cinema nacional

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO 2017

A ACADEMIA BRASILEIRA DE CINEMA DEFINIU A LISTA DOS INDICADOS À 16ª EDIÇÃO DE SUA TRADICIONAL PREMIAÇÃO ANUAL. A CINEBIOGRAFIA “ELIS” LIDERA COM 12 NOMEAÇÕES, SEGUIDA POR “AQUARIUS” (11) E “BOI NEON” (10).

Andréia Horta (“Elis“), Gloria Pires (“Nise – O Coração da Loucura”), Sonia Braga (“Aquarius“), Dan Stulbach (“Meu Amigo Hindu“), Lázaro Ramos (“Mundo Cão“) e o saudoso Domingos Montagner (“Um Namorado para minha Mulher”), entre outros, estão na disputa entre os atores.

Escrito por Luiz Bolognesi, Vera Egito e pelo diretor Hugo Prata, ELIS condensa a trajetória singular da artista que passou como um furacão pela música brasileira nos anos 1960 e 70. Além de Andréia — favorita na categoria de melhor atriz –, o elenco conta com Lucio Mauro Filho (na pele de Miéle), Caco Ciocler (no papel de César Camargo Mariano), Gustavo Machado (Ronaldo Bôscoli), Julio Andrade (o dzi croquette Lennie Dale) e Zécarlos Machado (como Romeu, pai de Elis).

O público pode eleger seus preferidos — nas categorias de “Melhor longa-metragem ficção”, “Melhor longa-metragem documentário” e “Melhor longa-metragem estrangeiro” — pelo voto popular, disponível a partir do dia 1º de agosto através do site www.academiabrasileiradecinema.com.br

Antonio Pitanga e Helena Ignez serão os homenageados da cerimônia, que tem direção de Bia Lessa. O evento acontece no dia 5 de setembro, a partir das 20h, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

FINALISTAS DO GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO 2017

Depois de “O Som Ao Redor” (2012), o diretor-roteirista Kleber Mendonça Filho volta a cutucar conflitos sociais e diferenças de classe no Brasil em AQUARIUS, a partir do embate vivido por Clara (Sonia Braga), jornalista aposentada que mora em um apartamento do edifício Aquarius, em Recife. Ela é a última moradora do prédio e recusa-se a vender o imóvel para uma construtora, que deseja demolir o local e construir um novo empreendimento.

Melhor longa-metragem de ficção

AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho
BOI NEON, de Gabriel Mascaro
ELIS, de Hugo Prata
MÃE SÓ HÁ UMA, de Anna Muylaert
NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA, de Roberto Berliner

Melhor longa-metragem documentário

CÍCERO DIAS, O COMPADRE DE PICASSO, de Vladimir Carvalho
CINEMA NOVO, de Eryk Rocha
CURUMIM, de Marcos Prado
EU SOU CARLOS IMPERIAL, de Renato Terra e Ricardo Calil
MARIAS, de Joana Mariani
MENINO 23 – INFÂNCIAS PERDIDAS NO BRASIL, de Belisario Franca
QUANTO TEMPO O TEMPO TEM, de Adriana L. Dutra

Melhor longa-metragem comédia

BR716, de Domingos Oliveira
É FADA!, de Cris D’Amato
MINHA MÃE É UMA PEÇA 2, de César Rodrigues
O ROUBO DA TAÇA, de Caito Ortiz
O SHAOLIN DO SERTÃO, de Halder Gomes

Vencedor de quatro Kikitos — incluindo melhor ator para Paulo Tiefenthaler — no 44º Festival de Cinema de Gramado, O ROUBO DA TAÇA é inspirado no controverso sumiço da Taça Jules Rimet em 1983. Em ritmo de comédia, o enredo acompanha as peripécias do malandro Peralta (Tiefenthaler) que, junto com seu comparsa, rouba a taça conquistada pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970. Taís Araújo e Milhem Cortaz coestrelam.

Melhor direção

AFONSO POYART por Mais forte que o mundo – A história de José Aldo
ANNA MUYLAERT por Mãe só há uma
DAVID SCHURMANN por Pequeno segredo
GABRIEL MASCARO por Boi Neon
KLEBER MENDONÇA FILHO por Aquarius

Melhor atriz

ADRIANA ESTEVES como DILZA por Mundo cão
ANDRÉIA HORTA como ELIS por Elis
GLORIA PIRES como NISE DA SILVEIRA por Nise – o coração da loucura
JULIA LEMMERTZ como HELOISA por Pequeno segredo
SONIA BRAGA como CLARA por Aquarius
SOPHIE CHARLOTTE como SEVERINA por Reza a lenda

Melhor ator

CAIO BLAT como FELIPE por BR716
CAUÃ REYMOND como ARA por Reza a lenda
CHICO DIAZ como GOMEZ por Em nome da lei
DOMINGOS MONTAGNER como CORVO por Um namorado para minha mulher
JULIANO CAZARRÉ como IREMAR por Boi Neon
LÁZARO RAMOS como PAULINHO por Mundo Cão

Depois do sensível romance “Ponte Aérea”, Julia Rezende dirige UM NAMORADO PARA MINHA MULHER, refilmagem da comédia argentina “Um Namorado para Minha Esposa”, de 2008. Na versão brasileira, Caco Ciocler assume o papel de Chico, um homem incapaz de pedir o divórcio para sua esposa, Nena (Ingrid Guimarães), com quem vive há 15 anos. Assim, ele resolve contratar um amante profissional chamado “Corvo” (Domingos Montagner, indicado postumamente ao prêmio) para seduzi-la e força-la a resolver a situação.

Melhor atriz coadjuvante

ALICE BRAGA como SANDRA por Entre idas e vindas
ANDRÉA BELTRÃO como ANA LUCIA por Sob pressão
LAURA CARDOSO como YOLANDA por De onde eu te vejo
MAEVE JINKINGS como ANA PAULA por Aquarius
MAEVE JINKINGS como GALEGA por Boi Neon
SOPHIE CHARLOTTE como GILDA por BR716

Melhor ator coadjuvante

CACO CIOCLER como CÉSAR CAMARGO MARIANO por Elis
DAN STULBACH como MARCOS por Meu amigo hindu
FLAVIO BAURAQUI como OCTÁVIO IGNÁCIO por Nise – o coração da loucura
GUSTAVO MACHADO como RONALDO BÔSCOLI por Elis
IRANDHIR SANTOS como ROBERVAL por Aquarius

Melhor roteiro original

AFONSO POYART e MARCELO RUBENS PAIVA por Mais forte que o mundo – A história de José Aldo
ANNA MUYLAERT por Mãe só há uma
DOMINGOS OLIVEIRA por BR716
GABRIEL MASCARO por Boi Neon
KLEBER MENDONÇA FILHO por Aquarius

Depois do sucesso de público e crítica de “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert quebra expectativas em MÃE SÓ HÁ UMA, premiado no Festival de Berlim em 2016. Inspirado no caso real do sequestro de um jovem em Brasília (em 1986), o filme discute temas atuais – como a construção da identidade de gênero – a partir do rito de passagem de Pierre (o estreante Naomi Nero). Aos 17 anos, ele descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe. Confuso, ele vai atrás de seus pais verdadeiros, interpretados por Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi.

Melhor roteiro adaptado

FIL BRAZ e PAULO GUSTAVO – adaptado da peça teatral “Minha mãe é uma peça”, de Paulo Gustavo por Minha mãe é uma peça 2
HILTON LACERDA e ANA CAROLINA FRANCISCO – adaptado do obra “Big Jato”, de Xico Sá – por Big Jato
LUSA SILVESTRE E JULIA REZENDE – adaptado do longa-metragem argentino “Un Novio para mi Mujer” – por Um namorado para minha mulher
NEVILLE D’ALMEIDA e MICHEL MELAMED – adaptado do texto “A frente fria que a chuva traz”, de Mario Bortolotto – por A frente fria que a chuva traz
WALTER LIMA JR – adaptado da obra “A volta do parafuso”, de Henry James – por Através da sombra

Melhor direção de fotografia

ADRIAN TEIJIDO; ABC por Elis
ANDRÉ HORTA por Nise – o coração da loucura
DIEGO GARCIA por Boi Neon
MARCELO CORPANNI; ABC por Reza a lenda
MAURO PINHEIRO JUNIOR por Meu amigo hindu

Melhor maquiagem

ALEX DE FARIAS por Boi Neon
ANNA VAN STEEN por Elis
BRUNA NOGUEIRA por Meu amigo hindu
CRISTIANO PIRES por O Shaolin do sertão
TAYCE VALE por Reza a lenda

Depois de dirigir Bárbara Paz na peça teatral “Hell”, no início da década, Babenco conseguiu finalizar MEU AMIGO HINDU, seu trabalho mais pessoal, no qual exorciza demônios antigos e reflete sobre seu ofício.
O filme narra a luta de um cineasta famoso, Diego (Willem Dafoe), para sobreviver a um tumor em estágio avançado. Como Babenco enfrentou, bravamente, na década de 1990. O delicado trabalho de maquiagem (da indicada Bruna Nogueira) é fundamental na caracterização de Dafoe — e sua degradação física na tela.

Melhor direção de arte

CLOVIS BUENO, ISABEL XAVIER e CAROLINE SCHAMALL por Meu amigo hindu
DANIEL FLAKSMAN por Nise – o coração da loucura
FREDERICO PINTO por Elis
JULIANA RIBEIRO por O Shaolin do sertão
JULIANO DORNELLES e THALES JUNQUEIRA por Aquarius

Melhor figurino

CÁSSIO BRASIL por Reza a lenda
CRISTINA KANGUSSU por Nise – o coração da loucura
CRISTINA CAMARGO por Elis
FLORA REBOLLO por Boi Neon
LUCIANA BUARQUE por O Shaolin do sertão

Melhor efeito visual

BINHO CARVALHO e JOSÉ FRANCISCO; ABC por Reza a lenda
EDUARDO AMODIO por Aquarius
GUILHERME RAMALHO por Elis
MARCELO SIQUEIRA por Pequeno segredo
MARI FIGUEIREDO por Mais forte que o mundo – A história de José Aldo

Após chamar a atenção do mercado internacional com “Dois Coelhos” (2012), Afonso Poyart dirigiu em Hollywood o thriller “Presságios de Um Crime” (2015). De volta ao Brasil, realizou MAIS FORTE QUE O MUNDO – A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO, cinebiografia do lutador amazonense que se tornou o primeiro campeão peso-pena do UFC. Com edição ágil e ritmo frenético, o filme acompanha Aldo (José Loreto) desde seus dias sem rumo em Manaus, passando por seu recomeço no Rio de Janeiro, até as primeiras vitórias que o levariam a se tornar campeão da modalidade.

Melhor montagem ficção

EDUARDO SERRANO por Aquarius
FERNANDO EPSTEIN e EDUARDO SERRANO por Boi Neon
GUSTAVO GIANI por Meu amigo hindu
KAREN HARLEY; EDT por Big Jato
TIAGO FELICIANO; AMC por Elis

Melhor montagem documentário

ALEXANDRE LIMA; EDT por Curumim
GABRIEL MEDEIROS por Geraldinos
JORDANA BERG; EDT por Eu sou Carlos Imperial
RENATO VALLONE por Cinema Novo
YAN MOTTA por Menino 23 – infâncias perdidas no Brasil

Melhor som

ALFREDO GUERRA e ÉRICO PAIVA por O Shaolin do sertão
FABIAN OLIVER, MAURICIO D’OREY e VICENT SINCERETTI por Boi Neon
GABRIELA CUNHA, DANIEL TURINI, FERNANDO HENNA e PAULO GAMA por Sinfonia da necrópole
JORGE REZENDE, ALESSANDRO LAROCA, ARMANDO TORRES JR. e EDUARDO VIRMOND LIMA por Elis
NICOLAS HALLET e RICARDO CUTZ por Aquarius
PAULO RICARDO NUNES, MIRIAM BIDERMAN; ABC, RICARDO REIS e PAULO GAMA por Reza a lenda

BOI NEON é o segundo longa de ficção do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro (de “Ventos de Agosto”), premiado nos festivais de Havana, Rio de Janeiro, Toronto e Veneza. A história segue o vaqueiro Iremar (Juliano Cazarré, indicado a melhor ator), que sonha em entrar para o mundo da moda. O filme ganhou destaque na imprensa internacional, com críticas elogiosas em publicações como Variety e IndieWire, e provocou polêmica em torno da nudez do protagonista.

Melhor trilha sonora original

ALCEU VALENÇA por A luneta do tempo
ANTONIO PINTO por Pequeno segredo
DJ DOLORES por Big Jato
JAQUES MORELENBAUM por Nise – o coração da loucura
OTAVIO DE MORAES por Elis

Melhor trilha sonora

ALEXANDRE GUERRA por O vendedor de sonhos
BERNARDO UZEDA por Mate-me por favor
DOMINGOS OLIVEIRA por BR716
MATEUS ALVES por Aquarius
MAURICIO TAGLIARI por Mundo cão

Melhor longa-metragem estrangeiro

A CHEGADA/ Arrival – dirigido por Denis Villeneuve
A GAROTA DINAMARQUESA / The Danish Girl – dirigido por Tom Hooper
ANIMAIS NOTURNOS/ Nocturnal Animals – dirigido por Tom Ford
ELLE/ Elle – dirigido por Paul Verhoeven
O FILHO DE SAUL/ Son of Saul – dirigido por László Nemes
SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS / Spotlight – dirigido por Tom McCarthy

Vencedor do Oscar de melhor edição de som, A CHEGADA confirma o canadense Denis Villeneuve como um dos melhores cineastas da atualidade. Na trama, 12 misteriosas naves de formato oval pairam sobre diferentes países da Terra, imóveis no ar. Nos EUA, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é chamada pelos militares para decodificar os sinais transmitidos pelo alienígenas e desvendar se eles representam uma ameaça. Disponível em DVD e Blu-ray na 2001

Melhor curta-metragem animação

CARTAS de David Mussel
O CAMINHO DOS GIGANTES de Alois Di Leo
O PROJETO DO MEU PAI de Rosaria Maria
QUANDO OS DIAS ERAM ETERNOS de Marcus Vinicius Vasconcelos
TANGO de Francisco Gusso e Pedro Giongo
VENTO de Betânia Furtado
VIDA DE BONECO de Flávio Gomes

Melhor curta-metragem documentário

A MORTE DO CINEMA de Evandro de Freitas
ABISSAL de Arthur Leite
AQUELES ANOS DE DEZEMBRO de Felipe Arrojo Poroger
BUSCANDO HELENA de Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner
ÍNDIOS NO PODER de Rodrigo Arajeju
ORQUESTRA INVISÍVEL LET’S DANCE de Alice Riff

Melhor curta-metragem ficção

A MOÇA QUE DANÇOU COM O DIABO de João Paulo Miranda Maria
CONSTELAÇÕES de Maurílio Martins
E O GALO CANTOU de Daniel Calil
NÃO ME PROMETA NADA de Eva Randpolph
O MELHOR SOM DO MUNDO de Pedro Paulo de Andrade

Obs. Todos os filmes em destaque nas fotos estão disponíveis para venda no acervo da 2001 (é só clicar na imagem para ser direcionado ao site).

EM DVD NA 2001, DEZ FILMES INDICADOS AO 15º GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO

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FORAM DIVULGADOS OS INDICADOS À 15ª EDIÇÃO DO GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO, QUE ACONTECE NO THEATRO MUNICIPAL, DO RIO DE JANEIRO, EM 4 DE OUTUBRO.

O drama “Que Horas Ela Volta?“, de Anna Muylaert, e a cinebiografia “Chatô – O Rei do Brasil”, de Guilherme Fontes, tiveram o maior número de nomeações ao prêmio, 14 e 12, respectivamente. E o ator, diretor e produtor Daniel Filho será o grande homenageado da cerimônia.

Até o dia 9 de setembro o público poderá votar no site www.academiabrasileiradecinema.com.br – além de conferir a lista completa dos nomeados – e escolher os vencedores nas categorias “Melhor longa-metragem de ficção”, “Melhor longa-metragem documentário” e “Melhor longa-metragem estrangeiro”.

A seguir, 10 longas indicados ao maior prêmio do cinema nacional, disponíveis em DVD na 2001:

QUE HORAS ELA VOLTA?

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Um dos filmes brasileiros mais aclamados (e comentados) de 2015, escrito e dirigido por Anna Muylaert (de “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”), com Regina Casé e Camila Márdila premiadas na mostra World Cinema do Festival de Sundance. Em sensível atuação, Casé interpreta Val, empregada de uma família no bairro do Morumbi. Depois de anos, ela recebe a filha Jéssica, que deixa o interior de Pernambuco para prestar vestibular em São Paulo.

14 indicações: melhor longa-metragem de ficção, direção, atriz (Regina Casé), atriz coadjuvante (Camila Márdila), ator coadjuvante (Lourenço Mutarelli), roteiro original, fotografia, montagem, direção de arte, figurino, montagem, efeito visual, trilha sonora original e som.

AUSÊNCIA

2

Sete anos depois de sua aclamada estreia na direção de longa (ficção), com “A Casa de Alice”, Chico Teixeira retorna com este retrato do rito de passagem de um jovem à deriva. Aos 14 anos, Serginho (Matheus Fagundes) é mais maduro que outros de sua idade. Ele cuida do irmão mais novo e da mãe alcoólatra, em meio a perdas e sua busca por uma figura paterna. Exibido no Festival de Berlim e premiado com Kikito de melhor filme brasileiro em 2015.

4 indicações: melhor longa-metragem de ficção, direção (Chico Teixeira), ator (Irandhir Santos) e trilha sonora original.

SANGUE AZUL

3

Premiado nos festivais de Paulínia e do Rio de Janeiro, o filme abriu a mostra Panorama no Festival de Berlim. Temendo uma relação incestuosa entre seus filhos Raquel e Pedro, Rosa dá a guarda do garoto, então com 10 anos, para Kaleb, dono de um circo. Vinte anos depois, Pedro (Daniel de Oliveira) volta com o nome artístico Zolah, homem-bala e estrela do circo Netuno. Direção de Lírio Ferreira (“Árido Movie”) e bela fotografia de Mauro Pinheiro Jr., com locações na ilha de Fernando de Noronha.

3 indicações: melhor longa-metragem de ficção, fotografia e direção de arte.

O DUELO

4

Baseado na obra “Os Velhos Marinheiros”, de Jorge Amado, o filme apresenta o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que chega à vila costeira de Periperi e logo conquista a todos no local. Só que o fiscal Chico Pacheco desconfia do forasteiro e começa a investigar sua vida. Direção de Marcos Jorge (“Estômago”), com ótimo elenco: Joaquim de Almeida, o saudoso José Wilker (1946-2014), Milton Gonçalves e Patrícia Pillar.

1 indicação: melhor roteiro adaptado.

PEQUENO DICIONÁRIO AMOROSO 2

5

Quase 20 anos depois da estreia de “Pequeno Dicionário Amoroso”, a diretora Sandra Werneck retoma os personagens de Gabriel (Daniel Dantas) e Luiza (Andréa Beltrão). Separados há quinze anos, os dois se reencontram: Luíza casou-se novamente e teve um filho, enquanto Gabriel teve várias namoradas e hoje vive com uma mulher mais jovem. Glória Pires, Fernanda Vasconcellos e Eduardo Moscovis completam o elenco.

1 indicação: melhor longa-metragem comédia.

CÁSSIA ELLER

6

Documentário de Paulo Henrique Fontenelle (“Loki – Arnaldo Baptista”) que recupera força da cantora, falecida em 2001 aos 39 anos, por meio de imagens de arquivo e depoimentos que relembram sua trajetória. Um dos grandes nomes da música brasileira, Cássia Eller rompeu barreiras na década de 1990 com suas opiniões e performances explosivas. Em DVD e Blu-ray.

4 indicações: Melhor longa-metragem documentário, montagem de documentário, som e trilha sonora.

ÚLTIMAS CONVERSAS

7

Realizado a partir de entrevistas feitas por Eduardo Coutinho com jovens cursando o terceiro ano do ensino médio em escolas públicas, o filme busca entender como pensam, sonham e vivem os adolescentes. Morto em fevereiro de 2014, antes do início da montagem, o cineasta chegou a ver todo o material filmado e deixou um caderno com anotações feitas a partir das transcrições das entrevistas. Filme de abertura do Festival É Tudo Verdade em 2015.

2 indicações: melhor longa-metragem documentário e direção (Eduardo Coutinho).

A FLORESTA QUE SE MOVE

8

Com as comemorações em torno dos 400 anos da morte de William Shakespeare neste ano, vale a pena conferir esta versão brasileira da peça “Macbeth”, transposta para os dias de hoje pela roteirista Manuela Dias (“Justiça”) e o diretor Vinicius Coimbra. Nesta modernização da tragédia shakespeariana, Gabriel Braga Nunes interpreta Elias, executivo de um grande banco e Ana Paula Arósio é Clara, sua esposa. A partir das previsões de uma “bordadeira misteriosa”, os dois tramam a ascensão sangrenta de Elias rumo à presidência da corporação.

1 indicação: melhor ator coadjuvante (Ângelo Antônio).

OPERAÇÕES ESPECIAIS

9

O filme acompanha a jornada de Francis (Cléo Pires), que entra para a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Depois de muito serviço burocrático, ela é escalada para o serviço de operações especiais, chefiado pelo delegado Paulo Fróes (Marcos Caruso). O grupo atua no combate à corrupção das UPPs na cidade fictícia de São Judas do Livramento. Ainda no elenco estão Fabrício Boliveira, Thiago Martins e Fabiula Nascimento.

1 indicação: melhor atriz coadjuvante (Fabiula Nascimento).

LINDA DE MORRER

10

Dirigido por Cris D’Amato (de “S.O.S. – Mulheres ao Mar“), o filme apresenta Gloria Pires no papel de Paula, uma dermatologista que, obcecada pela ideia do corpo perfeito, cria a cura para a celulite. Comédia acima da média, valorizada pela presença de Gloria, além de Vivianne Pasmanter, Ângelo Paes e Susana Vieira no elenco.

1 indicação: melhor efeito visual.

19 DE JUNHO: DIA DO CINEMA BRASILEIRO

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19 DE JUNHO É CONSIDERADO O DIA DO CINEMA BRASILEIRO. POR ISSO, CONHEÇA A DIVERSIDADE DE OPÇÕES – ENTRE CLÁSSICOS E PRODUÇÕES NACIONAIS RECENTES – DISPONÍVEIS PARA LOCAÇÃO NA 2001.

Escolhida pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), a data evoca a ocasião das filmagens do primeiro filme nacional, “Vista da Baia da Guanabara”, do cinegrafista italiano Afonso Segreto, que foi rodado em 19 de junho de 1898.

O acervo da 2001 inclui títulos dos maiores cineastas do país, clássicos importantes e sucessos do cinema nacional. Sucessos que vem alcançando bilheterias expressivas em meio à dominação hollywoodiana das salas de cinema no Brasil.

Prestigie também o nosso cinema! Confira abaixo algumas sugestões para locação na 2001.

 

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

1

Escolhido pelo Brasil para disputar uma das vagas do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014, o longa conquistou mais de 20 prêmios, entre eles o FIPRESCI e o Teddy (voltado para longas de temática LGBT) no Festival de Berlim. Com mais de 200 mil espectadores, o filme é uma expansão do curta homônimo do diretor Daniel Ribeiro, narrando o rito de passagem de Leonardo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego.

O LOBO ATRÁS DA PORTA

2

Um dos longas brasileiros mais elogiados de 2014, premiado nos festivais de Miami e San Sebastián (Espanha), o filme é um envolvente thriller dramático com grandes atuações de Leandra Leal, Milhem Cortaz e Juliano Cazarré.  Na trama, o desaparecimento de uma criança desencadeia uma rede de mentiras, amor, vingança e ciúmes envolvendo um triângulo amoroso.

NÃO PARE NA PISTA

3

Inspirado na obra de Paulo Coelho, autor brasileiro mais vendido no exterior, o filme mergulha na vida do homem por trás do mito: o jovem rebelde, o parceiro de Raul Seixas, o sujeito que não desiste de seu sonho. Escrito por Carolina Kotscho (“2 Filhos de Francisco”, “Flores Raras”), o longa é uma coprodução entre Brasil e Espanha, com Júlio Andrade (“Gonzaga – De Pai para Filho”) vivendo Paulo Coelho na fase adulta.

TIM MAIA

4

Esqueça a versão editada (e repleta de cortes) da TV e conheça a versão oficial dos cinemas, que percorre 50 anos na vida do cantor, desde a sua infância no Rio de Janeiro até a sua morte. Dois atores interpretam Tim – Robson Nunes, na juventude, e Babu Santana, na vida adulta –, e o roteiro reconstitui passagens marcantes como a fase “Cultura Racional”.

BOA SORTE

6

Deborah Secco recebeu o prêmio de melhor atriz do 6º Festival de Paulínia pelo papel de Judite, HIV positivo e dependente de drogas que conhece numa clínica um rapaz de 17 anos, com quem inicia um romance. Elogiado pela crítica, é o primeiro longa ficcional dirigido por Carolina Jabor (de “O Mistério do Samba”), filha do cineasta e comentarista Arnaldo Jabor.  O elenco também traz Fernanda Montenegro, Cássia Kiss e Enrique Diaz.

ISOLADOS

8

Filme de abertura do 42º Festival de Cinema de Gramado, no ano passado, o longa é uma interessante tentativa de cinema de gênero no Brasil, no caso o terror psicológico. Bruno Gagliasso e Regiane Alves interpretam um casal que decide passar o final de semana numa casa na região serrana do Rio de Janeiro, mas a presença de dois assassinos escondidos na mata desencadeia pânico e paranoia.

RIOCORRENTE

8

Exibido na Mostra de SP e no Festival de Brasília, o filme recebeu muitos elogios por seu contundente retrato ficcional da realidade brasileira, trazendo para a tela as manifestações de rua que mexeram com o país neste ano. Primeiro longa de ficção do documentarista Paulo Sacramento (de “O Prisioneiro da Grade de Ferro”), premiado como melhor diretor pela APCA.

PRAIA DO FUTURO

9

Exibida no Festival de Berlim, esta coprodução Brasil-Alemanha confirma o talento de Karim Aïnouz, diretor de “O Céu de Suely”. Na Praia do Futuro, no Ceará, Donato (Wagner Moura) trabalha como salva-vidas e se envolve com um turista alemão, Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona. No elenco, destaque para Jesuíta Barbosa, de “Amores Roubados” e “O Rebu”.

SÃO SILVESTRE

10

O filme constrói de maneira sensorial a experiência de correr uma maratona – respiração, ritmo, concreto, céu, som, memória, sonho. Dirigido por Lina Chamie, que já havia registrado São Paulo em “Via Láctea”, o longa tem apenas um ator, Fernando Alves Pinto, que correu a edição de 2011 da prova com uma câmera acoplada ao corpo, registrando a emoção de se participar de um dos maiores eventos da cidade.

RIO EU TE AMO

11

Projeto da Conspiração Filmes e BossaNovaFilms, o filme segue o modelo de “Paris Eu Te Amo” e “Nova York, Eu Te Amo”, reunindo 11 diretores (Nadine Labaki, Fernando Meirelles, etc) que aceitaram o desafio de traduzir o amor em histórias emocionantes que se conectam ao longo de dois dias pela cidade do Rio de Janeiro. No elenco, Harvey Keitel, Fernanda Montenegro, John Turturro e Vincent Cassel, entre muitos outros.

NA QUEBRADA

12

Inspirado em histórias reais de jovens da periferia de São Paulo, o longa tem direção de Fernando Grostein Andrade, do polêmico documentário “Quebrando o Tabu”. A trama acompanha os anseios e frustrações de jovens como Júnior, talentoso no conserto de televisões; Zeca, que testemunhou uma chacina; Joana, garota que sonha com a mãe desconhecida; e Gerson, cujo pai está na prisão desde que nasceu.

DE MENOR

15

A jovem advogada Helena é defensora pública de menores infratores e vive com Caio, seu irmão caçula. Órfãos, os dois têm um relacionamento de muita cumplicidade, até o dia em que o rapaz comete um delito e torna-se réu na Vara da Infância e Juventude de Santos, local de trabalho de Helena. Com a problemática da redução da maioridade penal em discussão na mídia, “De Menor” ganha ainda mais relevância.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “Alemão”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Na semana em que Alemão foi exibido aos jornalistas, ouvi no rádio que alguns bandidos haviam sido presos naquela manhã no complexo do Alemão, acusados de tráfico de drogas e ataque às UPPs. Pois é, guerra armada, descarada, sem solução. Achei curioso, porque a produção de Alemão é justamente sobre o episódio da tomada do complexo pelas tropas do exército em 2010, que acompanhamos bem de perto pela mídia. Aquela que pretendia ser uma política pacificadora, lembra?

 

Se melhorou para a comunidade, está valendo. Mas pelo jeito ainda é terra de ninguém. As mais de 100 mil pessoas que vivem nesses morros são reféns das drogas, das brigas entre gangues por território, armas, munição, poder e influência. É duro dizer, mas já estamos acostumados. Virou regra. O ponto positivo é que o filme foca em um episódio específico, não fica falando mais do mesmo: um pouco antes de o governo autorizar a entrada do exército e de os traficantes se renderem – ou fugirem – policiais que viviam no morro à paisana são descobertos pelos traficantes e ficam encurralados em um esconderijo no meio da comunidade. Não conseguem descer, fugir, sair com vida. A chacina é total, a violência, desmesurada. Um outro Tropa de Elite? Não, não tem a intensidade da tensão do Tropa, que também mexe com a corrupção política. Mas assusta, é violento, rápido, cruel. Um recorte do buraco onde está a nossa sociedade.

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Longe de dizer que existe uma tendência em “favelizar” o cinema nacional – já passamos desta fase – vale dizer que há outros filmes também bons sobre o tema. Além dos dois Tropa de Elite, de José Padilha, gosto de 5 X Favela – Agora por nós Mesmos, Última Parada 174 e Bróder. Alemão agride porque é real – como bem relatou a matéria do rádio, minutos depois que eu sai do cinema.

Veja o trailer de “Alemão“:

DIREÇÃO: José Eduardo Belmonte ROTEIRO: Gabriel Martins ELENCO: Cauã Reymond, Antonio Fagundes, Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr., Milhem Cortaz, Otávio Muller | 2014 (109 min)

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

ENTREVISTA EXCLUSIVA: HILTON LACERDA (“TATUAGEM”)

ARTE EM BUSCA DA LIBERDADE

Um dos mais consagrados roteiristas do cinema brasileiro, Hilton Lacerda (“Baile Perfumado”, “Amarelo Manga”, “A Febre do Rato”) conversou com a 2001 sobre “Tatuagem“, longa premiado no Festival do Rio e em Gramado.

Por Eduardo Lucena

Qual foi a inspiração maior para a criação de “Tatuagem“?

“Tatuagem” nasceu da confluência de várias inspirações. Mas acredito que, conceitualmente, veio de uma preocupação muito pessoal em construir um filme no qual minhas angústias criativas e narrativas estivessem presentes. E coisa que muito me toca é a construção/reflexão sobre o tempo – e de que maneira nos damos com ele. Como construímos o futuro? E ainda existe chance para utopias?

Depois, numa conversa sobre o grupo teatral Vivencial Diversiones, com João Silvério Trevisan, veio a luz sobre o contexto, a parte física. Isso porque o Vivencial, uma casa de espetáculos que existiu no Recife entre os anos de 1974 e 1981, tinha em seu corpo os elementos possíveis para derramar minhas expectativas.

A partir dessa junção me veio os pontos cruciais para a construção do filme: o Chão de Estrelas, os personagens e a relação de Clécio e Fininha. A família em pauta. E, além disso, a época, em que se construía uma possibilidade de futuro.

Minha intenção não era o saudosismo da constatação, mas trazer o mais próximo possível, problemáticas contemporâneas que iniciaram as discussões lá atrás. O deslocamento no tempo foi mais para fortalecer a reflexão sobre nossos desejos, já que vivemos uma época onde essas transformações são possíveis, apesar das resistências.

Antes de assumir a direção do filme, você já havia realizado alguns curtas e “Cartola – Música Para os Olhos” (ao lado de Lírio Ferreira). A transição de roteirista estabelecido para diretor era algo que você já planejava?

Sempre tive uma ligação bastante próxima com o set de filmagem. E, narrativamente, mesmo sabendo que estamos lidando com matérias bastante diferentes, a execução de um filme sempre esteve em meu campo de realização. Não que fosse planejado, mas desejado. Executar, passar de uma linguagem para outra – da palavra à imagem – é um exercício bastante excitante.

“Tatuagem” trata, entre outros temas, da busca pela liberdade individual – algo que permeia quase toda a sua obra – no contexto da repressão no Brasil em Recife, 1978. Essa luta pela liberdade (artística, política, sexual) continua sufocada hoje?

Não creio que sufocada, mas acredito que estamos em momentos de decisões muito pontuais e emergentes. Existe, sim, uma reação mais convicta em relação a essas possibilidades de mudanças.

De certa maneira é pensar que a fatia mais conservadora e reacionária está lançando mão de estratégias muito perigosas para impor suas ideias. O discurso messiânico e preconceituoso está em evidência, e, por motivos que precisam ser melhor compreendidos, tem encontrado eco popular. O conflito parece inevitável. Mas lutamos para que a invenção vença a barbárie.

Os personagens principais são homossexuais e lutam por seus desejos e aspirações. Por isso, é inevitável que “Tatuagem”, mesmo com um rico contexto político, seja rotulado, em algum momento, como “filme gay” na mídia. De que maneira você, como diretor-autor, desmistifica esse reducionismo?

Acho engraçado o reducionismo, porque, de certa maneira encara gênero como mercado. É bem simplista, mas existe essa visão. Eu acho equivocada a nomenclatura. Passei a adolescência assistindo a vários diretores que eram homossexuais, e quando seus filmes mergulhavam no tema, a discussão estava em cima da humanidade daquela construção. Fassbinder, Pasolini, Visconti… Até Almodóvar, de certa maneira, não realizaram filmes gays – ou assim não foram tratados. De certa forma não só é reducionista e equivocado, como conservador. Devemos abrir portas e não fechá-las.

Há um clima de teatro burlesco, mas subversivo, pontuado por clássicos da música brasileira em versões despojadas cantadas pelos próprios atores. Houve uma preparação especial dos atores nesse sentido?

A preparação do elenco do filme foi muito apurada, muito conversada. Amanda Gabriel, que foi nossa preparadora de grupo, ia traduzindo para o elenco as entrelinhas do universo que estávamos construindo. E uma decisão que foi bastante acertada era fazer os atores se sentirem donos, proprietários da criação. Os espetáculos, por exemplo, foram montados pelo próprio elenco que, além de Amanda, tinha em Irandhir Santos um ator disponível para ajudar nessa formação. Eu queria um elenco afiado e que a sensação fosse de uma convivência maior – muito maior – que a que de fato teríamos.

Poderia citar algumas das suas referências para a construção da atmosfera do filme?

Bebemos em muitas fontes, bem direcionadas. O trabalho com os atores passava por uma lição de “visionamento” a partir de uma seleção preparada por mim e por Marcelo Caetano, diretor-assistente. Essas escolhas iam desde produções contemporâneas, como “O Sabor da Melancia” (de Tsai Ming-Liang), “Mal dos Trópicos” (Apichatpong Weerasethakul) e “Morrer Como Um Homem” (João Pedro Rodrigues), e passavam também pela memória do cinema brasileiro, principalmente “A Lira do Delírio” (Walter Lima Jr) e “Sem Essa, Aranha” (Rogério Sganzerla). E não podemos esquecer uma quantidade absurda de filmes super-8 realizados nas décadas de setenta e oitenta. Principalmente os filmes de Jomard Muniz de Britto, Edgard Navarro e José Agrippino de Paula.

Fale sobre a parceria com Cláudio Assis, diretor de três filmes (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato”) que você escreveu.

A nossa parceria iniciou no início da década de noventa, mas só veio a se confirmar durante a realização do curta “Texas Hotel” – escrito por mim e o primórdio de “Amarelo Manga”.

Acredito que essa parceria é fruto de dois universos que, de certa maneira, se completam. Cláudio me dá o combustível e eu organizo seu universo, suas loucuras. É uma troca bastante intensa. Neste momento estou finalizando, junto com Anna Carolina Francisco – que escreveu os primeiros tratamentos – a versão final do “Big Jato”, que Cláudio filma agora em maio.

É uma parceria que prezo bastante. E lembrar que é uma parceria com a equipe, com o entorno. Existe uma coisa meio cooperativa nos filmes de Cláudio que é bastante interessante.

O desejo libertário, de lutar contra uma ordem vigente – ou pela própria identidade –, também move o personagem Zizo (interpretado por Irandhir Santos) em “Febre do Rato”. “Cinema do corpo”, poesia e protesto representados pelo ator. Até onde vai a colaboração com Irandhir?      

Irandhir é o tipo de ator que você pode muito facilmente chamar de parceiro. As experiências que tive com ele (“Baixio das Bestas”, “Febre do Rato” e “Tatuagem”) o colocam num lugar muito especial. Algumas pessoas são imprescindíveis em alguns projetos. Era o caso de Irandhir para interpretar Clécio.

Delicadeza, gentileza, responsabilidade, bom humor, talento e técnica. Com ele, podemos contar com um ator por inteiro. Gosto também de ouvi-lo falando os textos que escrevo. Tem uma sensibilidade muito avexada. Amor e agradecimento.

Filmes roteirizados por você, como “Baile Perfumado” (1997), “Árido Movie” (2005), “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato”, contribuíram para generalizações em torno do chamado “cinema pernambucano”. Ele pode ser considerado um movimento ou é simplesmente um rótulo?

Talvez tenhamos que nos contentar com um meio termo. Isso porque eu sou bastante reticente ao rótulo de Cinema Pernambucano. Tem um certo ranço, que se não for entendido com alguma ironia pode ser bastante reducionista. Gosto mais de falar de filmes realizados em Pernambuco.

Mas deixando de lado minhas reticências, temos que reconhecer que existe uma produção local e que ela tem obtido repercussão constante na chamada retomada do nosso cinema. Mas há um conjunto de acontecimentos, de estratégia, de cooperação e de talento que culminaram no quadro atual. Uma das coisas mais interessantes de apontar é a maneira de produzir, provando que existem formas diferentes de realizar um filme, diferentes de qualquer cartilha e que conversam com a realidade local. A partir disso – acho que “Baile Perfumado” foi muito importante para abrir essa porta –, conseguimos engrenar uma produção muito interessante. Inclusive forçando e sensibilizando o Estado a criar um edital reconhecido hoje em todo o país como um dos mais eficientes. E isso sem estar atrelado a um pensamento meramente comercial, mercadológico. Tudo é conquista.

O cinema nacional vive uma dicotomia entre produções com estética de TV e produções autorais. Por que ainda é tão difícil para cineastas e roteiristas, com propostas fora do óbvio, alcançarem um público maior no mercado brasileiro? 

Essa questão tem se agravado. Tenta-se localizá-la na questão do gosto. Para mim é negócio. A lógica de exibição e distribuição no Brasil é perversa, comum objetivo muito claro: impor um consumo exacerbado dessa chamada indústria cultural. Estamos atrelados à lógica da dependência. Acredito que falta uma atitude política de fato, que trate a questão da visibilidade das produções em evidência. Filmes com mais ou menos apelo comercial fazem parte da história do cinema. A visibilidade não resolve gosto, mas coloca a discussão cultural e artística numa pauta mais viável. Aí sim podemos discutir questões de conteúdo.

Quais os seus planos para o futuro? Algum projeto em vista?

Depois de todo o tempo dedicado ao lançamento de “Tatuagem”, me voltei para os roteiros. Estão engatilhados mais dois para cinema: “Big Jato” (roteiro em parceria com Anna Carolina Francisco), que Cláudio Assis vai dirigir, e – dividindo a roteirização com Anna e Francisco Guarnieri – “Juliano Pavollini”, filme que marcará a estreia de Caio Blat na direção.

Estou roteirizando algumas séries. A que se encontra mais adiantada se intitula “Conto Que Vejo”, produção da REC Produtores (a mesma de “Tatuagem”) na qual também sou diretor geral.

Para o cinema estou gestando novas coisas, mas vou precisar de mais tempo para expor essa ideia. Fazer cinema é sempre uma mistura de ansiedade e paciência – quase loucura.

ADEUS JOSÉ WILKER (1947-2014)

Um dos atores e diretores de maior sucesso no cinema, TV e teatro brasileiros, Wilker faleceu no último sábado, vítima de um infarte fulminante.

De Dona Flor e Seus Dois Maridos ao recente Giovanni Improtta, ele encheu a tela com bom humor e inteligência.

Confira alguns trabalhos do ator na 2001:

Dona Flor E Seus Dois Maridos (1976)

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Flor é uma recatada professora de culinária casada com Vadinho, um homem divertido e sensual. Apreciador de mulheres, bebidas e jogatina, ele morre em plena festa de carnaval. Viúva, Flor se casa com o farmacêutico Teodoro, o oposto do ex-marido: cavaleiro, respeitador e puritano. Mas Flor sente saudades do fogo intenso de Vadinho, que retorna ao mundo dos vivos para saciar seus desejos.

Dona Flor e Seus Dois Maridos é um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro: quente sensual e divertidíssimo, com grandes atuações do elenco e soberba direção de Bruno Barreto.

Roque Santeiro

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A trama se passa na cidade fictícia de Asa Branca, em algum lugar do nordeste na década de 1980. O coroinha Luiz Roque Duarte, conhecido como Roque Santeiro por conta de sua habilidade em modelar santos, morreu ao se defender dos homens do bandido Navalhada, logo após seu misterioso casamento com a desconhecida Porcina. Santificado pelo povo, que lhe atribui milagres, tornou-se um mito e fez prosperar a cidade ao redor da sua história de heroísmo. Só que Roque não está morto e volta à cidade, ameaçando pôr um fim ao mito. Sua presença leva ao desespero o padre Hipólito, o prefeito Florindo Abelha e o comerciante Zé das Medalhas, principal explorador do santo. Mas o maior prejudicado é Sinhorzinho Malta, o todo-poderoso fazendeiro do lugar, que vê ameaçado o seu romance com a “viúva” Porcina, que nunca foi casada com Roque e sempre viveu à sombra de uma mentira articulada por Malta. A coleção “Roque Santeiro” é um compacto de 16 DVDs que conta o começo, o meio e o fim da história dessa obra.

O Homem da Capa Preta

Índice
Baseado na vida de Tenório Cavalcanti, um polêmico e reacionário político da Baixada Fluminense nos anos 50. Usando uma capa preta e armado com sua metralhadora apelidada de Lurdinha, Tenório tornou-se um aventureiro, desafiando a corrupção e os poderosos que dominavam o município de Duque de Caxias. “Não sou fascista, não sou comunista, não sou covarde. Sou Tenório. Sou macho”. Com essa frase Tenório Cavalcanti foi considerado um mito nacional.

O Bom Burguês

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O bancário Lucas apóia financeiramente organizações revolucionárias distintas: uma contrária à guerrilha e outra, favorável à luta armada. Joana é irmã de Lucas, mas não sabe de suas atividades clandestinas. Mas tudo pode acontecer após o seqüestro de um embaixador suíço. Entre a tensão e a incerteza, Joana se apaixona pelo guerrilheiro Lauro, o grupo é descoberto e seu líder, morto. Agora a identidade de Lucas está por vir à tona. E pelas mãos de sua própria irmã.

Giovanni Improtta

 Seu último trabalho, “Giovanni Improtta” do qual a 2001 teve o trabalho de prestigiar em coletiva de imprensa

Seu último trabalho, “Giovanni Improtta” do qual a equipe 2001 teve o privilégio de prestigiar em coletiva de imprensa

Giovanni Improtta conta a história de um contraventor que deseja ascender socialmente e se legalizar. Seu desejo em se tornar celebridade, acaba lhe botando em enrascadas com a polícia, o jogo do bicho e com sua família. Acaba traído, na mira da mídia e da polícia, sob uma injusta acusação de assassinato, difícil de ser resolvida por vias legais.

José Wilker, cinéfilo convicto, foi convidado a participar da campanha contra a pirataria, pela UBV (União Brasileira de Vídeo). Veja a gravação da campanha:

Confira a filmografia do ator na 2001

Clique na imagem e confira a filmografia do ator na 2001

Clique na imagem e confira a filmografia do ator na 2001

 

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “SERRA PELADA”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Já não sei mais onde li que o amontoado de gente trabalhando em Serra Pelada nos anos 1980 é o maior desde a construção da pirâmides do Egito, que envolveu 4 mil homens. No maior garimpo a céu aberto do mundo, foram 100 mil. Além da quantidade de trabalhadores manuais, o que difere Serra Pelada da construção no Egito é a que no sul do Pará as pirâmides foram cavadas na terra, para baixo, na busca pelo ouro. O que restou hoje desse desastre ecológico e humano é um lago lamacento, perto de onde irá começar novamente a exploração de metais preciosos por uma empresa canadense. Só que desta vez, de forma organizada e racional.

Digo racional porque o que houve há três décadas foi o extrema da irracionalidade. Alguém disse que havia ouro, semanas depois o Brasil inteiro se despencou aos confins da região norte, por estradas esburacadas, para se deparar com um calor infernal, com a falta total de infraestrutura, com o sonho irreal de enriquecer da noite para o dia. Sem saneamento básico, habitação decente, planejamento ou responsabilidade, esses milhares de homens acharam muito ouro, mas poucos realmente ganharam dinheiro. Enriqueceu quem exercia poder. Trabalho escravo, muitas mortes, condições terríveis de vida e trabalho, muita promiscuidade, altos índices de doenças, inclusive AIDS, violência e mais violência. Prato cheio para quem ousasse filmar tudo isso. Com essa intensidade, não seria tarefa fácil.

Serra Pelada, do diretor Heitor Dhalia, tem o clima tenso, ilusório, sujo, às vezes dourado, violento do garimpo. Conversando sobre o filme, descobri que meu pai visitou o local na época. Nunca soube disso, mesmo porque naquele tempo isso pouco interessaria a uma menina de 10 anos. Pelo seu relato, a sensação de formigueiro humano era real. Eram formigas trabalhando, sob forte repressão; de humano aquilo não tinha nada.

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Dhalia
, também de “À Deriva”, conta a história de dois amigos aventureiros desiludidos, que enxergam no garimpo a chance de ganhar dinheiro e resolver a vida. Joaquim (Julio Andrade, também em “Gonzaga”, é professor, fica sem emprego e resolve deixar a mulher grávida para tentar a sorte; Juliano (Juliano Cazarré, também em “360“, “Bruna Surfistinha“, “VIPs”, “Salve Geral“, “Assalto ao Banco Central“) vai com o amigo, ganha confiança no garimpo, torna-se dono de um pedaço de terra.

O dinheiro e o poder de fogo se tornam mais importantes que o projeto original. Enfrentam as disputas por território, pelo ouro, pelo tráfego de influência e de outras cositas más, pelas mulheres. Quem entra na parada são dois chefões do pedaço, representados por Matheus Nachtergaele e Wagner Moura – este último rouba a cena cada vez que abre a boca, num sujeito absolutamente detestável como pessoa – e adorável como personagem!

Veja a filmografia de Wagner Moura na 2001

Veja a filmografia de Wagner Moura na 2001

Assistam. É uma produção brasileira ousada e talentosa; com bom roteiro, ótimos personagens e uma história incrível para contar. Quem tinha meus 10 anos na época, vai lembrar das imagens que circulavam nas revistas e jornais quando essa realidade veio à tona. É bem isso que tem o filme de Dhalia. Realidade pincelado com boas histórias de vida, para contar mais uma incrível e triste história desse Brasil desorganizado, onde parece que tudo é capaz de acontecer. Até formigueiro humano.

Veja o trailer de “Serra Pelada“:

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “O SOM AO REDOR”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE.

Quando o som da sessão do 40 Festival de Cinema de Gramado apresentou problemas que comprometiam não só a qualidade do filme, mas o entendimento do que diziam os personagens, a exibição foi interrompida. Faltava muito pouco para o final. Além da obviedade da situação, já que se tratava de um filme da mostra competitiva, foi dito que haveria reprise, já que aquele desfecho seria absolutamente essencial para toda a trama apresentada em O Som ao Redor.

Gramado

E foi provado que tinham absoluta razão. O filme já se delineava interessantíssimo na sua construção do panorama da vida da classe média urbana nordestina, inserida no contexto dos bairros descaracterizados, da especulação imobiliária, do medo paralisante, das relações familiares e servis, da família paternalista, do coronelismo. Naquela categoria de filme que costumo ressaltar como filmes de observação, que também estão na função de observar o comportamento da sociedade. E, especificamente neste caso, de observação do som da cidade de Recife – que é de fato um dos personagens do filme.

Foto janela prédio

Mas o desfecho, aquele que ficou faltando naquela noite, é realmente fundamental. E surpreendente. Para quem não tem tanta paciência, gosta de filmes mais rápidos, decisivos, minha dica é investir. Porque o desfecho compensa.

“O que me interessa muito nas cidades são os não-lugares, como o bairro de Setubal, onde se passa o filme”, comenta o diretor Kleber Mendonça. “Os não-lugares são fotogênicos, têm pessoas circulando e, onde se tem o elemento humano, há histórias.” E são essas histórias que são retratadas, não sem a intenção de retratar a mudança do perfil urbano da zona sul do Recife, não sem a preocupação de registrar o novo perfil da sociedade que por ali circula.

Gustavo Jahn

Para tanto, os personagens têm diálogos muito realistas, as cenas têm tempos reais e muita observação. João (Gustavo Jahn) é quem permeia por praticamente todas as situações. É neto de Francisco (Solha), que é dono do antigo engenho, portanto um senhor de terras, e hoje é dono do espaço urbano, na figura da demolição da cidade e da sua verticalização. Francisco é dono de tudo: do dinheiro, da rua, dos prédios e da ordem vigente. A elite.

Por outro lado, surge a classe média que desponta no panorama da família de Bia, com sua rotina, suas preocupações e pirações. Formando a triangulação, a classe média baixa de empregados surge na figura das empregadas domésticas, e dos vigias da rua, liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos, também em A Febre do Rato, Tropa de Elite 2, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), que aparecem oferecendo, ou melhor, impondo, seus serviços, moeda de troca quando se pensa no medo que escraviza a sociedade.

Veja a filmografia de Irandhir Santos na 2001

Veja a filmografia de Irandhir Santos na 2001

O Som Ao Redor é um convite à observação do que está em torno da vida nas cidades. Ter assistido duas vezes foi até uma boa pedida. O filme exige atenção e observação dos signos e códigos colocados ali pelo diretor. Kleber Mendonça fala do Recife, mas poderia ser qualquer grande cidade brasileira, inserida no seu contexto particular. Quem é morador de uma grande cidade sabe o quanto é difícil parar, olhar, sentir e perceber o que está acontecendo ao redor. No mínimo, não dá tempo. No máximo, perdemos essa capacidade de contemplar e emitir opinião. Aproveite para fazer o exercício. Sua cidade pode ser um grande laboratório.

Veja o trailer de “O Som ao Redor”

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ADEUS EDUARDO COUTINHO

PRESTAMOS NOSSAS HOMENAGENS AO CINEASTA BRASILEIRO QUE MELHOR ESTREITOU OS LIMITES ENTRE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO.

Formado segundo a tradição do Cinema Novo e as técnicas das reportagens televisivas, Eduardo Coutinho teve uma das trajetórias mais importantes do cinema documentário no Brasil.

“Dotado de apurado juízo crítico, absoluta integridade e senso de humor refinado, Eduardo Coutinho trilhou um árduo caminho até tornar-se uma celebridade. Espécie rara de celebridade. Aquela que, em vez de se mostrar, faz de tudo para não aparecer.

Coutinho nunca buscou essa condição de notável. Obstinado, conseguiu superar o estigma de ser, durante vinte anos, autor de um filme inacabado e terminou fazendo de Cabra Marcado para Morrer uma obra-prima. Com isso, ganhou o lugar de destaque que merece entre os cineastas brasileiros. Sem desfraldar bandeiras ou alimentar polêmicas vazias, tornou-se, por mérito próprio, nosso maior documentarista.

Pertencendo a uma geração marcada pela eclosão de talentos precoces, obras esparsas, decadências prematuras e vidas breves, Coutinho escapou da perigosa armadilha de ser autor de um único grande filme. Já sexagenário, foi capaz de se reinventar, criando Santo Forte, um novo gênero de documentário, pelo qual recebeu nova e justa consagração. Quem tem o privilégio de conviver com Eduardo Coutinho é beneficiário de sua generosidade humana, sua intransigência com as convenções e de seu lúcido radicalismo.”

“Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real – Livro” – (Prefácio – Um Radical Lúcido, por Eduardo Escorel)

Fonte: Revista Cult Foto: Daniel Deák

Fonte: Revista Cult
Foto: Daniel Deák

Veja a filmografia de Coutinho na 2001

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “MEU PÉ DE LARANJA LIMA”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

o clássico romance de José Mauro de Vasconcelos conquistou gerações de leitores e ganha nova versão pelo olhar do talentoso diretor-roteirista Marcos Bernstein ("O Outro Lado da Rua")

o clássico romance de José Mauro de Vasconcelos conquistou gerações de leitores e ganha nova versão pelo olhar do talentoso diretor-roteirista Marcos Bernstein (“O Outro Lado da Rua”)

A vida é dura para o menino Zezé. É pobre de dinheiro, pobre de pai (que bebe demais e o maltrata), pobre de compreensão. Mas não pobre de espírito, muito menos de imaginação. E é o sonhar acordado que é a tábua de salvação para essa infância sem presente de Natal, sem presença de mãe, com muita surra. Seu amigo imaginário, o pé de laranja lima, ganha vida, o transporta para outro mundo, o leva para longe, onde há mar, amigos, doçura.

Assim foi a infância de José Mauro de Vasconcelos, que a transformou em livro em 1968, um best seller. De lá para cá, sua história já foi adaptada para o cinema e para a televisão, e continua atual. O desafio aqui é mostrar o ponto de vista do garoto endiabrado, que tem um só amigo, seu irmão mais moço, Luís, enquanto todos os outros o hostilizam. E que cria, justamente com pessoas mais velhas (o Portuga, José de Abreu, e seu tio, Emiliano Queiroz), uma relação de amizade e admiração. Teria sido fácil fazer um melodrama, do ponto de vista adulto. Ou até do ponto de vista da criança, que apanha por qualquer motivo. Ao mesmo tempo que o diretor Marcos Bernstein (também roteirista de Central do Brasil, Faroeste Caboclo, Somos Tão Jovens) mostra o sofrimento de Zezé, traz à tona com muita beleza a criatividade do menino, sua vivacidade, companheirismo e bom coração.

Um dos mais cativantes personagens da literatura infanto-juvenil, Zezé é um menino que encontra na imaginação uma forma de escapar da brutalidade à sua volta

Um dos mais cativantes personagens da literatura infanto-juvenil, Zezé é um menino que encontra na imaginação uma forma de escapar da brutalidade à sua volta

Se deu para Zezé fechar as feridas dessa infância, isso não sei. Fato é que vira escritor (na pele de Caco Ciocler), registra sua experiência em livro e deixa claro que o quê o salva de uma vida adulta amarga é justamente a capacidade de sonhar e imaginar. Portanto, a esperança. Nos olhos do menino Zezé, isso ficava claro. Era só dar chance, que vinha na mente uma boa história, um bom papo, algo novo para criar. Ou aprontar. Que também, tudo bem. Era menino, afinal de contas.

Misturando realidade e fantasia, Meu Pé de Laranja Lima tem um tom melancólico, um ritmo mais lento. Vai gostar quem realmente gosta do cinema brasileiro, fora das comédias que temos visto por aí. Embora tenha o menino como protagonista, não é exatamente um filme infantil – até pelas cenas em que o garoto apanha dos pais e irmãos. Mas dá para ser visto por crianças maiores, que inclusive podem exercitar o gosto pelo cinema nacional.

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Especiais os filmes que têm o dom de mostrar o que passa na mente de uma criança. Algumas produções são marcantes por isso e valem ser vistas. Diria ainda mais: especiais os diretores que conseguem se colocar no lugar das crianças. Que foram crianças um dia, eu sei, mas são lembranças longínquas, sensações muitas vezes apagadas e caladas no fundo da alma. Trazer à tona pelo cinema e para o cinema, e transportá-las para a realidade de outra criança é o que torna essas obras delicadas e profundas.

 

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