cinema britânico

PREMIADO COM A PALMA DE OURO, “EU, DANIEL BLAKE” É UM RETRATO DE NOSSO TEMPO

MAIS UM PUNGENTE DRAMA SOCIAL DE KEN LOACH, VENCEDOR  DO BAFTA DE MELHOR FILME BRITÂNICO DO ANO E DO CÉSAR DE MELHOR LONGA ESTRANGEIRO. UMA OBRA FUNDAMENTAL PARA REFLETIR SOBRE A DURA REALIDADE EM QUE VIVEMOS, NOSSO PRESENTE E, SOBRETUDO, NOSSO FUTURO.

Com o filme, o britânico Ken Loach juntou-se ao seleto grupo de cineastas premiados com duas Palmas de Ouro na carreira; honraria que recebeu antes por “Ventos da Liberdade”, em 2006.

Eu, Daniel Blake” gerou muita repercussão em veículos especializados, em razão das semelhanças entre o drama vivido pelo personagem-título e as dificuldades dos trabalhadores mais velhos para se aposentar e viver com dignidade no Brasil – especialmente em tempos de crise (e pré-reforma da Previdência). Segundo inúmeros analistas, ele representa a dura realidade contemporânea, mostrando a crise do sistema de previdência, a burocracia estatal para se conseguir um auxílio-doença e as consequências da falta de emprego para a população na Inglaterra.

Ken Loach com a Palma de Ouro recebida pelo filme no Festival de Cannes do ano passado

Para André Miranda, do jornal O Globo, por exemplo, “Ao mesmo tempo em que são absurdamente tocantes os desesperos de Daniel Blake e de quem está à sua volta, sua firmeza moral é inspiradora. No mundo atual, somos todos Daniel Blake. Ao menos deveríamos ser”.

Na trama, Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro de pouco mais de 60 anos que vive sozinho em Newcastle, após a morte da esposa. Ao sofrer um infarto, ele fica impedido de trabalhar e tenta dar entrada no auxílio-doença concedido pelo governo. Contudo, segundo a avaliação da empresa terceirizada contratada pela seguridade social britânica o caso de Daniel não atingiu pontuação suficiente para receber o benefício.

Embora médicos e terapeutas atestem que ele não pode trabalhar, o governo afirma o contrário. Começa o calvário de Daniel, que não pode receber da empresa, nem o auxílio do governo. Esmagado diariamente pela burocracia do Estado, em horas de espera no telefone ou submetido ao atendimento mecanizado de funcionários públicos. Mesmo sem salário e sem pensão, ele não perde a esperança e luta por seus direitos, além de usar seu tempo livre para ajudar uma jovem mãe solteira de duas crianças.

O filme tornou-se um retrato emblemático do tempo em que vivemos, da ineficiência do Estado e do desemprego — não só na Europa. É mais um poderoso grito de denúncia de um dos maiores humanistas do cinema, Ken Loach.

“Uma vez que você sabe a história que quer contar, você tem de ser verdadeiro com as pessoas.”  Ken Loach

DO MESMO DIRETOR NA 2001:
Jimmy’s Hall (2014)
A Parte dos Anjos (2012)
Rota Irlandesa (2010)
Tickets (2005)

CONHEÇA OS VENCEDORES DO PRÊMIO BAFTA 2017

NO ÚLTIMO DOMINGO (12/2), “LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES”  FOI SAGRADO O GRANDE CAMPEÃO Da 70ª EDIÇÃO DO BAFTA, PRINCIPAL PREMIAÇÃO BRITÂNICA DE CINEMA.

O MUSICAL LEVOU CINCO PRÊMIOS: MELHOR FILME, DIREÇÃO (DAMIEN CHAZELLE), ATRIZ (EMMA STONE), FOTOGRAFIA E TRILHA SONORA. ALÉM DE STONE, CASEY AFFLECK E VIOLA DAVIS CONFIRMARAM SEU FAVORITISMO, POR SUAS ATUAÇÕES EM, RESPECTIVAMENTE, “MANCHESTER À BEIRA MAR” E “UM LIMITE ENTRE NÓS” (“FENCES”, NO ORIGINAL)

Destaque para uma singularidade do Bafta, a estatueta de melhor filme britânico, que foi para “Eu, Daniel Blake”, de Ken Loach. Já o grande comediante Mel Brooks recebeu, aos 90 anos, o recém-criado “Fellowship BAFTA”, espécie de prêmio honorário por sua contribuição ao cinema.

Quatro dos premiados da festa: Emma Stone (“La La Land”), Mel Brooks, Viola Davis (“Um Limite Entre Nós”) e Casey Affleck (“Manchester à Beira Mar”)

Revelado em “Quem Quer Ser um Milionário?”, Dev Patel foi uma das poucas surpresas da noite, vencendo como melhor ator coadjuvante pelo drama “Lion – Uma Jornada para Casa”. E “Kubo e as Cordas Mágicas” bateu o favorito “Zootopia” na categoria de melhor longa de animação.

Confira a seguir a lista completa do Bafta 2017, com os vencedores em negrito.

MELHOR FILME
A Chegada
Eu, Daniel Blake
La La Land – Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
Moonlight: Sob a Luz do Luar

PRÊMIO ALEXANDER KORDA PARA MELHOR FILME BRITÂNICO DO ANO
American Honey
Denial
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Eu, Daniel Blake
Notes On Blindness
Sob as Sombras

MELHOR ATOR
Andrew Garfield – Até o Último Homem
Ryan Gosling – La La Land – Cantando Estações
Casey Affleck – Manchester à Beira-Mar
Jake Gyllenhaal – Animais Noturnos
Viggo Mortensen – Capitão Fantástico

As cinco indicadas ao Bafta de melhor atriz. Duas delas ficaram de fora da lista do Oscar: Amy Adams por “A Chegada” e Emily Blunt por “A Garota no Trem

MELHOR ATRIZ
Emma Stone – La La Land – Cantando Estações
Natalie Portman – Jackie
Amy Adams – A Chegada
Meryl Streep – Florence: Quem É Essa Mulher?
Emily Blunt – A Garota no Trem

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aaron Taylor-Johnson – Animais Noturnos
Dev Patel – Lion – Uma Jornada para Casa
Jeff Bridges – A Qualquer Custo
Hugh Grant – Florence: Quem É Essa Mulher?
Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Hayley Squires – Eu, Daniel Blake
Michelle Williams – Manchester à Beira-Mar
Naomie Harris – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Nicole Kidman – Lion – Uma Jornada para Casa
Viola Davis – Um Limite entre Nós

Viola Davis segue favorita ao Oscar por “Fences”, drama dirigido e estrelado por Denzel Washington. O filme recebeu o título no Brasil de “Um Limite Entre Nós”.

PRÊMIO DAVID LEAN DE MELHOR DIREÇÃO
Denis Villeneuve – A Chegada
Ken Loach – Eu, Daniel Blake
Damien Chazelle – La La Land – Cantando Estações
Kenneth Lonergan – Manchester à Beira-Mar
Tom Ford – Animais Noturnos

MELHOR MONTAGEM
A Chegada
Até o Último Homem
La La Land – Cantando Estações
Animais Noturnos
Manchester à Beira-Mar

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
A Qualquer Custo
Eu, Daniel Blake
La La Land – Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion – Uma Jornada para Casa
Animais Noturnos

O ator britânico de origem indiana Dev Patel, em “Lion”, longa baseado em história real

MELHOR FOTOGRAFIA
A Chegada
A Qualquer Custo
La La Land – Cantando Estações
Lion – Uma Jornada para Casa
Animais Noturnos

MELHOR DESIGN DE ARTE
Doutor Estranho
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, César!
La La Land – Cantando Estações
Animais Noturnos

MELHORES EFEITOS VISUAIS
A Chegada
Doutor Estranho
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Mogli: O Menino Lobo
Rogue One: Uma História Star Wars

A incrível recriação dos animais em computação gráfica de “Mogli”, produzido pela Disney, levou o Oscar de efeitos visuais

MELHOR FIGURINO
Aliados
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Florence: Quem É Essa Mulher?
Jackie
La La Land – Cantando Estações

MELHOR PENTEADO E MAQUIAGEM
Florence: Quem É Essa Mulher?
Doutor Estranho
Até o Último Homem
Animais Noturnos
Rogue One: Uma História Star Wars

PRÊMIO ANTHONY ASQUITH PARA TRILHA SONORA
A Chegada
Jackie
La La Land – Cantando Estações
Lion
Animais Noturnos

MELHOR SOM
A Chegada
Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Até o Último Homem
La La Land – Cantando Estações

Aclamado pela crítica, a ficção-científica “A Chegada”, do mesmo diretor de “Incêndios” – Denis Villeneuve -, já está em pré-venda em DVD e Blu-ray na 2001

MELHOR FILME DE ESTREIA DE UM ROTEIRISTA, DIRETOR OU PRODUTOR BRITÂNICO
Mike Carey, Camille Gatin – The Girl With All The Gifts
George Amponsah, Dionne Walker – The Hard Stop
Pete Middleton, James Spinney, Jo-Jo Ellison – Notes On Blindness
John Donnelly, Ben Williams – The Pass
Babak Anvari, Emily Leo, Oliver Roskill, Lucan Toh – Sob as Sombras

MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO-INGLESA
Dheepan
Julieta
Mustang
O Filho de Saul
Toni Erdmann

MELHOR LONGA DE ANIMAÇÃO
Procurando Dory
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana
Zootopia

Produzido pelo estúdio Laika, “Kubo e as Cordas Mágicas” está disponível em DVD no acervo da 2001

MELHOR DOCUMENTÁRIO
13th
The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years
The Eagle Huntress
Notes On Blindness
Weiner

MELHOR CURTA BRITÂNICO
Consumed
Home
Mouth Of Hell
The Party
Standby

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO BRITÂNICO
The Alan Dimension
A Love Story
Tough

ESTRELA EM ASCENSÃO
Anya Taylor-Joy
Laia Costa
Lucas Hedges
Tom Holland
Ruth Negga

ADEUS PETER O’TOOLE (1932–2013), PARA SEMPRE LAWRENCE DA ARÁBIA

NO ÚLTIMO DOMINGO (15/12), PETER O’TOOLE FALECEU EM UM HOSPITAL LONDRINO, AOS 81 ANOS. FAMOSO PELOS PERSONAGENS HISTÓRICOS EM CLÁSSICOS DO CINEMA COMO LAWRENCE DA ARÁBIA, BECKET E O LEÃO NO INVERNO, FOI INDICADO OITO VEZES AO OSCAR DE MELHOR ATOR E RECEBEU APENAS O PRÊMIO HONORÁRIO, EM 2003. EM CINCO DÉCADAS DE CARREIRA, ELE ATUOU EM MAIS DE 70 TRABALHOS PARA CINEMA E TV.

Seamus Peter O’Toole nasceu em 2 de agosto de 1932 em Connemara, na Irlanda, e aos 6 anos mudou-se para a cidade inglesa de Leeds. Na juventude, trabalhou no jornal Yorkshire Evening News como repórter, serviu na Marinha inglesa e, em 1953, conseguiu uma bolsa de estudos na Royal Academy of Dramatic Arts, onde conheceu atores como Albert Finney, Alan Bates e Richard Harris, parte de uma geração de ouro que depois migraria para Hollywood.

O’Toole tornou-se um dos mais promissores talentos do teatro britânico. Em 1955, já no célebre teatro Bristol Old Vic, ganhou notoriedade ao interpretar Hamlet e, nos anos seguintes, ingressaria na TV em pequenos papéis. A estreia no cinema veio em 1960 e, mesmo sem ser conhecido pelo grande público, foi escolhido pelo diretor David Lean e pelo produtor Sam Spiegel para viver T.E. Lawrence. Arqueólogo, militar e escritor, Lawrence liderou a rebelião árabe contra os turcos durante a I Guerra Mundial.

Em abril de 2006, a revista norte-americana Premiere compilou uma lista com as 100 melhores atuações de todos os tempos no cinema. A interpretação de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia ficou no topo da lista, em 1º lugar.

Em abril de 2006, a revista norte-americana Premiere compilou uma lista com as 100 melhores atuações de todos os tempos no cinema. A interpretação de Peter O’Toole em Lawrence da Arábia ficou no topo da lista, em 1º lugar.

Vencedor de 7 Oscars, incluindo melhor filme e direção, o épico Lawrence da Arábia transformou O’Toole em astro da noite para o dia, e valeu ao ator a primeira de suas oito indicações ao prêmio.

Seduzido pela fama e prestígio do cinema, o ator experimentou, assim como seus pares, uma ascensão meteórica nos anos 1960. Em 1964, Becket lhe deu a chance de contracenar com o amigo Richard Burton. Conhecidos por seu estilo teatral e pela intensidade de suas atuações, O’Toole e Burton compartilharam aventuras dentro e fora das telas. Reconhecidos com indicações ao Oscar, os dois travam um duelo de interpretação nos papéis do rei Henry II e Becket.

Peter O'Toole ao lado de outro célebre beberrão inveterado do cinema, Richard Burton, no clássico "Becket, o Favorito do Rei"

Peter O’Toole ao lado de outro célebre beberrão inveterado do cinema, Richard Burton, no clássico “Becket, o Favorito do Rei”

O’Toole brilhou novamente no papel de Henry II em 1968, estrelando mais uma adaptação de peça teatral, O Leão no Inverno. Desta vez, o embate é com Eleanor de Aquitânia, brilhantemente interpretada por Katharine Hepburn, no filme que valeu a terceira indicação ao Oscar para o ator.

Novamente no papel do rei Heny II - e ainda melhor - ao lado de Katharine Hepburn em "O Leão no Inverno". O'Toole brilha com uma das melhores atuações de sua carreira, interpretando com credibilidade o monarca que completa 50 anos. O ator tinha apenas 35 anos na época

Novamente no papel do rei Heny II – e ainda melhor – ao lado de Katharine Hepburn em “O Leão no Inverno”. O’Toole brilha com uma das melhores atuações de sua carreira, interpretando com credibilidade o monarca que completa 50 anos. O ator tinha apenas 35 anos na época

Seguiram-se mais quatro nomeações ao prêmio: em 1970 por Adeus, Mr. Chips, em 1973 por A Classe Dominante, em 1981 por O Substituto (ainda inédito em DVD no Brasil), e em 1983 pela comédia Um Cara Muito Baratinado (também inédita no home vídeo). Quase um quarto de século depois, veio a oitava e última, pelo drama Vênus.

Depois de uma fase brava, marcada por sérios problemas de saúde em decorrência do alcoolismo, e filmes abaixo de seu talento nos anos 1970, O'Toole retornou com força total no início da década seguinte com uma esfuziante atuação em O Substituto (1980). Ele baseou o papel de Eli Cross, um cineasta egocêntrico e manipulador, em David Lean, com quem trabalhou no clássico "Lawrence da Arábia". Projeto de 9 anos do diretor Richard Rush, o filme nunca saiu em DVD no mercado brasileiro e merece ser descoberto pelos fãs de cinema

Depois de uma fase brava, marcada por sérios problemas de saúde em decorrência do alcoolismo, e filmes abaixo de seu talento nos anos 1970, O’Toole retornou com força total em 1980 com uma esfuziante atuação em O Substituto. Ele baseou o papel de Eli Cross, um cineasta egocêntrico e manipulador, em David Lean, com quem trabalhou no clássico “Lawrence da Arábia”. Projeto de 9 anos do diretor Richard Rush, o filme nunca saiu em DVD no mercado brasileiro e merece ser descoberto pelos fãs de cinema 

Em toda a história da Academia, nenhum ator recebeu mais indicações sem nunca levar a estatueta. Como forma de compensação, O’Toole recebeu em 2003 o Oscar honorário em reconhecimento a sua brilhante carreira. “Sempre a madrinha de casamento, nunca a noiva”, brincou em seu discurso de agradecimento o inesquecível intérprete de tantos personagens exuberantes.

Indicado 7 vezes ao Oscar sem vencer, O'Toole recebeu o prêmio honorário das mãos de Meryl Streep durante a cerimônia da Academia, em 2003

Até então indicado 7 vezes ao Oscar sem vencer, O’Toole recebeu o prêmio honorário das mãos de Meryl Streep durante a cerimônia da Academia, em 2003

PETER O’TOOLE EM DVD NA 2001:
02
The Tudors – 2ª Temporada (2008)
A Luz da Cidade (2008)
Stardust: O Mistério da Estrela (2007)
Ratatouille (2007) voz
Vênus (2006)
Tróia (2004)
Joana D’arc (1999)
Fantasmas (1998)
O Último Imperador (1987)
O Criador (1985)
Masada (1981)
Calígula (1979)
Os Grandes Aventureiros (1979)
O Homem de la Mancha (1972)
A Classe Dominante (1972)
Sob o Bosque de Leite (1972)
O Leão no Inverno (1968)
Cassino Royale (1967)
A Noite dos Generais (1967)
A Bíblia (1966)
Como Roubar Um Milhão de Dólares (1966)
Que é que Há, Gatinha? (1965)
Lord Jim (1965)
Becket, O Favorito do Rei (1964)
Lawrence da Arábia (1962)

PREMIADO EM CANNES, “ESTRANHO ACIDENTE” ESMIUÇA O EGO MASCULINO

Estranho Acidente
(Accident, ING, 1967, Cor, 106′)
Versátil – Clássico – 14 anos
Direção: Joseph Losey
Elenco: Dirk Bogarde, Michael York, Stanley Baker, Jacqueline Sassard, Vivien Merchant, Delphine Seyrig

Sinopse: Stephen, um professor de meia idade da Universidade de Oxford, sonha em viver uma fantasia sexual com Anna, uma de suas alunas. Stephen disputa as atenções da moça com outro aluno, William, cuja jovialidade ele inveja, e com seu rival acadêmico, o professor Charley.

Extras: Falando sobre Estranho Acidente (34 minutos), Joseph Losey e Harold Pinter discutem o filme (26′), entrevista com o biógrafo de Dirk Bogarde (7′) e trailer (4′)

Dono de uma das carreiras mais versáteis e surpreendentes do cinema britânico, Dirk Bogarde (1921–1999) foi ídolo das matinês nos anos 1940 e 50 antes de tornar-se figura carimbada em filmes autorais dirigidos por nomes como Luchino Visconti (Morte em Veneza, Os Deuses Malditos), Liliana Cavani (O Porteiro da Noite), Alain Resnais (Providence, exibido na última Mostra de Cinema de São Paulo) e Rainer Werner Fassbinder (Despair), nas décadas seguintes.

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A grande virada na trajetória do ator veio com a parceria com o cineasta Joseph Losey (1909–1984), iniciada em 1954 com O Monstro de Londres (The Sleeping Tiger). Colaborador de Bertolt Brecht no teatro, Losey foi intimado em 1951 a depor no famigerado Comitê de Atividades Anti-Americanas, então presidido pelo senador Joseph McCarthy, responsável pela famosa “caça às bruxas” – leia-se, a comunistas em Hollywood. Ciente das táticas de intimidação do comitê, o cineasta decidiu exilar-se na Inglaterra, onde começou a dirigir produções de encomenda. Quase dez anos depois de O Monstro de Londres, Losey retomou a parceria com Bogarde e acertou em cheio com O Criado (1963), drama que subverte os papéis de patrão e empregado no sistema de classes britânico. O filme marca a primeira colaboração de Losey com o renomado dramaturgo britânico Harold Pinter (1930–2008).

Como o personagem-título que vira a mesa e passa a controlar o patrão em "O Criado", considerado um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos

Como o personagem-título que vira a mesa e passa a controlar o patrão em “O Criado”, considerado um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos

Adaptado por Pinter de um romance de Nicholas Mosley, Estranho Acidente (1967) também adentra o ego e o jogo de poder entre homens bem diferentes. Bogarde vive Stephen, professor de filosofia casado, pai de dois filhos e à espera de um terceiro. Já Charley (Stanley Baker) também leciona em Oxford e representa o oposto do colega de trabalho: metido a machão, é extrovertido e o típico predador sexual, que não hesita em flertar com suas alunas.

Em plena crise dos quarenta (“Estou ficando velho”, reclama em vários momentos), Stephen deseja secretamente uma jovem estudante austríaca (Jacqueline Sassard), objeto do desejo de seu aluno (e amigo) William (Michael York). O impasse amoro é ampliado com a entrada de Charley, que, mediante às hesitações dos outros dois, não demora em seduzir mais uma estudante da universidade.

Stephen é um pacato professor que deseja Anna, uma de suas alunas. Numa das cenas clássicas do filme, Michael York conduz a gôndola, a força da juventude sob o olhar incrédulo do protagonista, ao lado de seu objeto do desejo

Em “Estranho Acidente”, Stephen é um pacato professor que deseja Anna, uma de suas alunas, que acaba disputada por mais dois personagens da trama. Numa das cenas clássicas do filme, Michael York conduz a gôndola e representa a força da juventude sob o olhar incrédulo do protagonista, ao lado de seu objeto do desejo

Acostumado a revelar muito com pouco, Bogarde é um mestre das sutilezas e expressa perfeitamente o desejo reprimido de Stephen, que no fundo está mais determinado em superar o rival Charley e conseguir se impor como homem na guerra não-declarada pela masculinidade no ambiente acadêmico de Oxford.

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2005, Pinter escreveu o roteiro com as tradicionais elipses que caracterizam seu trabalho, no qual o conflito também irrompe daquilo que não é dito (ou feito) e em sequências repletas de simbolismos, como a do jogo de tênis na casa de campo. Narrado em flashbacks, o filme explora o jogo de tensões entre homens que buscam o tempo todo autoafirmação, até o fatídico acidente do título.

DICAS PARA O FIM DE SEMANA: PRODUÇÕES INÉDITAS NOS CINEMAS BRASILEIROS

Confira a seguir as dicas da equipe 2001 Vídeo:

Quebra de Conduta
(Möbius, FRA/BEL/LUX, 2013, Cor, 103′)
Diração: Eric Rochant
Elenco: Jean Dujardin, Cécile De France, Tim Roth, John Lynch, Branka Katic

0001A crise econômica europeia serve de pano de fundo para este intrincado thriller de espionagem sobre especulação financeira.

Especializada em títulos derivativos, Alice (Cécile de France, de O Garoto da Bicicleta) trabalha para um banco de investimentos em Mônaco. Envolvida em negociações suspeitas, a bela executiva está sob investigação da divisão de crimes financeiros do governo e passa a trabalhar para um especulador russo (o inglês Tim Roth, da série Lie to Me). Ao mesmo tempo, cada passo seu é acompanhado por um espião russo de nome Moïse (Jean Dujardin, O Artista), pela CIA e até a FSB (sucessora da antiga KGB).

A trama, já complicada, torna-se ainda mais imprevisível a partir do envolvimento amoroso do personagem de Dujardin com a mulher que deveria apenas seguir. Ele quebra o protocolo, misturando o objetivo da missão com prazer, e a tensão cresce paralelamente ao jogo de cintura de Moise para manter seu disfarce – assim como o romance – em segredo.

Em meio à tanta espionagem, agentes duplos e segredos de Estado, romance à vista entre os personagens de Jean Dujardin ("O Artista") e Cécile de France ("Além da Vida") - boa química - e cenas tórridas - na tela

Em meio à tanta espionagem, agentes duplos e segredos de Estado, romance à vista entre os personagens de Jean Dujardin (“O Artista”) e Cécile de France (“Além da Vida”) – boa química – e cenas tórridas – na tela

Revelar mais pode estragar as surpresas da história que interliga diferentes frentes de vigilância em torno da heroína e acaba transmutada num romance envolvente e tórrido, com cenas quentes entre dois astros do cinema francês, Dujardin e Cécile.

Com diálogos em francês, inglês e russo, e locações em Bruxelas, Mônaco e Moscou, Quebra de Conduta é um thriller romântico com negociatas e espionagem geopolítica, explorando os riscos assumidos em nome do próprio desejo.

 
O Resgate
(L’assaut, FRA. 2010, Cor, 92′)
Direção: Julien Leclercq
Elenco: Vincent Elbaz, Grégori Derangère, Mélanie Bernier

0002Em 24 de de dezembro de 1994, quatro extremistas do GIA (Grupo Islâmico Armado) sequestraram um avião da Air France no aeroporto Houari Boumediene, na Argélia. Disfarçados de agentes de segurança, e fortemente armados, eles entraram no voo 8969 que se preparava para decolar, rendendo cerca de 220 passageiros como reféns.

Diferentemente de Vôo United 93, O Resgate não foca a tensão entre sequestradores e reféns, preferindo o vai e vem das negociações do Ministério das Relações Exteriores e, sobretudo, os preparativos do Grupo de Intervenção da Polícia Nacional (GIGN, na sigla em francês), criado em 1974 para lidar com situações críticas como grandes sequestros. Com exceção de Thierry (Vincent Elbaz), um dos líderes da unidade, pouco importa a identidade dos membros do grupo, mas sim suas ações.

Com boas cenas de ação e ritmo eletrizante, "O Resgate" confirma a diversidade do cinema francês, que também sabe fazer filme de ação de qualidade

Com boas cenas de ação e ritmo eletrizante, “O Resgate” confirma a diversidade do cinema francês, que também sabe fazer filme de ação de qualidade

Com precisão cirúrgica, fotografia monocromática e poucos diálogos expositivos ou subtramas, o ótimo thriller de ação confirma a pluralidade do atual cinema francês. A edição mantém o ritmo tenso e evita a espetacularização da violência, que inevitavelmente irrompe com toda a sua força na tomada do avião, ação televisionada em cadeia nacional.

Durante o trágico episódio, os terroristas revelaram que não queriam apenas a libertação de líderes do partido islâmico, mas partir com o avião até a França. Segundo especialistas, a ação retratada no filme foi um prelúdio para o ataque às Torres Gêmeas sete anos depois, já que os sequestradores do avião francês visavam outro alvo simbólico: a Torre Eiffel em Paris.

 
Resistência
(Resistance, ALE/ING, 2012, Cor, 92′)
Direção: Amit Gupta
Elenco: Andrea Riseborough, Michael Sheen, Kimberley Nixon, Tom Wlaschiha

0003E se o ataque dos aliados no Dia D tivesse fracassado e a Alemanha invadisse a Inglaterra? Embora não inteiramente nova – Fatherland, de 1994, apresentou cenário semelhante -, essa premissa fantasiosa move o inédito Resistência.

Dirigido e escrito pelo estreante em longa-metragem Amit Gupta, baseado em um romance de Owen Sheers, o filme é um drama de guerra intimista que se vale da atmosfera e de boas atuações de atores como a inglesa Andrea Riseborough (W.E.., Agente C, Oblivion).

A atriz interpreta Sarah, uma moradora do Vale Olchon (no Reino Unido) que certo dia acorda e descobre que o marido sumiu, assim como os outros homens da aldeia. Todos os homens adultos sumiram, sem explicações. Para onde foram e por quê? Por que não informaram a suas mulheres que partiriam?

O ano é 1944 e o rádio informa que Bristol e Oxford já foram tomadas pelos nazistas. Um pequeno grupo de militares alemães chega ao vilarejo, deixando instruções claras: ninguém pode entrar ou sair. O vale foi tomado. Curiosamente, a invasão acontece sem alarde ou confrontos violentos, liderada por Albrecht (Tom Wlaschiha, da série Game of Thrones), um oficial atormentado por flashbacks do passado.

Resistance_poster

Sensível às privações impostas pela guerra às mulheres do local, o antagonista cai de amores por Sarah, criando um dilema ético e moral para ambos. As mulheres enfrentam dilema semelhante – o de colaborar ou não com os nazistas, já que qualquer ajuda ou diálogo com o inimigo pode ser considerado um ato de traição.

De ritmo bucólico e narrativa lenta, Resistência é econômico naquilo que revela ao espectador, mantendo ao máximo a expectativa em torno da volta dos fugitivos. E a pergunta-chave, não só para as mulheres, mas também para os invasores alemães: para onde foram os homens do vale?

 
Tudo por um Sonho
(Chasing Mavericks, EUA, 2012, Cor, 117′)
Direção: Curtis Hanson, Michael Apted
Elenco: Gerard Butler, Jonny Weston, Elisabeth Shue, Abigail Spencer

0004Dirigido por Curtis Hanson (Los Angeles – Cidade Proibida) e completado por Michael Apted -, o filme é uma envolvente história de superação, inspirada em fatos e personagens reais. Na costa californiana, Frosty (o astro Gerard Butler, de Invasão à Casa Branca) é uma lenda do surfe local que resolve transmitir sua vivência no esporte para Jay, um jovem sem perspectivas na vida.

Frosty torna-se uma espécie de “Sr.Miyagi do surfe”, ensinando não só fundamentos do esporte, mas lições de vida: “Os 4 pilares da base humana são o corpo, a mente, as emoções e o espírito”, diz. O mestre estabelece um treinamento de 12 semanas para o pupilo estar apto para surfar nas mavericks, ondas gigantes com até doze metros de altura.

Gerard Butler e em cena: mestre e discípulo dividindo ondas - e lições de vida

Gerard Butler e Jonny Weston em cena: mestre e discípulo dividindo ondas – e lições de vida – em “Tudo por um Sonho”

Interpretado com carisma e autoridade por Butler (também produtor executivo do filme), o surfista veterano decide se aposentar e vê em Jay uma forma de continuar o seu legado. Em paralelo ao treinamento “jedi”, a trama acompanha o rito de passagem de Jay, que inclui um novo interesse amoroso e as dificuldades vividas ao lado da mãe solteira.

Com impressionantes imagens das ondas, filmadas pelo diretor de fotografia Bill Pope (MatrixScott Pilgrim Contra o Mundo), Tudo por um Sonho culmina na emocionante prova final enfrentada pelo jovem que se tornaria um dos maiores surfistas do mundo – Jay Moriarity (1978-2001).

“AMOR PROFUNDO”: A DOR DE AMAR DEMAIS, COM RACHEL WEISZ EM GRANDE ATUAÇÃO

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática (Rachel Weisz) em 2012, "Amor Profundo" marca o retorno do cineasta Terence Davies à direção. Um dos principais nomes a emergir  no cinema britânico nos anos 1970, ao lado de Derek Jarman e Peter Greenaway, Davies está de volta aos filmes de época com um rebuscado melodrama sobre a infidelidade e a solidão na Inglaterra do pós-guerra

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática (Rachel Weisz) em 2012, “Amor Profundo” marca o retorno do cineasta Terence Davies à direção. Um dos principais nomes surgidos no cinema britânico dos anos 1970, ao lado de Derek Jarman e Peter Greenaway, Davies está de volta aos filmes de época com um rebuscado melodrama sobre a infidelidade e a solidão na Inglaterra do pós-guerra

Amor Profundo
(The Deep Blue Sea, ING/EUA, 2011, Cor, 98′)
Imagem – Drama – 14 anos
Direção: Terence Davies
Elenco: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Simon Russell Beale, Ann Mitchell

Sinopse: Esposa de um juiz muito importante e influente, Hester envolve-se com um piloto aéreo perturbado. Os dois são descobertos e, após uma tentativa de suicídio, ela começa a questionar suas escolhas.

 
Onze anos depois de A Essência da Paixão, adaptação do romance de Edith Wharton, o britânico Terence Davies retorna à direção com Amor Profundo. Em seu novo (e rebuscado) melodrama de época, o cineasta adapta a peça The Deep Blue Sea, escrita pelo dramaturgo Terence Rattigan e ambientada em 1950, com a Inglaterra ainda se recuperando da Segunda Guerra.

Antes de "Amor Profundo", a peça teatral de Terence Davies foi levada às telas em 1955, com Vivien Leigh no papel da trágica Hester, brilhatemente interpretada por Rachel Weisz no filme de terence Davies

Antes de “Amor Profundo”, a peça teatral de Terence Rattigan foi levada às telas em 1955, com Vivien Leigh no papel da trágica Hester, brilhantemente interpretada por Rachel Weisz na nova versão. O filme de Terence Davies é um drama sofisticado para cinéfilos e plateias exigentes

Esse é o cenário do triângulo amoroso que move a trama. Casada com um renomado juiz, Hester (Rachel Weisz, impecável) tem uma vida confortável, mas sem amor ou sexo. Em meio às sombras da bela fotografia em tons sépia do filme, a personagem vive em profunda tristeza, interrompida apenas pelos encontros fugazes com Freddie (o ascendente Tom Hiddleston, de Os Vingadores).

Logo no início, Hester lê, com a voz embargada, uma carta na qual admite preferir morrer a viver sem o amor de seu amado. O que aconteceu para a protagonista chegar a essa trágica decisão? Uma série de flashbacks revela suas idas e vindas ao lado do amado, um homem imaturo provavelmente traumatizado pelas suas experiências como piloto na II Guerra.

Algumas cenas do filme evocam o clássico "Desencanto" (de David Lean), referência assumida pelo diretor Terence Davies, um "cinéfilo de carteirinha", como provam as referências em seus filmes de época "Vozes Distantes" e "O Fim der um Longo Dia"

Algumas cenas do filme evocam o clássico “Desencanto” (de David Lean), referência assumida pelo diretor Terence Davies

Também nos sublimes (e autobiográficos) Vozes Distantes (1988) e O Fim de um Longo Dia (1992), do mesmo diretor, passado e presente se confundem, ecoam um no outro, na Inglaterra marcada pelo sistema de classes e pelo peso das convenções sociais. Não demora muito para a paixão ser descoberta. E a resignação de Sir. William, o marido de Hester, lembra a de outro marido compreensivo – o personagem de Stephen Rea em Fim de Caso, outra bela história de amor e repressão sexual.

Em um dos melhores momentos de sua carreira, Rachel Weisz conquistou vários prêmios da crítica e foi considerada a melhor atriz de 2012 pela New York Magazine

Em um dos melhores momentos de sua carreira, Rachel Weisz conquistou vários prêmios da crítica e foi considerada a melhor atriz de 2012 pela New York Magazine

As emoções são contidas, e as interpretações, cheias de minúcias. Aclamada pela crítica novaiorquina, Rachel Weisz concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática em 2012 e conquistou vários prêmios por seu dilacerante trabalho. Sua trágica Hester tenta viver de acordo com seu coração – e não às expectativas da sociedade. Em dado momento, Sir William pergunta por que é tão difícil para ela continuar sendo sua esposa. Hester não sabe o que é viver fora da rotina controlada do marido. Ela só quer um pouco de amor, que transborda ao lado do amante – e depois se transforma em gotas.

Para a trágica heroína de Terence Davies, é melhor um pouco de amor do que nenhum.

“ROTA IRLANDESA” E O CINEMA DE KEN LOACH

Um dos últimos cineastas verdadeiramente engajados do cinema, Ken Loach dirigiu filmes como "Terra e Liberdade" e "Mundo Livre". Em "Rota Irlandesa", o cineasta britânico lança seu olhar crítico para a presença de ingleses e americanos no Iraque durante a guerra

Um dos últimos cineastas verdadeiramente engajados do cinema, Ken Loach dirigiu filmes como “Terra e Liberdade” e “Mundo Livre”. Em “Rota Irlandesa”, o cineasta britânico lança seu olhar crítico para a presença armada de ingleses e americanos no Iraque em 2004

Rota Irlandesa
(Route Irish, ING/FRA/ITA/BEL/ESP, 2010, Cor, 109′)
Vinny – Drama – 14 anos
Direção: Ken Loach
Elenco: Mark Womack, John Bishop, Andrea Lowe, Stephen Lord

Sinopse: Após se aposentar das forças especiais do Reino Unido em 2004, Fergus vai trabalhar para uma firma de segurança privada no Iraque, uma das atividades mais lucrativas do mundo. Ele convence seu amigo de infância Frankie a entrar com ele no negócio. Mas, de volta à Liverpool, Fergus recebe a notícia de que o amigo morreu na Route Irish (“Rota Irlandesa”), estrada iraquiana considerada a mais perigosa do mundo. Ao lado da viúva de Frankie, ele decide investigar o ocorrido.

 
O inglês Ken Loach volta a trabalhar com seu fiel escudeiro, o roteirista Paul Laverty, neste drama político que explora os crimes cometidos não só pelas forças americanas no Iraque, mas também por mercenários contratados por empresas de segurança internacionais, ali instaladas para explorar ainda mais o país.

Ken Loach durante as filmagens do thriller dramático "Rota Irlandesa"

Ken Loach durante as filmagens de “Rota Irlandesa”, thriller dramático sobre a Guerra do Iraque

A “privatização da guerra” é o alvo do diretor de obras politizadas como Terra e Liberdade (1995), Pão e Rosas (2000) e Mundo Livre (2007), que recorre à fórmula do thriller para criticar a invasão do Iraque em 2003. Em um diálogo com a viúva de seu melhor amigo morto, o protagonista Fergus resume bem a indignação de Loach: “É irônico, mas se eles [os civis iraquianos] não apoiavam a Al-Qaeda antes, passaram a apoiar depois [da invasão do país pelos EUA]. Isso eu garanto”.

Polêmico como seu diretor, Rota Irlandesa é um filme amargo que ainda trata de justiça com as próprias mãos levada até as últimas consequências.

Ken Loach
CINEMA ENGAJADO

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Ken Loach em foto de divulgação de “Rota Irlandesa”, longa indicado à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2010

Nascido em 17/6/1936, em Nuneaton (Warwickshire, Inglaterra), estudou Direito no St. Peter’s College, em Oxford, antes de trabalhar com uma companhia de teatro e ingressar na televisão, onde dirigiu uma série de documentários de cunho social. Após a estreia no cinema com Poor Cow (1967), dirigiu seu maior sucesso de público e crítica na Inglaterra até hoje – Kes (1970).

Após um período de dificuldades e censura na TV inglesa, Ken Loach começou a melhor fase de sua carreira nos anos 1990. Com apoio do Channel Four, dirigiu uma sucessão de filmes premiados, como Agenda SecretaLadybird, LadybirdTerra e LiberdadeMeu Nome é Joe e Ventos da Liberdade, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.

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Cineasta de orientação humanista, Loach sempre lutou pelos direitos dos trabalhadores na Inglaterra, criticando o liberalismo econômico e governos de direita como o da ex-ministra britânica Margaret Thatcher

Avesso à Hollywood e à cultura das celebridades, Loach prefere explorar a sensibilidade ou experiência pessoal de atores não-profissionais ou sem projeção do que um astro ou ator famoso. Rejeitando o rótulo de “autor” e usando mais o sujeito “nós” do que o individualista “eu” em entrevistas, ele se mantém, há mais de quarenta anos, fiel a suas convicções políticas, permanecendo o cronista mais realista da classe trabalhadora no cinema.

KEN LOACH EM DVD NA 2001:
Rota Irlandesa (2010)
À Procura de Eric (2009)
Ventos da Liberdade (2006)
11 de Setembro (2002) segmento United Kingdom
Pão e Rosas (2000)
Kes (1969)

OPINIÃO: COVA RASA

Antes de estourar com Trainspotting – Sem Limites, Danny Boyle estreou na direção de longa-metragem com este surpreendente thriller psicológico que também marcou o início de Ewan McGregor no cinema

Antes de deixar o público espantado com o dia a dia de um grupo de amigos viciados em heroína em Trainspotting, outro trabalho de Danny Boyle também com Ewan McGregor no elenco apresentou o diretor ao grande público.

Dirigido por Danny Boyle dois anos depois de Cova Rasa, Trainspotting tornou-se um fenômeno pop alternativo, levando ao estrelato Ewan McGregor. O filme ainda concorreu ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

Cova Rasa coloca três amigos disputando uma montanha de dinheiro e a neura gerada por toda a situação, que inclui o misterioso e mais recente morador da casa morto inesperadamente, além dos homens perigosos que estão atrás dele.

Kerry Fox, Ewan McGregor, Christopher Eccleston em cena: Amigos amigos, negócios à parte

A cada minuto a tensão entres os três personagens aumenta e quem assiste vira testemunha da transformação dessas mentes, corrompidas aos poucos. Em seu primeiro filme, Boyle conseguiu prender a nossa atenção, nos surpreendendo a cada minuto com as atitudes cada vez mais reprováveis de seus protagonistas. Como diz o personagem de Christopher Eccleston no início do filme, “se não pudermos confiar em nossos amigos, em quem poderemos?”

 

Comentário de
Graciela Paciência
Subgerente da 2001 Vídeo Sumaré
Av. Sumaré, 1744, Perdizes – São Paulo – SP

TILDA SWINTON

EM CARTAZ NOS CINEMAS BRASILEIROS NO SUNTUOSO MELODRAMA ITALIANO UM SONHO DE AMOR, A GRANDE ATRIZ BRITÂNICA CONSEGUIU NÃO FICAR LIMITADA AO NICHO DO CINEMÃO DE ARTE DOS ANOS 1980, CONSEGUINDO PAPÉIS DE DESTAQUE EM GRANDE PRODUÇÕES – E ATÉ O OSCAR.

Versátil Androgenia

Nascida em 5 de novembro de 1960, em Londres, Tilda Swinton é filha de uma família de classe alta escocesa e estudou na Universidade de Cambridge, onde se formou em Ciências Políticas e em Literatura Inglesa antes de entrar para a renomada Royal Shakespeare Company.

Em 1985, ela começou a trabalhar com Derek Jarman, que se tornaria seu grande amigo, mentor intelectual e diretor em Caravaggio (1986), Crepúsculo do Caos (1987), War Requiem (1988), The Garden (1990) e Eduardo II (1992), produções de vanguarda marcadas pela experimentação e diálogo com outras mídias.

Tilda Swinton em Crepúsculo do Caos (1987), dirigido pelo amigo e mentor Derek Jarman

Swinton continuou a mostrar seu talento em produções independentes, atingindo um público maior com o emblemático papel duplo de Orlando – A Mulher Imortal, adaptação do clássico de Virginia Woolf dirigida por Sally Potter. Depois de uma pausa devido a gravidez e nascimento de seus filhos gêmeos, a atriz retornou ao cinema com papéis fortes em Zona de Conflito, dirigido pelo ator Tim Roth; A Praia, com Leonardo DiCaprio; Até o Fim, pelo qual concorreu ao Globo de Ouro e ao Independent Spirit Awards; e Adaptação, interpretando a agente do roteirista vivido por Nicolas Cage.

Em Orlando - A Mulher Imortal, filme que ajudou a tirar a atriz do nicho do cinema de vanguarda de Derek Jarman

 

Escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Spike Jonze, Adaptação marcou uma virada na carreira da atriz, abrindo as portas para mais produções americanas, entre elas algumas de grande alcance comercial, como Constantine (2005), em que interpreta um andrógino anjo Gabriel, e a vilã de As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Além do prestígio conquistado em sua carreira na Inglaterra, Swinton conquistava então notoriedade e popularidade, confirmada pelo Oscar de melhor atriz coadjuvante conquistado em 2008 pelo papel da advogada inescrupulosa de Conduta de Risco.

Swinton interpreta o arcanjo Gabriel na adaptação da HQ Constantine

A atriz segura o Oscar de atriz coadjuvante conquistado em 2008 pelo drama Conduta de Risco

Como modelo, em material de divulgação da grife Pringle of Scotland

Considerada uma das atrizes mais elegantes do mundo por publicações como Vanity Fair, ela dá mais uma prova de sua versatilidade em Um Sonho de Amor, de Luca Guadagnino. No filme, ela interpreta uma imigrante russa vivendo em Milão ao lado do marido industrial. E, em breve, poderá ser vista na pele de Eva, mãe de um adolescente responsável por uma chacina escolar no drama We Need to Talk About Kevin, exibido no último Festival de Cannes.

Foto de divulgação do filme Um Sonho de Amor, em cartaz nos cinemas

 

Assim como outros camaleões (Daniel Day-Lewis, Kate Winslet, Gary Oldman, Ralph Fiennes) ingleses, Tilda Swinton continua a surpreender o público com a diversidade e ousadia de suas escolhas.

 

Em ensaio para a W Magazine

TOP 10 TILDA SWINTON NA 2001:


Eduardo II (1991)
Orlando – A Mulher Imortal (1992)
Até o Fim (2001)
Adaptação (2002)
O Jovem Adam (2003)
Impulsividade (2005)
Constantine (2005)
Conduta de Risco (2007)
Queime Depois de Ler (2008)
O Curioso Caso de Benjamin Button (2008)

KEITH JARRETT NO BRASIL

Pianista lendário, Keith Jarrett faz show amanhã em São Paulo

Mestre da improvisação, o virtuoso pianista Keith Jarrett fará uma apresentação solo nessa quarta-feira (6/4), às 21 horas, na Sala São Paulo, localizada na praça Julio Prestes, número 16.

Nascido em 8 de maio de 1945, em Allentown (Pennsylvania, EUA), Jarrett começou a tocar piano aos três anos de idade e, aos 15, já estudava composição musical. Ainda adolescente, passou a estudar em Paris, antes de se mudar para Nova York em 1964. A mudança ajudou a transformar o jovem prodígio em um dos mais criativos nomes do jazz moderno.

O artista em uma de suas incendiárias apresentações nos anos 70

Entre os anos 60 e 70, Jarrett tocou com os maiores músicos do jazz, de Art Blakey a Miles Davis, até que em 1971 passou a trabalhar com o produtor alemão Manfred Eicher e a ECM (Editions of Contemporary Music), produzindo mais de sessenta sessões de gravação.

A partir de longas improvisações solo em discos como Facing You (1971), The Köln Concert (1975), Staircase (1976) e Hymns/Spheres (1976), o músico combinou estilos e ritmos, sem se prender a rótulos (clássico, étnico, jazz, blues), ajudando a redefinir o papel do piano na música contemporânea.

Capa do álbum The Köln Concert, um dos discos de jazz mais vendidos da história

A propósito da visita de Jarrett no Brasil, vale a pena conhecer (ou relembrar) um pouco de sua música e, em especial, o álbum The Köln Concert, cujo trecho inicial da parte I já foi usado na trilha sonora de Bad Timing – Contratempo (1980), de Nicolas Roeg, e Caro Diário (1993), de Nanni Moretti.

Estudo sobre desejo carnal e obsessão, o filme utiliza o belíssimo início de The Köln Concert em várias cenas. Na imagem, o quadro O Beijo, obra-prima de Gustav Klimt.

A bela viagem de Nanni Moretti, pelo interior de uma Itália que não existe mais, também traz The Köln Concert na trilha sonora

Além dos dois filmes, a ótima comédia alemã Simplesmente Martha (2001) apresenta em sua trilha quatro faixas orquestrais compostas e interpretadas pelo pianista: Country, Tokyo, Encore, Bregenz, Part I e U Dance.

Conhecedor ou não do trabalho de Keith Jarrett, confira um pouco de seu música, sensível e orgânica como o próprio jazz, nos três filmes indicados, disponíveis em DVD na 2001.

Ou, se quiser conhecer um filme ousado e seminal do cinema britânico, não deixe de ver Bad Timing e outros trabalhos de um dos mais influentes cineastas britânicos dos anos 60 e 70: Nicolas Roeg.

Roeg nasceu em Londres, em 1928, e trabalhou em vários setores da indústria cinematográfica, incluindo a direção de fotografia de segunda unidade em Lawrence da Arábia (1962), do mestre David Lean.

Peter O'Toole e Omar Sharif no inesquecível Lawrence da Arábia

Nos anos 60, tornou-se um respeitado diretor de fotografia na Inglaterra, principalmente por Masque of the Red Death (1964), de Roger Corman; Fahrenheit 4511966), de François Truffaut; Longe Deste Insensato Mundo 1967), de John Schlesinger; e, por seu último trabalho na função, Petulia(1968), de Richard Lester. Após este último, aceitou dividir a direção de Performance com o também estreante Donald Cammell.

Mick Jagger, em papel duplo, no filme Performance, disponível em DVD para locação na 2001 Vídeo

O filme estabeleceu algumas das marcas de seu trabalho como diretor: edição fragmentada, cinematografia elaborada, justaposição de cenas e estilos, abordagem ousada do “filme de gênero”, narrativa não-linear, personagens não convencionais. Marcas do período de ouro do diretor, que compreende toda a década de 70, em produções como Walkabout (1971), Inverno de Sangue em Veneza” (1973) e O Homem que Caiu na Terra (1976), estrelado por David Bowie e já lançado em DVD. Seus filmes são marcados pela concepção visual elaborada, considerada excessiva por alguns críticos.
Trailer do belo suspense de horror Inverno de Sangue em Veneza, com Julie Christie e Donald Sutherland.

Nos últimos anos, o trabalho de Roeg tem sido reavaliado e reverenciado por ter influenciado novos diretores. Steven Soderbergh homenageou Roeg e a clássica cena de sexo “pós-coito” de Inverno de Sangue em Incontrolável Paixão (1998), por exemplo.

Cineasta a ser descoberto pelas novas gerações, Nicolas Roeg dirigiu clássicos emblemáticos dos anos 70, como Performance (1970), com Mick Jagger, e Inverno de Sangue em Veneza (1973), ainda inédito em DVD no Brasil

O último grande filme de Roeg foi justamente Bad Timing, história de amor, desejo e obsessão contada em flashbacks e estrelada por Theresa Russell, que se tornaria sua esposa.

Pôster original de Bad Timing, fundindo o ator Art Garfunkel, sensualidade e a arte de Gustav Klimt