David Lynch

UM DOS LANÇAMENTOS DO ANO, A COLEÇÃO TRAZ 4 FILMES DO DIRETOR, INCLUINDO O CULT “ERASERHEAD”

Um dos diretores mais cultuados pelos cinéfilos, David Lynch transcende a sétima arte. É um inquieto artista multimídia também com trabalhos nas artes plásticas, fotografia, escultura, desenho, música e até nos quadrinhos (“O Cão Mais Raivoso do Mundo”). Produtor de música eletrônica, lançou em 2001 o álbum “Crazy Clown Time”, em que continua suas experimentações sonoras no cinema.

Considerado um dos diretores mais originais e influentes do cinema, Lynch é um dos poucos a desafiar (ou mesmo subverter) as convenções da indústria, mantendo-se sempre fiel a seu estilo e experiências. Para ele, ao representar a vida, os filmes devem ser complicados, e, em alguns casos, inexplicáveis. Por isso, dificilmente o cineasta explica o enredo de suas produções; cabe ao próprio espectador estabelecer sentido e significação para aquilo que vê.

O CINEMA DE DAVID LYNCH

A coleção reúne quatro de seus filmes – três deles fora de catálogo. Anteriormente lançado pela Lume, “Eraserhead” (1977) – estreia de Lynch na direção de longa – virou item de colecionador. Indicado a 8 Oscar, “O Homem Elefante” (1980), “Coração Selvagem” (1990) – vencedor da Palma de Ouro em Cannes -, e o surreal quebra-cabeça “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) completam o box.

ERASERHEAD

Primeiro longa-metragem do cineasta, o filme começou a ser rodado em 1971 e foi lançado apenas em 1977. Seu penoso processo de produção resultou inclusive no primeiro divórcio do diretor.

Bizarro, original, surrealista. “Eraserhead” é um pesadelo em forma de drama familiar, acompanhando Henry Spencer (Jack Nance), que luta internamente para lidar com sua raivosa namorada e os gritos de seu filho, um bebê mutante. Entre os admiradores deste cult incontornável do cinema, estão Stanley Kubrick e Mel Brooks que, impressionado, produziria o filme seguinte do diretor, “O Homem Elefante”.

O HOMEM ELEFANTE

Usado como uma atração de circo, John Merrick (John Hurt) é constantemente humilhado pela sociedade a sua volta. Frederick Treeves (Anthony Hopkins), um famoso cirurgião, o leva para o hospital em que trabalha e descobre que, a despeito de sua aparência incomum, Merrick é um ser humano sensível, inteligente e gentil.

Drama vitoriano filmado na Inglaterra, com bela fotografia em preto e branco influenciada pelo expressionismo alemão, o filme foi reconhecido pela Academia de Hollywood com oito indicações ao Oscar, incluindo a primeira das três nomeações de Lynch a melhor direção.

CORAÇÃO SELVAGEM

Lynch homenageia à sua maneira o clássico “O Mágico de Oz” por meio da bizarra jornada de Sailor (Nicolas Cage) e Marilyn (Laura Dern), que deixam sua cidade para fugir das garras da diabólica mãe dela (papel de Diane Ladd, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Premiado com uma polêmica Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1990, o longa é um road movie erótico, perturbador e violento, repleto de humor negro. O elenco ainda conta com Willem Dafoe, Isabella Rossellini e Harry Dean Stanton – falecido em 15 de setembro deste ano, aos 91 anos.

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DELAURA PALMER

Cercado de expectativa, por conta do sucesso da série criada por Lynch e o roteirista Mark Frost, o filme estreou no Festival de Cannes de 1992. Duramente vaiado na Croisette e incompreendido na época de seu lançamento, é mais um surreal conto de horror lynchiano sobre a perda da inocência.

Na trama (ou anti-trama), o agente do FBI Chet Desmond (Chris Isaak) e seu parceiro Sam Stanley (Kiefer Sutherland) investigam o assassinato da garçonete Teresa, em uma pequena cidade do estado de Washington. Após descobrir uma pista, Chet desaparece a alguns quilômetros da cidade de Twin Peaks. Um ano depois, outra morte parece ter ligação com o crime: o assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Seus últimos dias de vida podem ajudar a solucionar o mistério.

Reavaliado com o passar do tempo, o filme adquiriu status de cult e ganha mais relevância agora com o retorno – 25 anos depois – da série, com a qual estabelece conexões importantes.

DAVID LYNCH EM PARIS, MOSTRA DE CINEMA E NA 2001

“É absurdo um cineasta dizer com palavras o que significa um filme em particular.”  David Lynch

AUSENTE DA DIREÇÃO DE LONGA-METRAGEM DESDE IMPÉRIO DOS SONHOS, DE 2006, DAVID LYNCH TEM SE DEDICADO A INÚMERAS ÁREAS DE ATUAÇÃO: A MEDITAÇÃO TRANSCENDENTAL, CURTAS PUBLICITÁRIOS, UMA CASA NOTURNA INSPIRADA EM CIDADE DOS SONHOS O CLUB SILENCIO, EM PARIS – E A MÚSICA.
DE HOJE A 28/4, A CAIXA CULTURAL, EM SÃO PAULO, REALIZA A MOSTRA “DAVID LYNCH – O LADO SOMBRIO DA ALMA”, DEDICADA AO MULTIARTISTA.

Nascido numa pequena cidade do interior de Montana (EUA), em 20/1/1946, Lynch frequentou diversas escolas de arte após o secundário, além de estudar brevemente na Europa. Em 1967, se casou com uma colega de pintura, Peggy Reavey, e teve sua primeira filha – Jennifer Chambers Lynch, que mais tarde seguiria os passos do pai ao dirigir o bizarro Encaixotando Helena (Boxing Helena, 1993). Essa primeira experiência paterna exerceu enorme influência em Eraserhead (1977), sua estreia na direção de longa-metragem. O filme levou cinco anos para ser realizado e, embora tenha sido mal recebido pela crítica, adquiriu status de cult com o tempo, além de conquistar admiradores como o cineasta Stanley Kubrick.

O personagem-título de “Eraserhead”, filme que chamou a atenção de Mel Brooks e Stanley Kubrick

Eraserhead impressionou também o ator e diretor Mel Brooks (A História do Mundo – Parte I, Alta Ansiedade), que contratou Lynch para dirigir O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980), drama vitoriano filmado na Inglaterra, com fotografia em preto e branco e influência do expressionismo alemão. O filme foi reconhecido pela Academia de Hollywood com oito indicações ao Oscar, incluindo a primeira das três nomeações de Lynch a melhor direção. Ele ainda seria convidado por George Lucas para dirigir O Retorno de Jedi (Star Wars – Episode VI – Return of the Jedi, 1983), oportunidade que recusou.

Se O Homem Elefante foi um sucesso, o passo seguinte do cineasta — Duna (Dune, 1984), primeira adaptação do best seller de ficção-científica escrito por Frank Herbert — foi um total desastre: custou 47 milhões de dólares, arrecadou apenas 4 e ainda foi massacrado pela crítica. Em entrevista a Chris Rodley (Ler Lynch on Lynch, da editora Faber & Faber), Lynch confessou que após o fracasso do filme sentia-se morto como cineasta.

David Lynch em 1984

Num período de desencanto com os grandes estúdios, ele passou a se dedicar mais à fotografia e à pintura, até retornar com força total com o inesperado êxito de Veludo Azul (Blue Velvet, 1986). Perturbador, o thriller marcou o início de sua parceria com o compositor Angelo Badalamenti e estabeleceu algumas das marcas da mise-en-scène lynchiana: imagens que distorcem a realidade, canções pop (principalmente de Roy Orbison), sequências surrealistas de sonho, e o uso inventivo do som – Lynch é sound designer de vários de seus filmes – na construção da atmosfera. O filme causou polêmica pela violência e sexualidade bizarra de seus personagens, valendo a Lynch nova indicação ao Oscar de direção.

Lynch dirige a então namorada Isabella Rossellini em “Veludo Azul”, filme que chocou o público com seus tipos bizarros e sexo sadomasoquista. Isabella é filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini, abordados no documentário “Bergman & Magnani”, disponível na 2001

1990 foi um grande ano: vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Coração Selvagem (Wild at Heart), ele alcançaria o maior sucesso comercial de sua carreira com a série televisiva Twin Peaks, verdadeiro fenômeno cultural que se tornou objeto de culto. No mesmo período, dirigiu inúmeros comerciais, principalmente para fragrâncias de Yves Saint Laurent, Calvin Klein e Giorgio Armani.

Exemplo do furor causado por “Twin Peaks”: capa da revista Rolling Stone de outubro de 1990 com as beldades da série: Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn e Madchen Amick

Considerado um esforço oportunista para explorar comercialmente a série, o longa-metragem Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks – Fire With Me, 1992) fracassou crítica e comercialmente, mas Lynch voltaria a desconcertar crítica e público com A Estrada Perdida (Lost Highway, inédito em DVD no Brasil) em 1997. Espécie de noir surrealista, o filme intensifica as experiências visuais e sonoras do diretor, tirando proveito da climática trilha sonora de Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails e vencedor do Oscar por A Rede Social), que contou com uma colaboração de David Bowie.

 
Em 1999, nova surpresa com o trabalho mais terno e atípico – no caso, leia-se convencional – de sua carreira: História Real (The Straight Story).

Lynch entre suas duas musas de Cidade dos Sonhos: Laura Harring e Naomi Watts

O filme seguinte, Cidade dos Sonhos (Mulholand Dr., 2001), foi criado como um episódio-teste para a rede televisiva ABC. Contudo, a emissora não aprovou o piloto de pouco mais de duas horas criado por Lynch, suspendendo a produção da série. Executivos da produtora francesa Studio Canal + tiveram acesso ao material, adoraram o que viram e decidiram comprar seus direitos autorais da ABC. Lynch pôde então dirigir mais cenas adicionais e reeditar tudo como um longa. Resultado: um inesperado sucesso de público e crítica que valeu a Lynch mais uma indicação ao Oscar e o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. Inspirado pelo trabalho, considerado um dos melhores filmes dos anos 2000, Lynch e seu sócio Arnaud Frisch criaram, no final de 2011, uma nova casa noturna na Rua Montmartre, em Paris: o Club Silencio, complexo que inclui ainda sala de shows, restaurante, cinema e biblioteca.

Sala de shows inspirada no Club Silencio de "Cidade dos Sonhos". A grande diferença é que na sala real há sim música. A entrada no Club Silencio para não-associados se dá apenas após a meia-noite; sócios podem frequentar o espaço mais cedo e pagam uma anuidade que varia entre 780 e 1500 euros (premium)

Sala de shows inspirada no Club Silencio de “Cidade dos Sonhos”. A grande diferença é que na sala real há sim música. Não-associados entram apenas após a meia-noite; sócios podem frequentar a casa noturna mais cedo e pagam uma anuidade que varia entre 780 e 1500 euros (premium)

Imagem de um dos banheiros do Club Silencio. David Lynch criou o conceito do espaço e o design do mobiliário do interior do clube, que conta com uma série de salas íntimas

Imagem de um dos banheiros do Club Silencio. David Lynch criou o conceito do espaço e o design do mobiliário do interior do clube, que conta com uma série de salas íntimas

Em 2006, lançaria ainda Império dos Sonhos (Inland Empire), seu filme mais radical e experimental, sem qualquer compromisso com a lógica e a narrativa linear.

Laura Dern na descida ao inferno em forma de pesadelo abstrato de “Império dos Sonhos”

Divulgação alternativa: Para promover o filme, Lynch acampou numa rua de Los Angeles pedindo aos membros da Academia para lembrarem da atriz Laura Dern nas indicações ao Oscar

Lynch não é apenas diretor de cinema, mas um inquieto artista multimídia com trabalhos nas artes plásticas, fotografia, escultura, desenho, música e até mesmo nos quadrinhos (O Cão Mais Raivoso do Mundo). Produtor de música eletrônica, lançou em 2001 o álbum Crazy Clown Time, em que dá continuidade às suas experimentações sonoras no cinema.

 
Além disso, assina ainda a marca de café David Lynch Signature Cup Organic Coffee, composta por grãos orgânicos. E, em 2008, esteve no Brasil para divulgar o livro Em Águas Profundas – Criatividade e Meditação, em que expõe suas ideias sobre a meditação transcendental e o processo criativo. No ano passado, dirigiu um documentário, ainda inédito, sobre o tema: Meditation, Creativity, Peace.

David Lynch no Rio de Janeiro em agosto de 2008 para divulgação de seu livro “Em Águas Profundas”

Considerado um dos mais originais diretores da atualidade, Lynch é um dos poucos a desafiar (ou mesmo subverter) as convenções da indústria cinematográfica, mantendo-se sempre fiel a seu estilo e experiências. Para ele, ao representar a vida, os filmes devem ser complicados, e, em alguns casos, inexplicáveis. Por isso, o cineasta nunca irá explicar o enredo de suas produções; cabe ao próprio espectador estabelecer sentido e significação para aquilo que vê.

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Seus filmes fogem do realismo e são uma representação do que é a vida: uma série confusa e irracional de eventos aleatórios que fazem pouco sentido. O espectador interpreta as imagens inebriantes desse verdadeiro pintor abstrato do cinema e estabelece seu sentido pessoal.

Aqueles que não puderem dar um pulo em Paris para conferir a nova empreitada sensorial de Lynch podem ver (ou rever) o Club Silencio original em Cidade dos Sonhos. Confira na 2001 Vídeo essa e outras produções desse artista inovador.

DAVID LYNCH EM DVD NA 2001 VÍDEO:

Eraserhead
(Idem, EUA, 1977, P&B, 89′)
Com: Jack Nance, Charlotte Stewart, Jeanne Bates
Henry Spencer tenta sobreviver à indústria de vírus, à sua raivosa namorada e aos gritos de seu filho, um bebê mutante.

O Homem Elefante
(The Elephant Man, EUA/ING, 1980, P&B, 124′)
Com: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud
Uma assustadora aberração de circo, John Merrick é constantemente humilhado por seu mestre Bytes. Mas Frederick Treeves, um famoso cirurgião, o leva para o hospital em que trabalha. Fora daquele ambiente hostil, o médico vai descobrir que, a despeito de sua aparência incomum, Merrick é um ser humano sensível, inteligente e gentil.

Duna
(Dune, EUA, 1984, Cor, 176′)
Com: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Max Von Sydow, Sting
Em um futuro distante no meio de um império intergaláctico feudal em expansão, surge um messias-guerreiro predestinado a mudar a vida de todos.

Veludo Azul
(Blue Velvet, EUA, 1986, Cor, 121′)
Com: Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern
O inocente Jeffrey Beaumont percebe que sua perfeita cidade natal não é tão normal assim, quando descobre uma orelha humana em terreno baldio. Sua investigação o leva a uma perturbada cantora de boate e um sádico viciado.

Coração Selvagem
(Wild at Heart, EUA, 1990, Cor, 128′)
Com: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd
David Lynch homenageia à sua maneira o clássico O Mágico de Oz por meio da bizarra jornada de Elvis e Marilyn, que deixam sua cidade para fugir das garras da diabólica mãe dela.

Twin Peaks – 1ª Temporada
(Twin Peaks – The First Season, EUA, 1990, Cor, 429′)
Com: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn
Encarregado de investigar o brutal assassinato de Laura Palmer, o agente federal Dale Cooper descobre que a pequena cidade está repleta de terríveis segredos.

Twin Peaks – 2ª Temporada
(Twin Peaks – The First Season, EUA, 1991, Cor, 1.080′)
Com: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn
Segunda e última temporada que irá solucionar o mistério “Quem matou Laura Palmer?”.

História Real
(The Straight Story, EUA/FRA, 1999, Cor, 111′)
Com: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz
O viúvo Alvin Straight vive numa comunidade rural no estado de Iowa com sua filha Rose. Ao receber a notícia de que Lyle, seu irmão mais velho, sofreu um derrame, decide visitá-lo antes que seja tarde demais.

Cidade dos Sonhos
(Mulholland Drive, EUA, 2001, Cor, 140′)
Com: Justin Theroux, Naomi Watts, Laura Elena Harring, Ann Miller
Em torno da indústria do cinema em Los Angeles, personagens vivem suas fantasias, desejos e esperanças frustradas – como a ingênua Betty, que chega do Canadá para se tornar atriz. Ela cruza com Rita, que acaba de sofrer um acidente e sequer se lembra do próprio nome. Betty tenta ajudá-la a descobrir quem é.

Império dos Sonhos
(Inland Empire, EUA, 2006, Cor, 180′)
Com: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux
Nick Grace é uma atriz casada que é convidada para fazer um filme dirigido por Kingsley Stewart. Será a refilmagem de uma produção polonesa cujos protagonistas morreram durante as gravações. Aos poucos, ela vai se envolvendo com o ator principal do filme e inicia-se então trama em que a realidade e a ficção se misturam.

Cada um com seu Cinema
(Chacun Son Cinema, FRA, 2007, Cor, 119′)
Curta-metragem Absurda

DICAS PARA O FIM DE SEMANA

Confira a seguir as sugestões da equipe 2001 Vídeo:

Viridiana
(Idem, Espanha / México, 1961, P&B, 110′)
Direção: Luis Buñuel
Elenco: Silvia Pinal, Fernando Rey, Francisco Rabal

001

Às vésperas de ser ordenada freira, Viridiana passa uns dias na mansão do seu pervertido tio, que, obcecado com sua beleza, tenta seduzi-la de todas as maneiras. Com a morte repentina do tio, desiste da vida religiosa, indo morar no casarão do falecido. Movida pelo espírito de caridade cristã, ela abriga e alimenta todos os mendigos da região. Porém, os necessitados não se comportam do jeito que ela esperava… Esse é o enredo dessa obra-prima do mestre Luis Buñuel (A Bela da Tarde), trazendo uma das cenas mais famosas da história do cinema: a Santa Ceia dos mendigos, uma sátira genial à pintura de Leonardo Da Vinci.

Twin Peaks – 1ª Temporada
(Twin Peaks: The First Season, EUA, 1990, Cor, 429′)
Criação: David Lynch, Mark Frost
Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn

003

Twin Peaks estreou nos EUA pela rede ABC, apresentada em duas temporadas de 1990 a 1991. Criada e produzida por David Lynch (de Veludo Azul) e Mark Frost, a série foi sucesso de crítica e público, e é hoje um dos grandes cults da televisão mundial.

O tom mórbido da série, ao som da marcante trilha sonora (confira no vídeo abaixo) de Angelo Badalamenti (Veludo AzulCidade dos Sonhos), reúne elementos de mistério, drama e humor negro, e influenciou produções televisivas (Arquivo X é um bom exemplo) e cinematográficas ao longo dos anos de 1990.

Esta é uma boa oportunidade, para aqueles que perderam a série quando apresentada na TV, de vê-la sem interrupção na língua original com legendas. O box pode ser alugado nas lojas da 2001 Vídeo e tem quatro discos com todos os episódios da primeira temporada, incluindo o piloto, que não saiu na coleção americana.

Extras: Entrevista de Mark Frost à revista Wrapped in Plastic * Aprendendo a falar na sala vermelha * Uma introdução de David Lynch * 17 pedaços de torta: filmagens na lanchonete Mar T (ou RR) * Conversas com elenco

Longe do Paraíso*
Direção: Todd Haynes
Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert

002

Todd Haynes (de Velvet Goldmine) homenageia o cinema de Douglas Sirk, diretor de clássicos como Tudo Que o Céu Permite, com Rock Hudson e Jane Wyman, e Imitação da Vida. Fã confesso da obra do mestre americano, Haynes realizou uma cuidadosa reconstituição do estilo do cineasta. Começando pela fotografia em technicolor, o trabalho de iluminação e uso das cores, os cenários, a trilha sonora de Elmer Bernstein; cada detalhe, nada é gratuito.

Depois de trabalhar com Haynes no drama independente A Salvo (ainda inédito em DVD no Brasil), a atriz Julianne Moore (As Horas) interpreta o protótipo da esposa perfeita dos anos 50 em Longe do Paraíso. Só que, dividida entre seu casamento, filhos e eventos sociais, ela irá descobrir um segredo sobre seu marido que colocará em xeque todas suas certezas.

* Prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza. Indicado ao Oscar de melhor atriz, roteiro original, trilha sonora e fotografia. Vencedor no Independent Spirit Award de melhor filme, direção, atriz, ator coadjuvante (Dennis Quaid) e fotografia

Encontros e Desencontros*
(Lost in Translation, EUA, 2003, Cor, 101′)
Universal – Drama – 14 anos
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi

004

Bob Harris e Charlotte são dois americanos em Tóquio. Bob é um astro que está na cidade para filmar um comercial de uísque. E a bela Charlotte acompanha o marido fotógrafo, viciado em trabalho. Eles não se conhecem, mas a solidão e a estadia numa cidade desconhecida vão aproximá-los.

A ideia original para a criação dessa história surgiu das recorrentes viagens de Sofia Coppola (filha de Francis Ford Coppola) para o Japão desde seus vinte anos. Autora do roteiro e responsável pela produção de Encontros e Desencontros, ao lado de Ross Katz (Entre Quatro Paredes), ela confirmou o talento apontado em seu primeiro filme, As Virgens Suicidas (comercializado com exclusividade pela 2001 Vídeo no ano passado).

Sofia desenvolveu o roteiro tendo em mente Bill Murray para o papel principal. E o produtor Ross Katz afirmou em entrevista que ela engavetaria o projeto se o ator não aceitasse o trabalho. O elenco contou ainda com dois jovens talentos: Scarlett Johansson (ainda amadurecendo como atriz) e Giovanni Ribisi (Paraíso), que foi o narrador de As Virgens Suicidas.

005

Na equipe técnica, destaca-se a direção de fotografia de Lance Acord, que trabalhou em três filmes dirigidos pelo ex-marido da cineasta, Spike JonzeAdaptação, Quero Ser John Malkovich e Onde Vivem os Monstros. E na trilha, canções escolhidas a dedo pela diretora, misturando baladas pop e música eletrônica.

Sete anos depois, Sofia retomaria alguns dos temas de Encontros e Desencontros – como a fama e a solidão – no premiado Um Lugar Qualquer, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Extras do DVD: Lost na locação * Mathew’s best hit TV * Videoclipe de City Girl, de Kevin Shields * Cenas excluídas * Uma conversa com Bill Murray e Sofia Coppola

* Oscar de melhor roteiro original para Sofia Coppola. Vencedor do Globo de Ouro de melhor ator (Bill Murray), roteiro e filme (comédia ou musical)

Albergue Espanhol
(L’Auberge Espagnole, FRA / ESP, 2002, 124’)
Direção: Cedric Klapisch
Elenco: Romain Duris, Cécile De France, Judith Godrëche, Audrey Tautou, Kelly Reilly

006

Em busca de um rumo para sua vida, o jovem francês Xavier (Romain Duris, no papel que o lançou ao estrelato) viaja para a Espanha em intercâmbio estudantil. Esse é o fio condutor de Albergue Espanhol, que conta também com outra estrela francesa então em início de carreira: Audrey Tautou, de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), como a namorada do protagonista.

No filme, o cineasta Cedric Klapisch (Paris) reflete sobre a identidade europeia como um todo, em contraposição aos estereótipos que os europeus têm uns dos outros, através de detalhes, que são pulverizados em todo o filme, como a recusa de uma personagem francesa em aprender espanhol (ela traça, em determinado momento, um paralelo entre a Espanha e o terceiro mundo), ou quando um inglês chama um colega alemão de nazista.

Não deixe de conferir também a continuação, Bonecas Russas, de 2005, mostrando o mesmo grupo de amigos cinco anos depois.

Dogville
(Idem, DIN, 2003, Cor, 180′)
Direção: Lars von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Paul Bettany, Philip Baker Hall, James Caan, Stellan Skarsgård, Jeremy Davies, Chloë Sevigny, Patricia Clarkson, Ben Gazzara, Lauren Bacall, Harriet Andersson, John Hurt (narração)

007

Para a criação da história de Dogville, Lars Von Trier (Melancolia) inspirou-se no tema de vingança da canção Pirate Jenny, de Bertold Brecht e Kurt Weill, da Ópera dos Três Vinténs. Para o cenário, em particular as casas, delimitadas apenas por uma marcação no chão, o diretor dinamarquês tomou em parte o teatro de Brecht. O cineasta revelou em entrevista que essa decisão foi importante para ater o público, sem nenhuma distração, à história. Outra escolha, baseada em Pirate Jenny, foi situar o enredo em uma região isolada, e o local ideal para a criação da fictícia Dogville foi a região das montanhas rochosas.

Dividido em um prólogo e oito atos, o filme é uma crítica mordaz à sociedade norte-americana, tema que prossegue em Manderlay (2005), segunda parte de trilogia idealizada e ainda não concluída pelo celebrado e polêmico diretor de Melancolia.