Festival de Gramado

“DUNKIRK” E “COMO NOSSOS PAIS”, DOIS DESTAQUES DE 2017

PRESENTE EM INÚMERAS LISTAS DE MELHORES FILMES DO ÚLTIMO ANO, O ÉPICO DE GUERRA DE CHRISTOPHER NOLAN CONCORRE A 8 PRÊMIOS BAFTA E É UM DOS FAVORITOS AO OSCAR 2018. “DUNKIRK” ACABA DE SAIR EM DVD, BLU-RAY E BD EM EDIÇÃO ESPECIAL STEELBOOK REPLETO DE EXTRAS.

JÁ “COMO NOSSOS PAIS“, TAMBÉM ACLAMADO PELA CRÍTICA, FOI O GRANDE VENCEDOR DO FESTIVAL DE GRAMADO.

Aclamado por crítica e público e com mais de US$ 500 milhões arrecadados ao redor do mundo, ”Dunkirk” é mais um sucesso na carreira do diretor e roteirista Christopher Nolan (“A Oridem”, “Interestelar“).

Um dos favoritos ao Oscar 2018, principalmente nas categorias técnicas, o longa de guerra concorreu ao Globo de Ouro nas categorias de melhor filme (drama), diretor e trilha sonora, e recebeu 8 nomeações ao Bafta. E Christopher Nolan acaba de ser indicado ao Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos (Directors Guild of America – DGA).

Dunkirk” recria a Operação Dínamo, que consistiu na evacuação de cerca de 340 mil soldados ingleses e aliados encurralados por tropas nazistas na cidade costeira de Dunquerque, na França, em 1940. Com ação incessante e poucos diálogos, Nolan criou um filme sensorial sobre a experiência – e o horror – dos soldados encurralados na praia, à mercê dos ataques aéreos dos alemães.

Como em outros trabalhos do diretor (“Amnésia”, “A Origem”), o tempo é fragmentado na narrativa, alternando ações que transcorrem em terra ao longo de uma semana; com os soldados aguardando por seu resgate na praia; no mar, ao longo de um dia, pelo ponto de vista de uma embarcação civil; e no ar, ao longo de uma hora, na qual os aviões Spitfires da RAF (Força Áerea Real) – um deles pilotado por Tom Hardy – enfrentam os inimigos.

Esses três momentos vão se entrelaçando até convergir no final, com a ação simultânea no ar, no mar e em terra, ao som da eletrizante trilha de Hans Zimmer. Com Kenneth Branagh, Tom Hardy, Mark Rylance e o ex-One Direction Harry Styles no elenco, o filme não celebra os vencedores de uma guerra, mas a luta de seus combatentes para sobreviver.

EXTRAS DAS EDIÇÕES EM BLU-RAY: 

Junte-se ao diretor Christopher Nolan e a seu time na sua jornada épica para recriar o milagre de Dunkirk. Equipados com câmeras de grande formato, efeitos inovadores, frotas aéreas e navais históricas e grupos de atores, os produtores precisaram superar desafios imensos para criar uma precisa, autêntica e emocionante experiência cinematográfica.

E CONHEÇA TAMBÉM O CLÁSSICO:
Dunkirk (O Drama de Dunquerque, 1958) 

Novo trabalho de Laís Bodanzky, diretora de “Bicho de Sete Cabeças”, que reflete sobre os anseios e desafios da mulher contemporânea. Selecionado para a Mostra Panorama Especial no 67ª Festival de Berlim, foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2017, com 6 Kikitos: melhor filme, direção, atriz (Maria Ribeiro), ator (Paulo Vilhena), atriz coadjuvante (Clarisse Abujamra) e montagem.

Escrito por Bodanzky em parceria com Luiz Bolognesi, o longa esmiuça o cotidiano de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que se desdobra entre a rotina familiar, mãe de duas filhas, e o trabalho. Sua vida passa por uma reviravolta ao descobrir que é fruto de uma relação extraconjugal da mãe (papel de Clarisse Abujamra), enquanto enfrenta um casamento em crise com o antropólogo Dado (Paulo Vilhena).

“A revolução das mulheres (…) começa dentro de você, com suas pequenas atitudes em casa, na escola, com seus filhos, no seu trabalho. (…) E já começou!”.  Laís Bodanzky

Um filme cada vez mais atual – e obrigatório para refletirmos sobre o empoderamento feminino, a obsolescência da estrutura familiar patriarcal e a construção de uma sociedade melhor.

PREMIADA NO FESTIVAL DE GRAMADO, ANDRÉIA HORTA BRILHA EM “ELIS”

CONSIDERADA POR MUITOS A MAIOR CANTORA BRASILEIRA DE TODOS OS TEMPOS, ELIS REGINA (1945-1982) GANHA UMA CINEBIOGRAFIA E INTÉRPRETE À ALTURA – ANDRÉIA HORTA, PREMIADA COM O KIKITO DE MELHOR ATRIZ NO ÚLTIMO FESTIVAL DE GRAMADO.

Já disponível em DVD e Blu-ray na 2001

Escrito por Luiz Bolognesi, Vera Egito e pelo diretor Hugo Prata, “Elis” condensa a trajetória singular da artista que passou como um furacão pela música brasileira nos anos 1960 e 70, participando ativamente de alguns dos mais importantes momentos da cultura popular do período.

Com primorosa reconstituição de época, o filme faz um recorte da carreira e da vida pessoal da cantora gaúcha, desde sua chegada com o pai ao Rio de Janeiro, em 1º de abril de 1964, quando eclodiu o Golpe Militar. Aos 19 anos, ainda desconhecida, ela conheceu Luiz Carlos Miéle e o sedutor Ronaldo Bôscoli, que se tornaria seu primeiro marido. Outras passagens importantes foram a parceria amorosa e artística com o pianista César Camargo Mariano – que rendeu espetáculos históricos como “Falso Brilhante” -, a maternidade, sua relação conturbada com os militares, e seu trágico final.

Rodada no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Paris entre agosto e setembro de 2015, a cinebiografia marca a estreia de Prata na direção de longa-metragem. Além de Horta (da minissérie “Liberdade, Liberdade”), radiante no papel-título, o elenco conta com Lucio Mauro Filho (na pele de Miéle), Caco Ciocler (no papel de César Camargo Mariano), Gustavo Machado (Ronaldo Bôscoli), Julio Andrade (o dzi croquette Lennie Dale) e Zécarlos Machado (como Romeu, pai de Elis).

“Intensa, ela foi tragada pela própria labareda”, assim Horta descreve a icônica “Pimentinha” que, passados 35 anos desde sua morte, ainda deixa saudades.

Andréia Horta no filme e Elis Regina na capa do disco “Em Pleno Verão”, de 1970

EXTRAS: Making Of.

* Vencedor de três Kikitos no 44º Festival de Gramado: melhor filme pelo júri popular, atriz (Andréia Horta) e montagem.

* Prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de melhor atriz (Andréia Horta)

MAIS CINEBIOGRAFIAS MUSICAIS NA 2001:

A Fera do Rock
Get On Up – A História de James Brown
Jimi: Tudo a Meu Favor
Johnny e June
Lady Sings The Blues – A História de Billie Holiday
Somos tão Jovens
The Beach Boys – Uma História de Sucesso
Tim Maia

ENTREVISTA EXCLUSIVA: HILTON LACERDA (“TATUAGEM”)

ARTE EM BUSCA DA LIBERDADE

Um dos mais consagrados roteiristas do cinema brasileiro, Hilton Lacerda (“Baile Perfumado”, “Amarelo Manga”, “A Febre do Rato”) conversou com a 2001 sobre “Tatuagem“, longa premiado no Festival do Rio e em Gramado.

Por Eduardo Lucena

Qual foi a inspiração maior para a criação de “Tatuagem“?

“Tatuagem” nasceu da confluência de várias inspirações. Mas acredito que, conceitualmente, veio de uma preocupação muito pessoal em construir um filme no qual minhas angústias criativas e narrativas estivessem presentes. E coisa que muito me toca é a construção/reflexão sobre o tempo – e de que maneira nos damos com ele. Como construímos o futuro? E ainda existe chance para utopias?

Depois, numa conversa sobre o grupo teatral Vivencial Diversiones, com João Silvério Trevisan, veio a luz sobre o contexto, a parte física. Isso porque o Vivencial, uma casa de espetáculos que existiu no Recife entre os anos de 1974 e 1981, tinha em seu corpo os elementos possíveis para derramar minhas expectativas.

A partir dessa junção me veio os pontos cruciais para a construção do filme: o Chão de Estrelas, os personagens e a relação de Clécio e Fininha. A família em pauta. E, além disso, a época, em que se construía uma possibilidade de futuro.

Minha intenção não era o saudosismo da constatação, mas trazer o mais próximo possível, problemáticas contemporâneas que iniciaram as discussões lá atrás. O deslocamento no tempo foi mais para fortalecer a reflexão sobre nossos desejos, já que vivemos uma época onde essas transformações são possíveis, apesar das resistências.

Antes de assumir a direção do filme, você já havia realizado alguns curtas e “Cartola – Música Para os Olhos” (ao lado de Lírio Ferreira). A transição de roteirista estabelecido para diretor era algo que você já planejava?

Sempre tive uma ligação bastante próxima com o set de filmagem. E, narrativamente, mesmo sabendo que estamos lidando com matérias bastante diferentes, a execução de um filme sempre esteve em meu campo de realização. Não que fosse planejado, mas desejado. Executar, passar de uma linguagem para outra – da palavra à imagem – é um exercício bastante excitante.

“Tatuagem” trata, entre outros temas, da busca pela liberdade individual – algo que permeia quase toda a sua obra – no contexto da repressão no Brasil em Recife, 1978. Essa luta pela liberdade (artística, política, sexual) continua sufocada hoje?

Não creio que sufocada, mas acredito que estamos em momentos de decisões muito pontuais e emergentes. Existe, sim, uma reação mais convicta em relação a essas possibilidades de mudanças.

De certa maneira é pensar que a fatia mais conservadora e reacionária está lançando mão de estratégias muito perigosas para impor suas ideias. O discurso messiânico e preconceituoso está em evidência, e, por motivos que precisam ser melhor compreendidos, tem encontrado eco popular. O conflito parece inevitável. Mas lutamos para que a invenção vença a barbárie.

Os personagens principais são homossexuais e lutam por seus desejos e aspirações. Por isso, é inevitável que “Tatuagem”, mesmo com um rico contexto político, seja rotulado, em algum momento, como “filme gay” na mídia. De que maneira você, como diretor-autor, desmistifica esse reducionismo?

Acho engraçado o reducionismo, porque, de certa maneira encara gênero como mercado. É bem simplista, mas existe essa visão. Eu acho equivocada a nomenclatura. Passei a adolescência assistindo a vários diretores que eram homossexuais, e quando seus filmes mergulhavam no tema, a discussão estava em cima da humanidade daquela construção. Fassbinder, Pasolini, Visconti… Até Almodóvar, de certa maneira, não realizaram filmes gays – ou assim não foram tratados. De certa forma não só é reducionista e equivocado, como conservador. Devemos abrir portas e não fechá-las.

Há um clima de teatro burlesco, mas subversivo, pontuado por clássicos da música brasileira em versões despojadas cantadas pelos próprios atores. Houve uma preparação especial dos atores nesse sentido?

A preparação do elenco do filme foi muito apurada, muito conversada. Amanda Gabriel, que foi nossa preparadora de grupo, ia traduzindo para o elenco as entrelinhas do universo que estávamos construindo. E uma decisão que foi bastante acertada era fazer os atores se sentirem donos, proprietários da criação. Os espetáculos, por exemplo, foram montados pelo próprio elenco que, além de Amanda, tinha em Irandhir Santos um ator disponível para ajudar nessa formação. Eu queria um elenco afiado e que a sensação fosse de uma convivência maior – muito maior – que a que de fato teríamos.

Poderia citar algumas das suas referências para a construção da atmosfera do filme?

Bebemos em muitas fontes, bem direcionadas. O trabalho com os atores passava por uma lição de “visionamento” a partir de uma seleção preparada por mim e por Marcelo Caetano, diretor-assistente. Essas escolhas iam desde produções contemporâneas, como “O Sabor da Melancia” (de Tsai Ming-Liang), “Mal dos Trópicos” (Apichatpong Weerasethakul) e “Morrer Como Um Homem” (João Pedro Rodrigues), e passavam também pela memória do cinema brasileiro, principalmente “A Lira do Delírio” (Walter Lima Jr) e “Sem Essa, Aranha” (Rogério Sganzerla). E não podemos esquecer uma quantidade absurda de filmes super-8 realizados nas décadas de setenta e oitenta. Principalmente os filmes de Jomard Muniz de Britto, Edgard Navarro e José Agrippino de Paula.

Fale sobre a parceria com Cláudio Assis, diretor de três filmes (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato”) que você escreveu.

A nossa parceria iniciou no início da década de noventa, mas só veio a se confirmar durante a realização do curta “Texas Hotel” – escrito por mim e o primórdio de “Amarelo Manga”.

Acredito que essa parceria é fruto de dois universos que, de certa maneira, se completam. Cláudio me dá o combustível e eu organizo seu universo, suas loucuras. É uma troca bastante intensa. Neste momento estou finalizando, junto com Anna Carolina Francisco – que escreveu os primeiros tratamentos – a versão final do “Big Jato”, que Cláudio filma agora em maio.

É uma parceria que prezo bastante. E lembrar que é uma parceria com a equipe, com o entorno. Existe uma coisa meio cooperativa nos filmes de Cláudio que é bastante interessante.

O desejo libertário, de lutar contra uma ordem vigente – ou pela própria identidade –, também move o personagem Zizo (interpretado por Irandhir Santos) em “Febre do Rato”. “Cinema do corpo”, poesia e protesto representados pelo ator. Até onde vai a colaboração com Irandhir?      

Irandhir é o tipo de ator que você pode muito facilmente chamar de parceiro. As experiências que tive com ele (“Baixio das Bestas”, “Febre do Rato” e “Tatuagem”) o colocam num lugar muito especial. Algumas pessoas são imprescindíveis em alguns projetos. Era o caso de Irandhir para interpretar Clécio.

Delicadeza, gentileza, responsabilidade, bom humor, talento e técnica. Com ele, podemos contar com um ator por inteiro. Gosto também de ouvi-lo falando os textos que escrevo. Tem uma sensibilidade muito avexada. Amor e agradecimento.

Filmes roteirizados por você, como “Baile Perfumado” (1997), “Árido Movie” (2005), “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato”, contribuíram para generalizações em torno do chamado “cinema pernambucano”. Ele pode ser considerado um movimento ou é simplesmente um rótulo?

Talvez tenhamos que nos contentar com um meio termo. Isso porque eu sou bastante reticente ao rótulo de Cinema Pernambucano. Tem um certo ranço, que se não for entendido com alguma ironia pode ser bastante reducionista. Gosto mais de falar de filmes realizados em Pernambuco.

Mas deixando de lado minhas reticências, temos que reconhecer que existe uma produção local e que ela tem obtido repercussão constante na chamada retomada do nosso cinema. Mas há um conjunto de acontecimentos, de estratégia, de cooperação e de talento que culminaram no quadro atual. Uma das coisas mais interessantes de apontar é a maneira de produzir, provando que existem formas diferentes de realizar um filme, diferentes de qualquer cartilha e que conversam com a realidade local. A partir disso – acho que “Baile Perfumado” foi muito importante para abrir essa porta –, conseguimos engrenar uma produção muito interessante. Inclusive forçando e sensibilizando o Estado a criar um edital reconhecido hoje em todo o país como um dos mais eficientes. E isso sem estar atrelado a um pensamento meramente comercial, mercadológico. Tudo é conquista.

O cinema nacional vive uma dicotomia entre produções com estética de TV e produções autorais. Por que ainda é tão difícil para cineastas e roteiristas, com propostas fora do óbvio, alcançarem um público maior no mercado brasileiro? 

Essa questão tem se agravado. Tenta-se localizá-la na questão do gosto. Para mim é negócio. A lógica de exibição e distribuição no Brasil é perversa, comum objetivo muito claro: impor um consumo exacerbado dessa chamada indústria cultural. Estamos atrelados à lógica da dependência. Acredito que falta uma atitude política de fato, que trate a questão da visibilidade das produções em evidência. Filmes com mais ou menos apelo comercial fazem parte da história do cinema. A visibilidade não resolve gosto, mas coloca a discussão cultural e artística numa pauta mais viável. Aí sim podemos discutir questões de conteúdo.

Quais os seus planos para o futuro? Algum projeto em vista?

Depois de todo o tempo dedicado ao lançamento de “Tatuagem”, me voltei para os roteiros. Estão engatilhados mais dois para cinema: “Big Jato” (roteiro em parceria com Anna Carolina Francisco), que Cláudio Assis vai dirigir, e – dividindo a roteirização com Anna e Francisco Guarnieri – “Juliano Pavollini”, filme que marcará a estreia de Caio Blat na direção.

Estou roteirizando algumas séries. A que se encontra mais adiantada se intitula “Conto Que Vejo”, produção da REC Produtores (a mesma de “Tatuagem”) na qual também sou diretor geral.

Para o cinema estou gestando novas coisas, mas vou precisar de mais tempo para expor essa ideia. Fazer cinema é sempre uma mistura de ansiedade e paciência – quase loucura.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “O SOM AO REDOR”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE.

Quando o som da sessão do 40 Festival de Cinema de Gramado apresentou problemas que comprometiam não só a qualidade do filme, mas o entendimento do que diziam os personagens, a exibição foi interrompida. Faltava muito pouco para o final. Além da obviedade da situação, já que se tratava de um filme da mostra competitiva, foi dito que haveria reprise, já que aquele desfecho seria absolutamente essencial para toda a trama apresentada em O Som ao Redor.

Gramado

E foi provado que tinham absoluta razão. O filme já se delineava interessantíssimo na sua construção do panorama da vida da classe média urbana nordestina, inserida no contexto dos bairros descaracterizados, da especulação imobiliária, do medo paralisante, das relações familiares e servis, da família paternalista, do coronelismo. Naquela categoria de filme que costumo ressaltar como filmes de observação, que também estão na função de observar o comportamento da sociedade. E, especificamente neste caso, de observação do som da cidade de Recife – que é de fato um dos personagens do filme.

Foto janela prédio

Mas o desfecho, aquele que ficou faltando naquela noite, é realmente fundamental. E surpreendente. Para quem não tem tanta paciência, gosta de filmes mais rápidos, decisivos, minha dica é investir. Porque o desfecho compensa.

“O que me interessa muito nas cidades são os não-lugares, como o bairro de Setubal, onde se passa o filme”, comenta o diretor Kleber Mendonça. “Os não-lugares são fotogênicos, têm pessoas circulando e, onde se tem o elemento humano, há histórias.” E são essas histórias que são retratadas, não sem a intenção de retratar a mudança do perfil urbano da zona sul do Recife, não sem a preocupação de registrar o novo perfil da sociedade que por ali circula.

Gustavo Jahn

Para tanto, os personagens têm diálogos muito realistas, as cenas têm tempos reais e muita observação. João (Gustavo Jahn) é quem permeia por praticamente todas as situações. É neto de Francisco (Solha), que é dono do antigo engenho, portanto um senhor de terras, e hoje é dono do espaço urbano, na figura da demolição da cidade e da sua verticalização. Francisco é dono de tudo: do dinheiro, da rua, dos prédios e da ordem vigente. A elite.

Por outro lado, surge a classe média que desponta no panorama da família de Bia, com sua rotina, suas preocupações e pirações. Formando a triangulação, a classe média baixa de empregados surge na figura das empregadas domésticas, e dos vigias da rua, liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos, também em A Febre do Rato, Tropa de Elite 2, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), que aparecem oferecendo, ou melhor, impondo, seus serviços, moeda de troca quando se pensa no medo que escraviza a sociedade.

Veja a filmografia de Irandhir Santos na 2001

Veja a filmografia de Irandhir Santos na 2001

O Som Ao Redor é um convite à observação do que está em torno da vida nas cidades. Ter assistido duas vezes foi até uma boa pedida. O filme exige atenção e observação dos signos e códigos colocados ali pelo diretor. Kleber Mendonça fala do Recife, mas poderia ser qualquer grande cidade brasileira, inserida no seu contexto particular. Quem é morador de uma grande cidade sabe o quanto é difícil parar, olhar, sentir e perceber o que está acontecendo ao redor. No mínimo, não dá tempo. No máximo, perdemos essa capacidade de contemplar e emitir opinião. Aproveite para fazer o exercício. Sua cidade pode ser um grande laboratório.

Veja o trailer de “O Som ao Redor”

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

 

DICAS PARA O FIM DE SEMANA: A DIVERSIDADE DO CINEMA BRASILEIRO EM 5 LANÇAMENTOS PARA LOCAÇÃO

Confira a seguir as dicas da equipe 2001 Vídeo:

Colegas
(Idem, BRA, 2012, Cor, 103′)
Direção: Marcelo Galvão
Elenco: Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Lima Duarte, Rui Unas, Deto Montenegro, Leonardo Miggiorin

14Vencedor do prêmio de melhor longa-metragem brasileiro no Festival de Gramado em 2012 e eleito pelo público da Mostra internacional de Cinema de São Paulo como melhor filme nacional, Colegas é uma divertida aventura que trata de maneira poética coisas simples da vida, através dos olhos de Stallone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pook) e Márcio (Breno Viola), portadores da síndrome de Down.

“O nosso destino é a gente quem faz”, prenuncia Lima Duarte na narração em off que conta as peripécias dos três personagens esquecidos por suas respectivas famílias numa instituição para portadores de deficiência.

O trio cuida da videoteca do local e, inspirado pela força transformadora do cinema, projeta na própria vida o que vê na tela. E é justamente Thelma e Louise que desperta nos amigos o desejo de fugir e embarcar numa grande aventura. Eles roubam o carro do jardineiro Arlindo (Lima Duarte) e partem em busca de seus sonhos. Fã do ator de Rock e Rambo, Stallone sonha em ver o mar, Aninha quer apenas se casar e Márcio, voar.

 
Filmado em belas locações no interior de São Paulo, Colegas vira então um típico “filme de estrada”, alternando situações dramáticas com humor singelo, além de inúmeras referências e brincadeiras com arquétipos do cinema. Os amigos se envolvem em pequenos crimes que os fazem aparecer na TV como “a gangue dos palhaços”, em situações que remetem a tramas de assalto. Uma dupla de policiais, tão competente quanto os assaltantes de Esqueceram de Mim, sai em seu encalço.

Diretor, editor, produtor e roteirista do filme, Marcelo Galvão (Quarta B, Bellini e o Demônio) assina “em conjunto com a equipe”, fato raro nos créditos de um longa-metragem. Ele escreveu o roteiro há sete anos, inspirado por um tio com Síndrome de Down, daí a ideia de usar indivíduos com a síndrome para dar vida (e mais autenticidade) aos personagens. E assim a inclusão social tornou-se possível também por meio da arte, que se torna mais crível e real pelo olhar de Ariel, Rita e Márcio, os “colegas” do título.

Vai Que Dá Certo
(Idem, BRA, 2013, Cor, 86′)
Direção: Maurício Farias
Elenco: Danton Mello, Lúcio Mauro Filho, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Felipe Abib, Natália Lage, Bruno Mazzeo

13Uma das maiores bilheterias do ano, com mais de 2,7 milhões de espectadores, a comédia de erros reúne Lúcio Mauro Filho (A Grande Família), Bruno Mazzeo (Cilada.com), Danton Mello (As Brasileiras) e dois membros do popular canal de humor Porta dos Fundos – Fábio Porchat e Gregório Duvivier.

Duvivier, Mello, Porchat (também corroteirista) e Felipe Abib (da novela Avenida Brasil) surgem para uma partida de futebol na qual conhecem o playboy vivido por Mazzeo. Os amigos chegam à faixa dos trinta anos estagnados afetiva e emocionalmente,e compõem um retrato bem-humorado de um perfil cada vez mais comum: a do homem contemporâneo que ainda resiste a deixar velhos hábitos da adolescência e tem dificuldade para lidar com as responsabilidades da vida adulta, resiste a amadurecer.

Com humor besteirol, muitas piadas sexistas e linguagem direcionada ao público adolescente, o filme mostra a encruzilhada financeira dos amigos que, liderados pelo pianista fracassado de Mello, apelam para um malfadado assalto. Obviamente, o plano não sai como planejado, e os personagens entram numa espiral de contratempos, com um delito levando a outro ainda maior, levando às últimas consequências a velha “Lei de Murphy”.

País do Desejo
(Idem, BRA, 2012, Cor, 86′)
Direção: Paulo Caldas
Elenco: Fábio Assunção, Gabriel Braga Nunes, Maria Padilha, Nicolau Breyner, Germano Haiut

15

Reconhecido pela crítica por Baile Perfumado (ainda inédito em DVD no Brasil), um dos marcos da retomada do cinema nacional nos anos 1990, Paulo Caldas dirigiu na década seguinte o documentário O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000) e o drama social Deserto Feliz (2007). Cinco anos depois, o cineasta pernambucano está de volta com mais um trabalho intimista que investiga uma das mazelas brasileiras.

Em País do Desejo, dois personagens de trajetórias distintas se cruzam numa cidade pequena fictícia. Roberta (Maria Padilha, também coprodutora do longa) é uma pianista que luta contra uma doença crônica nos rins e precisa de um novo transplante. Durante um concerto, ela desmaia, é internada e conhece o padre José (Fábio Assunção), com quem desenvolve uma conexão especial.

 
O padre progressista se envolve profundamente com os problemas da comunidade, como o da menina de 12 anos que, após ser estuprada pelo tio, decide fazer um aborto. Ela, sua família e o médico responsável pela operação são excomungados pelas autoridades católicas da região. José discorda da decisão e permite a entrada deles na igreja, despertando a fúria do arcebispo local. Baseada em fato real ocorrido em Pernambuco em 2009, essa subtrama confere tom crítico à obra, que aborda a problemática da intolerância religiosa na sociedade e seu peso sobre os mais carentes.

Ao confrontar o próprio sistema em que está inserido, a Igreja, o protagonista entra em crise existencial, que o coloca cada vez mais próximo da pianista. Sob o pano de fundo da oposição entre tradição e modernidade, o filme desenvolve a ligação entre dois indivíduos à beira do abismo, mas que encontram no outro a esperança para continuar vivendo.

Boca
(Idem, BRA, 2012, Cor, 100′)
Direção: Flavio Frederico
Elenco: Daniel de Oliveira, Hermila Guedes, Jefferson Brasil, Milhem Cortaz, Paulo César Peréio, Maxwell Nascimento, Juliana Galdino, Leandra Leal

16Cinebiografia policial de uma figura central do submundo paulistano nos anos 1950 e 60: o criminoso Hiroito de Moraes Joanides (1936-1992). Interpretado por Daniel de Oliveira (Cazuza) em mais uma elaborada caracterização, esse personagem real dominou o tráfico de drogas e a prostituição na região da Boca do Lixo.

Distribuído no exterior para mais de 15 países, o filme do talentoso Flávio Frederico (Urbânia) reconstitui a sofisticação decadentista do submundo paulistano no período, com direção de arte, fotografia e figurinos de primeira.

Baseado em Boca do Lixo, autobiografia escrita por Hiroito dentro da cadeia no final dos anos 1960, a trama é narrada em flashbacks que vão e vem no tempo, mostrando Hiroito se drogando no bairro do Bom Retiro em 1952, seu primeiro programa com prostituta – uma de suas paixões – e depois sua ascensão como cafetão e traficante.

Retrato de um personagem contraditório, egocêntrico, sensível e ao mesmo tempo violento, mas nunca vilanizado na tela, Boca envereda pelo enredo de ascensão e queda de um gângster ao trazer à tona antagonistas como o delegado corrupto de Paulo César Pereio e um traficante rival. No final, como sempre, o crime não compensa.

Além de Paulo César Pereio, o ótimo elenco de "Boca" conta ainda com Hermila Guedes ("Era uma Vez Eu, Verônica"), Milhem Cortaz ("Tropa de Elite") e Leandra Leal ("Nome Próprio")

Além de Paulo César Pereio, o ótimo elenco de “Boca” conta ainda com Hermila Guedes (“Era uma Vez Eu, Verônica”), Milhem Cortaz (“Tropa de Elite”) e Leandra Leal (“Nome Próprio”)

A Alegria
(The Joy, BRA, 2010, Cor, 100′)
Direção: Felipe Bragança, Marina Meliande
Elenco: Clara Barbieri, César Cardadeiro, Flora Dias, Maria Gladys, Mariana Lima, Sandro Mattos

100Exibido na mostra paralela Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes de 2010, o longa é mais um trabalho autoral da dupla Felipe Bragança e Marina Meliande, diretores de A Fuga da Mulher Gorila (inédito em DVD no mercado brasileiro).

Com locações curiosas no Rio de Janeiro, o filme mergulha, em imagens oníricas que evocam o cinema do artista tailandês Apichatpong Weerasethakul (Mal dos Trópicos), na subjetividade de uma menina que observa o mundo de modo diferente.

Segundo Bragança, o longa retrata “um incômodo em relação ao imaginário da grande mídia em torno do lugar político do jovem contemporâneo, sempre colocado como impotente e inerte”.

VENCEDORES DO FESTIVAL DE GRAMADO

A organização do Festival de Gramado 2011 anunciou no último sábado (13/8) à noite os vencedores de sua 39ª edição. O documentário Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat,  foi o grande vencedor do evento, com cinco prêmios, incluindo melhor filme. A singela produção argentina Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Digital foi escolhida a melhor da competição latina.

Caio Blat e Lúcia Murat (no centro), ganhadores do Kikito de, respectivamente, melhor ator e filme por Uma Longa Viagem

Lista completa dos vencedores do Festival de Gramado 2011:

Júri Oficial
Melhor longa-metragem brasileiro: Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat
Prêmio Especial do Júri – longa brasileiro: As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro
Melhor diretor – longa brasileiro: Gustavo Pizzi, por Riscado
Melhor ator – longa brasileiro: Caio Blat, por Uma Longa Viagem
Melhor atriz – longa brasileiro: Karine Telles, por Riscado
Melhor roteiro – longa brasileiro: Gustavo Pizzi e Karine Telles, por Riscado
Melhor fotografia – longa brasileiro: Roberto Henkin, por O Carteiro
Melhor montagem – longa brasileiro: Leonardo Sette, por As Hiper Mulheres
Melhor longa-metragem estrangeiro: Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual
Prêmio Especial do Júri – longa estrangeiro: Las Malas Intenciones, de Rosario Garcia Montero
Melhor diretor – longa estrangeiro: Gustavo Taretto, por Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, e Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra
Melhor ator – longa estrangeiro: Gabino Rodríguez, por A Tiro de Piedra
Melhor atriz – longa estrangeiro: Margarida Rosa de Francisco, por García
Melhor roteiro – longa estrangeiro: Sebastián Hiriart, por A Tiro de Piedra
Melhor fotografia – longa estrangeiro: Sergei Saldivar Tanaka, por La Lección de Pintura
Melhor curta-metragem: Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John
Prêmio Especial do Júri – curta: Rivelino, de Marcos Fábio Katudjian
Melhor direção – curta: Natara Ney, Um Outro Ensaio
Melhor ator – curta: José Wilker, por A Melhor Idade
Melhor atriz – curta: Dira Paes, por Ribeirinhos do Asfalto
Melhor roteiro – curta: Rodrigo John, por Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo
Melhor fotografia – curta: Jacques Dequeker, por Polaroid Circus
Melhor montagem – curta: Mair Tavares e Tina Saphira, por Um Outro Ensaio

Júri Popular
Melhor longa-metragem brasileiro: Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat
Melhor longa-metragem estrangeiro: Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, de Gustavo Taretto
Melhor curta-metragem: Um Outro Ensaio, de Natara Ney

Prêmio da Crítica
Melhor longa-metragem brasileiro: Riscado, de Gustavo Pizzi
Melhor longa-metragem estrangeiro: Jean Gentil, de Laura Guzmán e Israel Cárdenas
Melhor curta-metragem: Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John

Troféu Cidade de Gramado
Melhor longa-metragem brasileiro (Júri Estudantes): Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat
Melhor longa-metragem estrangeiro (Júri Estudantes): La Lección de Pintura, de Pablo Perelman
Melhor curta-metragem (Júri Estudantes): A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Villela Nunes
Melhor longa-metragem Mostra Panorâmica (Júri Estudantes): Transeunte, de Eryk Rocha
Melhor trilha sonora – longa: Lucas Vasconcellos, Leticia Novaes e Iky Castilho, por Riscado
Melhor trilha sonora – curta: Jam da Silva e Otto, por Um Outro Ensaio
Melhor direção de arte – longa: Monica Costa e Julia Murat, por Uma Longa Viagem
Melhor direção de arte – curta: Rui Santa-Helena, por Ribeirinhos do Asfalto