de um famoso jogador de futebol aposentado (Gerard Butler, A Verdade Nua e Crua), que tenta reconstruir a relação com seu filho e a ex (Jessica Biel), enquanto treina o time do garoto. Falido, com a carreira encerrada aos 36 anos, ele é obrigado a vender camisas, chuteiras e outros acessórios usados para completar sua renda.

Paralelamente ao trabalho com os meninos do time juvenil, o treinador interpretado pelo galã escocês de P.S. Eu Te Amo é assediado pelas mães dos jogadores – interpretadas por Uma Thurman, Catherine Zeta-Jones e Judy Greer.

Sentimental, o filme é mais uma história de redenção sob a direção do italiano Gabriele Muccino (À Procura da Felicidade).

 
2 Mais 2
(Dos Más Dos, ARG, 2013, Cor, 103′)
Paris – Cinema Latino-Americano – 14 anos
Direção: Diego Kaplan
Elenco: Adrián Suar, Carla Peterson, Julieta Díaz, Juan Minujín

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Maior bilheteria do cinema argentino em 2012, a comédia dramática de Diego Kaplan (diretor especializado em produções para TV) aborda um assunto tabu: a troca de casais entre amigos, o famoso “swing”.

2 Mais 2 aborda enredo semelhante ao do longa francês Para Poucos, só que substitui a introspecção e ousadia pelo bom humor. Durante um jantar, dois casais de amigos – Ricardo e Betina, e Diego e Emilia – trocam confidências. Betina revela à amiga que faz “swing” junto com Ricardo há anos. A notícia desconcerta Emilia e o ainda mais conservador Ricardo, despertando nos dois uma chama adormecida que faz o casal confrontar sua própria sexualidade.

Está estabelecido o dilema: as esposas e Diego não veem a hora de trocar de parceiros entre o grupo, mas Ricardo permanece resistente à ideia. Acostumado a viver tipos atrapalhados como o protagonista de Um Namorado Para Minha Esposa (2009), o ator Adrián Suar interpreta Ricardo, um pai de família que, antes careta, depois não quer mais largar a vida sexual dupla.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “VIÚVAS”

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Duas mulheres dividem o mesmo homem, e a verdade vem à tona quando este morre subitamente no sensível drama argentino "Viúvas". O filme trata da difícil aproximação entre as mulheres do título, humanizando o papel da amante

Duas mulheres dividem o mesmo homem, e a verdade vem à tona quando este morre subitamente no sensível drama argentino “Viúvas”. O filme trata da difícil aproximação entre as mulheres do título, humanizando o papel da amante

Não é nenhum Elsa & Fred, o grande sucesso do diretor argentino Marcos Carnevale. Nem Família Rodante, outro emblemático filme, desta vez do também argentino Pablo Trapero, sobre o delicado que são as relações humanas. Quem dirá as familiares…. Mas Viúvas é um bom filme. Não me importei com o fato de ser improvável. Faz parte do conto, ainda mais quanto se trata de um assunto difícil que é a aceitação de uma nova realidade.

Elas amam o mesmo homem, até que um AVC tumultua o esquema que vinha funcionando por anos. Ele amava sua mulher Elena (Graciela Borges, também em Dois Irmãos), mas mantinha uma relação também amorosa com Adela (Veleria Bertuccelli), uma moça bem mais jovem. Pouco antes de morrer, ele pede à sua esposa que cuide da garota – que por si só já é um tanto quanto estranho. O filme tem um bônus importante, que é a participação da atriz argentina Rita Cortese, também em Herencia, Dois Irmãos.

A amante e a esposa do falecido: uma relação difícil de acreditar, mas humanizada a ponto de quase se tornar crível

A amante fragilizada e a profissionalmente bem sucedida esposa do falecido: uma relação difícil de acreditar, mas humanizada a ponto de quase se tornar crível

Acho que Carnevale imprime o humor no absurdo da relação que tenta se formar entre a esposa e a amante do seu marido. Há cenas cômicas; há outras que me tocaram quanto foi possível esquecer a traição e valorizar a pessoa, a relação nova e positiva que pode nascer. Quando Elena pode esquecer. Gosto do filme, mais do que andam dizendo por aí. De alguma maneira, é quase um conto sobre a possibilidade de gerar sentimentos novos a partir do improvável.

 

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “INFÂNCIA CLANDESTINA”

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Selecionado pela Argentina para disputar uma das indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano, "Infância Clandestina" ficou de fora, mas não deixa de ser um grande filme, tratando de maneira singela um tema sério - a luta contra a ditadura

Selecionado pela Argentina para disputar uma das indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano, “Infância Clandestina” ficou de fora da categoria (ven cida por “Amor”), mas não deixa de ser um belo trabalho, tratando de maneira singela um tema sério – a luta contra a ditadura

Que fique bem claro: a produção escolhida pela Argentina para concorrer à indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, disputando vaga com O Palhaço, também é brasileira. O próprio Benjamín Ávila, diretor do filme, não mediu palavras – e elogios – ao roteirista brasileiro Marcelo Müller, com quem dividiu o difícil trabalho de escrever um roteiro que conseguisse misturar, de forma harmônica, ficção e realidade. O resultado foi o belo trabalho que é Infância Clandestina, agora disponível na 2001 Video.

Na conversa com jornalistas após a exibição do filme, fiquei sabendo que o personagem Juan (Teo Gutiérrez Romero), um garoto de 12 anos, em parte encena a experiência do próprio diretor argentino. “O filme está baseado na minha infância, no que eu e meus irmãos vivemos. Não é autobiográfico, mas a partir dela criamos elementos fictícios para construir a história”, revela Benjamín Ávila. “Rodamos com o filme por festivais em todo o mundo e fiquei emocionado quando várias pessoas se manifestaram dizendo que também se sentiam como Juan. Um senhor de 75 anos da África do Sul que sofreu no Apartheid, uma mulher de 30 da Ucrânia que foi perseguida em seu país e uma iraniana de 24, que viveu a falta de liberdade.”

Além de tratar a luta armada contra a repressão na Argentina, nos anos 1970, o filme acompanha o rito de passagem do menino Juan (Teo Gutiérrez Romero), que descobre o amor

Além de mostrar a luta armada na Argentina dos anos 1970, o filme acompanha o rito de passagem do menino Juan (Teo Gutiérrez Romero), que descobre o amor. “Infância Clandestina” é narrado de seu ponto de vista

E é verdade. O filme fala da Argentina, mas tem o tema universal da repressão, do confisco da liberdade, da ruptura forçada das famílias. E, convenhamos, o cinema argentino sabe falar do assunto com muita competência. “O debate está muito mais vivo na Argentina do que aqui”, analisa Müller. “O argentino está mais debruçado, porque lá as violações aos direitos humanos ainda continuam. Há cerca de 400 crianças desaparecidas, que são hoje homens e mulheres que vivem em alguma parte do mundo e que não sabem sua história.” Aqui a recente Comissão da Verdade reativou o assunto; na Argentina, nunca foi apagado. “O filme seria diferente se o roteirista fosse argentino. Sendo brasileiro, ajudou para que a história fosse universal. Acredito muito mais nessa ideia de coprodução, do que quando ela é puramente econômica”, arremata.

Além de ter sido coescrito por um brasileiro (Marcelo Müller), o filme conta ainda com os atores Mayana Neiva e Douglas Simon, que interpretam parentes brasileiros de Juan

Além de ter sido coescrito por um brasileiro (Marcelo Müller), o filme ainda conta com os atores Douglas Simon e Mayana Neiva, nos papéis de parentes brasileiros de Juan

O ponto central do filme é Juan, que tem 12 anos e transmite, em todas as cenas, sem exceção, sua visão do que está acontecendo com seus pais guerrilheiros, perseguidos pelos militares nos anos 1970. A vida familiar, cotidiana e afetiva é totalmente integrada à vida clandestina, ao nome falso, ao esconderijo. Isso é tão forte no filme que até pareceu que o ator Teo Gutiérrez Romero já tivesse alguma experiência. Ávila me respondeu que não, que foi feito um trabalho de casting fortíssimo e que, de fato, Teo conseguiu transmitir a força, antagonismo e a luta pelo ideal da época, sem que seu lado emotivo, infantil, da descoberta do primeiro amor fossem deixados de lado.

Não pude deixar de lembrar outros filmes que também retratam a realidade dos anos de chumbo através do olhar infantil. O brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o chileno Machuca, o argentino Kamtchaca (ainda inédito em DVD no Brasil), e ainda o francês A Culpa é do Fidel. Mas Infância Clandestina usa uma ferramenta interessante e que foi muito bem ponderada no contexto da passagem da infância para a vida adulta – o próprio título já transmite esse antagonismo. Apesar de ter sido um movimento arriscado, decidiram usar a animação para retratar as cenas de violência contra os membros da família. O uso do traço adulto, quase um mangá, mistura fantasia e realidade, num desenho maduro e intenso. “Resolvemos fazer a animação nas cenas de agressão física, porque se filmássemos não seria novidade para ninguém”, diz Ávila. E funcionou, chama a atenção de todos e dá o tom dramático e lúdico que se pretendia. Afinal, segundo ele, é um filme para gerar perguntas, e não fornecer respostas.

 

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OPINIÃO: “ELEFANTE BRANCO”, COM RICARDO DARÍN

Exibido na mostra "Um Certo Olhar" no Festival de Cannes do ano passado, "Elefante Branco" é mais um forte drama de Pablo Trapero ("Leonera", Abutres") a investigar as mazelas da sociedade argentina. Fãs do diretor e do ator Ricardo darín não podem perder o filme, já disponível para locação em DVD e Blu-ray nas lojas da 2001

Exibido na mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes do ano passado, “Elefante Branco” é mais um contundente trabalho de Pablo Trapero (“Leonera”, Abutres”) a investigar as mazelas da sociedade argentina. Fãs do diretor e do ator Ricardo Darín não podem perder o filme, já disponível para locação em DVD e Blu-ray nas lojas da 2001

RICARDO DARÍN EM UM INUSITADO FILME DE FAVELA ARGENTINO

Elefante Branco, filme mais recente do diretor Pablo Trapero (Abutres, Família Rodante), é mais um notável exemplo da produção cinematográfica argentina atual que traz Ricardo Darín como protagonista. Aqui, o famoso ator argentino vive o padre Julián, um jesuíta que dedica sua vida e sua paróquia aos moradores da favela conhecida como Villa Vírgen, localizada no centro de Buenos Aires.

Darín aparece sóbrio e contido como o veterano que escolhe o voluntarioso padre francês Nicolás (Jérémie Renier, de O Garoto da Bicicleta) para ser seu sucessor. Martina Gusmán (que trabalhou com o diretor também em Abutres e Leonera) completa o trio de protagonistas como a assistente social cuja vida é integralmente voltada para os moradores da Villa, e que acaba por se envolver amorosamente com Nicolás.

Mais conhecido por seus trabalhos sob a direção dos irmãos Dardenne ("A criança", "O Garoto da Bicicleta"), o belga Jérémie Renier contracena a argentina Martina Gusman, esposa de Trapero

Mais conhecido por suas atuações sob a direção dos irmãos Dardenne (“A Criança”, “O Garoto da Bicicleta”), o belga Jérémie Renier contracena com a argentina Martina Gusman, esposa de Trapero

O título do filme faz referência a uma enorme construção dos anos 1920 na área da Villa, hoje abandonada e transformada em uma ocupação habitacional irregular, mas também aos enormes conflitos pessoais e sociais que o padre Julián e seus poucos aliados vivem e destrincham ao longo da narrativa, em meio à violência e miséria que permeia a realidade em que estão inseridos.

É interessante pensar em Elefante Branco a partir dos chamados “favela movies” brasileiros, uma vez que o diretor Pablo Trapero parte de uma proposta semelhante: retratar, tendo histórias e dramas individuais como fio condutor, a realidade das favelas para chegar a um registro muito original e sutil.

Trapero no set, orientando o elenco

Trapero no set, orientando o elenco. Na filmografia do cineasta, é flagrante o tema da corrupção, não só aquela que emerge nas instituições, mas também a que corrompe, de diferentes maneiras, um indivíduo

Enquanto os brasileiros Tropa de Elite 1 e 2, por exemplo, buscam dar conta das relações de poder no tráfico de drogas no Rio de Janeiro através da trajetória de um herói inspirado em personagens de filmes de ação hollywoodianos, Elefante Branco também não se furta a mostrar a miséria ou o tráfico e uso de drogas escancarados na tela e na vida dos personagens, mas o faz em planos longos e crus, de um realismo incômodo, e quase sempre recusando qualquer tipo de clímax ou glamourização.

O recurso do anticlímax funciona também para manter uma tensão constante, e passar ao espectador a sensação de “beco sem saída”. Mesmo momentos de ternura ou humor não oferecem alívio ou plenitude aos personagens: são sempre rápidos, delicados, incompletos, e se perdem em meio aos conflitos que eles enfrentam com o mundo — a violência no tráfico, a Igreja ausente, o Estado opressor — ou consigo mesmos; o medo da morte, a frustração e o questionamento da vocação religiosa.

Elefante Branco é um daqueles filmes que entalam na garganta, mas do qual não queremos sair, não apenas porque trata de uma realidade com a qual qualquer cidadão de uma metrópole do terceiro mundo entrará em contato ao longo da vida, mas porque seus personagens estão muito vivos: o grande feito de Pablo Trapero é, justamente, ter feito um filme sobre pessoas e, ainda assim, deixar vir à tona o que há de profundamente político e comovente na vida cada uma delas.

 

Cliente da 2001, BEATRIZ MACRUZ é formada em jornalismo pela PUC-SP e cinéfila.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “NOVE RAINHAS”

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Saiu finalmente em DVD o ótimo Nove Rainhas, filme que ajudou a criar a (ótima) reputação do cinema argentino no Brasil, além de consolidar como astro o ator Ricardo Darín

Aproveitando que Ricardo Darín está novamente nos cinemas com Elefante Branco, o lançamento de Nove Rainhas em DVD cai como uma luva. Este é o filme que colocou Darín no radar dos grandes atores argentinos, que deu conta de solidificar sua presença e importância com O Filho da Noiva, O Segredo dos seus Olhos, Abutres, Um Conto Chinês – que são os que gosto mais. Os 110 primeiros minutos de Nove Rainhas são agradáveis, divertidos, bem roteirizados, criativos e tudo mais. Mas são os quatro minutos finais que fazem o filme.

Gastón Pauls e Ricardo Darín em cena: aprendiz e mentor na arte da trapaça

Claro que não entrarei nessa seara, mesmo porque adorei não ter nem ideia do que poderia acontecer. Aliás, eu tinha, já que as trapaças dos dois farsantes só poderia ter dois fins: ou se dariam muito bem, ou muito mal. Acontece que Marcos e Juan, dois vigaristas de marca maior, têm destino inusitado ao tentar vender a um colecionador de selos uma falsificação do Nove Rainhas, um exemplar raro que valia uma fortuna. Rodado em Buenos Aires, Nove Rainhas tem um desfecho inesperado, muito bem pensado e arquitetado pelo diretor e roteirista Fabián Bielinsky. Sim, uma obra de arquitetura, complexa e delicada, assim como eram as manobras da dupla para passar a perna em quem aparecesse pela frente.

 

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QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “NOVE RAINHAS”

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Saiu finalmente em DVD o ótimo Nove Rainhas, filme que ajudou a criar a (ótima) reputação do cinema argentino no Brasil, além de consolidar como astro o ator Ricardo Darín

Aproveitando que Ricardo Darín está novamente nos cinemas com Elefante Branco, o lançamento de Nove Rainhas em DVD cai como uma luva. Este é o filme que colocou Darín no radar dos grandes atores argentinos, que deu conta de solidificar sua presença e importância com O Filho da Noiva, O Segredo dos seus Olhos, Abutres, Um Conto Chinês – que são os que gosto mais. Os 110 primeiros minutos de Nove Rainhas são agradáveis, divertidos, bem roteirizados, criativos e tudo mais. Mas são os quatro minutos finais que fazem o filme.

Gastón Pauls e Ricardo Darín em cena: aprendiz e mentor na arte da trapaça

Claro que não entrarei nessa seara, mesmo porque adorei não ter nem ideia do que poderia acontecer. Aliás, eu tinha, já que as trapaças dos dois farsantes só poderia ter dois fins: ou se dariam muito bem, ou muito mal. Acontece que Marcos e Juan, dois vigaristas de marca maior, têm destino inusitado ao tentar vender a um colecionador de selos uma falsificação do Nove Rainhas, um exemplar raro que valia uma fortuna. Rodado em Buenos Aires, Nove Rainhas tem um desfecho inesperado, muito bem pensado e arquitetado pelo diretor e roteirista Fabián Bielinsky. Sim, uma obra de arquitetura, complexa e delicada, assim como eram as manobras da dupla para passar a perna em quem aparecesse pela frente.

 

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

OPINIÃO: O HOMEM AO LADO

Premiado em diversos festivais internacionais, O Homem ao Lado é mais uma prova da qualidade e diversidade do cinema argentino. Disponível em DVD na 2001, o filme é um drama imprevisível com toques de humor negro e crítica social

Quando pensamos em cinema argentino, logo associamos filmes com Ricardo Darín. Porém, o filme O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado, 2009) foge desse estereótipo. A história se desenvolve através do conflito gerado entre dois vizinhos – Leonardo (Rafael Spregelburd) e Victor (Daniel Aráoz). O primeiro é um designer industrial de sucesso que vê, junto com a esposa, filha e empregada, sua privacidade invadida quando Victor  resolve abrir uma janela em frente a sua casa (por sinal, única obra projetada na América Latina pelo renomado arquiteto franco-suíço Le Corbusier).

O filme foi todo rodado na casa Curutchet, projetada pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier na cidade argentina de La Plata entre 1948 e 1949

Apesar do barulho, da situação conflituosa entre um vizinho que a todo custo quer um pouco de sol em sua casa – e o outro que acha tudo um absurdo –  e das discussões até engraçadas, a trama mostra a dificuldade que Leonardo tem em lidar com a filha e com a esposa, assim como a iniciativa de Victor em iniciar uma ‘amizade’ com o vizinho.

O ponto alto de O Homem ao Lado é esmiuçar as diferenças sociais entre um vizinho rico, egocêntrico e prepotente, que a princípio parece ser a vítima da situação, e o vizinho rude, mas de coração mole e engraçado. À distância, ele tenta de todas as formas animar a filha do vizinho com seu show, em que seus dedos vestem saias e botas estilo cowboy, dançando em um cenário com bananas, feito em uma caixa de papelão.

Premiados no Sundance Festival, os atores Rafael Spregelburd (Leonardo) e Daniel Aráoz (Victor) em cena: Duelo de interpretação – e classes sociais

O filme merece ser visto, pelo enredo e, sobretudo, pela bela atuação de Daniel Aráoz e Rafael Spregelburd, que dividiram o prêmio de melhor ator no Festival Sundance em 2010. O festival criado por Robert Reford ainda reconheceu o longa argentino nas categorias de melhor fotografia e direção (Mariano Cohn e Gastón Duprat).    

 

Comentário de
Daniele Fuica
Colaboradora da 2001 Jardins
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