Festival de Sundance

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “Fruitvale Station – A Última Parada”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Não tem como não lembrar da história do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado por engano no metrô de Londres em 2005. Rendeu até filme (Jean Charles). A história é muito parecida: um sujeito é injustamente morto no metrô, sem que ao menos tivesse direito a defesa. Assassinato a sangue frio. Por policiais. A cena é filmada por alguns dos usuários do metrô, o que não deixa dúvida sobre a culpa da polícia.

Jean Charles, disponível na 2001

Jean Charles, disponível na 2001

O brasileiro foi confundido com um terrorista, que estava sendo procurado em Londres. O americano não. Foi agredido no metrô na noite de ano novo, por ex-colegas de prisão. Sim, havia passado uma temporada preso anteriormente, mas estava decidido a mudar de vida, firmar-se num emprego e cuidar da família. Leva uma surra, a polícia de Oakland, Califórnia, é acionada, a turma encurralada na estação de metrô Fruitvale. Todos negros, sob a pistola de policiais brancos. Confusão, protestos  de que não tinham culpa de nada e um tiro. Atinge Oscar Grant III. 22 anos, pai de uma menina de quatro. Ele não resiste, morre no hospital.

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Embora de dimensões semelhantes, Fruitvale Station – A Última Parada é um filme superior, sem dúvida. Michael B. Jordan como Oscar e Octavia Spencer, na pela de sua mãe, conseguem transmitir a intensidade do drama que deve ter sido aquela madrugada – e os anos anteriores a ela, em que o rapaz tentava reconstruir a vida. O lance do preconceito versus a simplicidade de Oscar e sua genuína gentileza é cruel e se torna ainda mais dramático à medida que sabemos que isso é a pura verdade. Frutivale Station foi premiado no Sundance Festival e exibido na categoria de Cannes que eu gosto mais, Um Certo Olhar (Un Certain Regard). E tem mesmo, um olhar dramático, humano, sensível, amoroso e  realista, mostrando como a mente perversa e conturbada das pessoas funciona. E o tamanho do abismo social que existe.

Veja o trailer de  “Fruitvale Station – A Última Parada”:

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

DICAS PARA O FIM DE SEMANA: INÉDITOS NOS CINEMAS, AGORA NA 2001

Confira a seguir as dicas da equipe 2001 Vídeo:

Frank e o Robô
(Robot & Frank, EUA, 2012, Cor, 89′)
Sony – Drama – 12 anos
Direção: Jake Schreier
Elenco: Frank Langella, James Marsden, Liv Tyler, Peter Sarsgaard, Susan Sarandon, Jeremy Sisto

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Ambientado “em um futuro próximo”, numa bucólica cidade nos arredores de Nova York, o filme é um singelo conto em torno de Frank (Frank Langella, indicado ao Oscar por “Frost/Nixon“). Aos 70 anos, já aposentado, o personagem vive solitário numa casa afastada da cidade ou vizinhos, e começa a demonstrar sinais de perda da memória. Ele fala com Hunter (James Marsden), o filho mais velho, como se este ainda estivesse na universidade e esquece que seu restaurante favorito fechou há anos. Preocupado, Hunter presenteia o pai com um robô “coordenador de saúde”, uma espécie de mordomo que irá ajudar nas tarefas domésticas e lhe fazer companhia.

Avesso a novas tecnologias, Frank desdenha do presente e custa a aceitar a ajuda do robô (dublado por Peter Sarsgaard), mas com o tempo começa a aceitá-lo, já que a máquina revela-se mais versátil do que ele pensava. Não só versátil, mas confidente e até colaborativa, a partir do momento em que a trama revela que o pacato protagonista cumpriu, no passado, pena na prisão por assalto e evasão fiscal. O robô começa a aprender os truques e a ajudar o ladrão, que planeja a volta à ativa com um novo golpe.

Premiado nos EUA, e inédito no Brasil, o filme conta ainda com a presença sempre marcante de Susan Sarandon, no papel de uma amiga (e interesse amoroso) de Frank

Premiado nos EUA, e inédito no Brasil, o filme conta ainda com a presença sempre marcante de Susan Sarandon, no papel de uma amiga (e interesse amoroso) de Frank

Vencedor do prêmio Alfred P. Sloan no Festival de Sundance em 2012, “Frank e o Robô” toma caminhos inesperados com a subtrama de assalto, mas prende mesmo a atenção é com a espirituosa (e por vezes inusitada) interação entre o grande ator Frank Langella e seu comparsa cibernético.

 
Temple Grandin*
(Idem, EUA, 2010, Cor, 107′)
Warner – Drama – 10 anos
Direção: Mick Jackson
Elenco: Claire Danes, Julia Ormond, David Strathairn, Catherine O’Hara

02Alçada à fama com “Romeu + Julieta” (1996), no qual atuou ao lado de Leonardo DiCaprio, Claire Danes reinventou-se como atriz ao protagonizar, em 2010, o telefilme “Temple Grandin”. Consolidada na TV americana, logo depois ela brilharia também na aclamada série “Homeland“.

Parcialmente narrado em flashbacks, o premiado telefilme da HBO é baseado na história real da personagem-título, uma autista que revolucionou o tratamento do gado para abate na América, além de lutar contra o estigma de uma doença pouco compreendida na época.

Temple lutou a vida inteira para superar os desafios impostos pelo autismo e conseguiu tirar proveito de sua excepcional habilidade de pensar e ver o mundo em imagens. Sua trajetória começa nos anos 1960, com a entrada numa escola especial, onde conhece um professor (David Strathairn, de “Boa Noite e Boa Sorte”) que acredita em seu potencial. Sem jamais desistir, ela consegue ingressar na universidade e trabalhar na indústria do gado.

Claire Danes, com o Emmy recebido pelo telefilme, posa ao lado da verdadeira Temple Grandin. Antes de ser consagrada pelo papel  de Carrie na série "Homeland", a atriz reinventou a sua carreira ao estrelar o premiado telefilme da HBO, agora disponível para locação na 2001

Claire Danes (com o prêmio Emmy) posa ao lado da verdadeira Temple Grandin [confira no video abaixo um depoimento dela sobre o autismo]. Antes de se consagrar com o papel de Carrie na série “Homeland”, a atriz reinventou a sua carreira ao estrelar o premiado telefilme da HBO, agora disponível para locação na 2001

Vencedora dos principais prêmios da TV, como o Emmy e o Globo de Ouro de melhor atriz, Claire vive um grande arco dramático de Temple, da adolescência até o período pós-faculdade, sem cair na caricatura de uma autista. É uma atuação emocionante, e o principal motivo para o sucesso da cinebiografia, que acerta ainda ao materializar em imagens o fascinante processo mental de Temple.

* Emmy de melhor telefilme, direção, atriz (Claire Danes), atriz coadjuvante (Julia Ormond), ator coadjuvante (David Strathairn), trilha sonora e montagem

Música da Alma
(The Sapphires, AUS, 2012, Cor, 103′)
Paris – Drama – Verifique a classificação indicativa
Direção: Wayne Blair
Elenco: Chris O’Dowd, Deborah Mailman, Jessica Mauboy, Kylie Belling, Lynette Narkle

03Diferentemente do que o pôster possa sugerir, “Música da Alma” não é uma variação australiana de “Dreamgirls“, e sim um recorte da trajetória de um grupo de soul formado por quatro mulheres aborígenes, que lutam contra a discriminação racial nos anos 1960.

Tony Briggs transformou a história de sua mãe – integrante do quarteto The Sapphires (As Safiras) original – num espetáculo musical em 2004 e transpôs a peça para o cinema em 2012. O filme retrata o abismo social enfrentado pelos povos indígenas na Austrália e apresenta, nesse cenário, um trio de irmãs aborígenes, com incrível talento para o canto, que acaba descoberto por Dave Lovelace (Chris O’Dowd, de “Missão Madrinha de Casamento”).

Músico irlandês fracassado que trabalha como DJ, Dave torna-se empresário das jovens e as estimula a trocar o estilo country/música de raiz pelo soul. Com a adição de uma quarta integrante, surge o grupo The Sapphires, assim batizado em menção ao sucesso das Supremes nos EUA.

 
Intérpretes de clássicos da Motown, as cantoras irão enfrentar o desafio de entreter as tropas americanas durante a Guerra do Vietnã, em 1968. Expostas aos horrores do conflito, “as Safiras” começam a refletir sobre a sua identidade, ao servir de atração a outro tipo de colonizador.

O Sistema
(The East, EUA/ING, 2013, Cor, 116′)
Fox – Drama – 14 anos
Direção: Zal Batmanglij
Elenco: Brit Marling, Alexander Skarsgård, Ellen Page, Toby Kebbell, Patricia Clarkson, Julia Ormond

04Revelada na ficção-científica indie “A Outra Terra“, a atriz Brit Marling coescreveu – ao lado do diretor Zal Batmanglij – o explosivo drama “O Sistema”, exibido no Festival de Sundance em 2012. Produzidos pelos irmãos Ridley (de “O Conselheiro do Crime”, que acaba de estrear no Brasil) e Tony Scott (falecido em 2012), o longa acompanha a jornada de Sarah (Brit), funcionária de uma empresa de segurança privada. Ambiciosa, ela é escolhida para atuar como agente infiltrada num grupo de ativistas radicais denominado “O Leste” (The East, título original do filme).

“Somos o Leste e este é apenas o começo”, informa em voz off na abertura Izzy (Ellen Page, de “Juno”), uma das militantes do grupo “eco-terrorista” que planeja, nos próximos seis meses, contra-atacar três grandes empresas supostamente responsáveis por comercializar produtos nocivos à saúde ou à natureza. Sarah consegue entrar nessa espécie de coletivo anarquista, formado por jovens bem nascidos que optaram por viver idealisticamente, escondidos numa fazenda.

Inédito no Brasil, "O Sistema" traz no elenco Brit Marling ("A Negociação"), Alexander Skarsgård ("Melancolia"), Ellen Page ("A Origem) e Toby Kebbell ("Rocknrolla"). Dotado de relevância assustadora hoje, o roteiro do filme serve de alerta para os perigos do ativismo que desemboca na violência

Inédito no Brasil, e assustadoramente relevante hoje, “O Sistema” traz no elenco Brit Marling (“A Negociação”), Alexander Skarsgård (“Melancolia”), Ellen Page (“A Origem”) e Toby Kebbell (“Rocknrolla”)

Não demora para a agente disfarçada ganhar a confiança de seu alvo, e ao mesmo tempo simpatizar cada vez mais com seus ideais, além de se deixar envolver por seu líder – o misterioso e sedutor Benji. Interpretado por Alexander Skarsgaard (um dos vampiros de “True Blood“), o personagem, de aura messiânica, confere conotação de culto à organização “ativista”, que comete atos extremos como envenenar os funcionários de uma empresa farmacêutica com o mesmo remédio por ela fabricado e que custou a vida de pacientes inocentes.

Com seu grupo de anarquistas/terroristas dotados de consciência social, o filme entra em um terreno perigoso, ainda mais nos dias atuais com a eclosão de violentas manifestações populares ao redor do mundo. As motivações dos personagens de “O Sistema” partem de causas legítimas, mas seus atos incorrem na velha justiça com as próprias mãos.

 
Spring Breakers – Garotas Perigosas
(Spring Breakers, EUA, 2012, Cor, 94′)
Universal – Drama – 18 anos
Direção: Harmony Korine
Elenco: Vanessa Hudgens, Selena Gomez, Ashley Benson, Ashley Benson, Rachel Korine

05Corroteirista de “Kids” e diretor de “Gummo – Vidas sem Rumo”, Harmony Korine volta a causar polêmica com “Spring Breakers”, filme que atingiu inesperado sucesso de bilheteria nos EUA, apresentando um retrato nada lisonjeiro da juventude atual.

O longa acompanha a busca incessante por novas sensações e, acima de tudo, prazer, que preenche o vazio de quatro amigas que vão passar, no calor da Flórida, as tais férias de primavera do título. Sob o olhar crítico e ao mesmo tempo fetichista de Korine, as personagens interpretadas por Selena Gomez (“Ramona e Beezus”), Ashley Benson (“The OC”), Vanessa Hudgens (de “High School Musical”!) e Rachel Korine (esposa do diretor) entram numa espiral de sexo e drogas que culmina com a sua prisão.

A liberdade, mediante o pagamento de fiança, vem na figura de um extravagante traficante chamado Al (ou “Alien”), interpretado por James Franco, que compõe uma caricatura dos “gangsta rappers”. Fã de “Scarface”, o bandido simboliza a ostentação material do “sonho americano” levado às últimas consequências, com seus carros de luxo, roupas de marca e vocabulário limitado.

 
Imagens de farras sexuais adolescentes à la, por exemplo, “Jersey Shore” (da MTV) ou “Wild On” (do canal “E”) pontuam a narrativa como um contraponto irônico à realidade fantasiosa das protagonistas. “Você tem que fingir que é um jogo de videogame”, afirma, despreocupadamente, uma das jovens em determinado momento. À semelhança de um longo videoclipe lisérgico – pense em, por exemplo, “Smack My Bitch” da banda Prodigy -, o filme, goste ou não, recria o estado de letargia mental de jovens que confundem diversão com transgressão, ou até mesmo violência. A pergunta é: a troco de quê?

Butter – Deslizando na Trapaça
(Butter, EUA, 2011, Cor, 90′)
Europa – Comédia – Verifique a classificação indicativa
Direção: Jim Field Smith
Elenco: Jennifer Garner, Yara Shahidi, Ty Burrell, Hugh Jackman, Olivia Wilde, Alicia Silverstone

06Sem chamar a atenção no cinema desde o o escândalo que causou em “O Último Tango em Paris“, a manteiga ganha destaque na comédia de humor negro apropriadamente chamada “Butter”. Caricatura da classe média estadunidense, a produção explora as idiossincrasias de uma competição de “escultura de manteiga” que, por mais incrível que possa parecer para nós do sul do Equador, é uma prática comum no norte dos EUA.

Considerado o “Michelangelo da margarina”, por vencer o campeonato anual 15 vezes, Bob Pickler (Ty Burrell, de “Modern Family”) sai da disputa para dar lugar a sua ambiciosa esposa Laura (Jennifer Garner, “De Repente 30”).

Alpinista social, conservadora e neurótica, a madame fará de tudo para vencer, mas encontra uma adversária mais talentosa: uma menina afro-americana de apenas 11 anos. Em busca de reconhecimento social em seu mundinho de aparências, a personagem de Jennifer entra num crescendo de insanidade com a simples possibilidade de perder, lembrando outra obsessiva do cinema, a protagonista de “Eleição” (1999). A trama de enganos e intrigas se complica com a entrada de uma stripper (a bela Olivia Wilde, de “House“) e de um vendedor de carros, vivido pelo Wolverine (e galã) Hugh Jackman.

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “INDOMÁVEL SONHADORA”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Com prêmios nos festivais  de Sundance e Cannes, "Indomável Sonhadora" é a produção independente mais bem sucedida de 2012. Com orçamento inferior a 2 milhões de dólares, conseguiu entrar na disputa do Oscar 2013, concorrendo nas categorias de melhor filme, direção ((Benh Zeitlin), atriz (Quvenzhané Wallis, que tinha apenas 6 anos na época das filmagens) e roteiro adaptado

Com prêmios nos festivais de Sundance e Cannes, “Indomável Sonhadora” é a produção independente mais bem sucedida de 2012. Com orçamento inferior a 2 milhões de dólares, rendeu 10 vezes esse valor nos EUA e ainda conseguiu entrar na disputa do Oscar 2013, concorrendo nas categorias de melhor filme, direção ((Benh Zeitlin), atriz (Quvenzhané Wallis, que tinha apenas 6 anos na época das filmagens) e roteiro adaptado

Hushpuppy sonha acordada com seres imaginários, vive o universo infantil à sua maneira; é indomável na garra e na luta pela sobrevivência, da maneira como o seu pai ensinou. Na marra. É preciso sobreviver à enchente, encontrar no território ilhado da “banheira” tudo que precisam, não desistir, não ceder, apesar de tudo e todos serem contra. Hushpuppy é protagonizada por Quvenzhané Wallis, que na época das filmagens tinha apenas 6 anos. Novata e brilhante.

Escolhida entre 3.500 candidatas, Quvenzhané Wallis tornou-se, aos 9 anos de idade, a mais jovem indicada ao Oscar de melhor atriz. A menina já foi escalada para protagonizar a refilmagem do musical "Annie", que deve estrear em 2014

Escolhida entre 3.500 candidatas, Quvenzhané Wallis tornou-se, aos 9 anos de idade, a mais jovem indicada ao Oscar de melhor atriz. A menina já foi escalada para protagonizar a refilmagem do musical “Annie”, que deve estrear em 2014

A escolha do elenco é fundamental para que Indomável Sonhadora tenha essa áurea de ilusória felicidade e tenebrosa realidade. Hushpuppy vive em uma área constantemente alagada. Seu pai doente (o também novato Dwight Herry) resolve ensinar a menina a viver sem ele, mesmo que para isso tenha que ser rude, áspero, cruel. E essa sinergia entre a aspereza deste pai, do meio ambiente e da sociedade são capazes de levar os habitantes desse pântano à loucura, mas não ao desespero.

Indomável Sonhadora é um lindo filme. Humano e triste. Esta pequena comunidade ilhada fica no meio de uma barragem, que remete às localidades que foram inundadas com a passagem do furacão Katrina que varreu o estado da Louisiana em 2004. Alheio à condição miserável de seus habitantes, as autoridades ignoram sua condição. Alheios ao descaso das autoridades, os habitantes lutam com unhas e dentes por aquilo que consideram lar e ainda encontram alegria de viver. Nem que seja no imaginário. O diretor insere elementos fantásticos e um barco carregado de analogias, Hushpuppy (indicada ao Oscar de melhor atriz) narra e vive intensamente a história da sua vida, e assim a realidade, por vezes, se torna menos palpável. Só por vezes.

 

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

“SEM SEGURANÇA NENHUMA”: INÉDITO NOS CINEMAS E PREMIADO NO FESTIVAL DE SUNDANCE

Premiado no Festival de Sundance em 2012, "Sem Segurança Nenhuma" é uma agradável surpresa, mesclando elementos de comédia, drama, romance e até ficção-científica para narrar a divertida investigação de uma equipe jornalística para localizar o autor de um estranho classificado. No anúncio, um homem procura companhia para uma viagem no tempo. Quem é esse "maluco" e o que ele realmente pretende"? Essas são algumas das questões construídas no belo roteiro do filme, premiado nos EUA

Premiado no Festival de Sundance em 2012, “Sem Segurança Nenhuma” é uma agradável surpresa, mesclando elementos de comédia surreal, drama terno e até uma viagem no tempo típica de ficção-científica para narrar a divertida investigação de uma equipe jornalística para localizar o autor de um estranho classificado. No anúncio, um homem procura companhia para uma viagem no tempo…

Sem Segurança Nenhuma*
(Safety Not Guaranteed, EUA, 2012, Cor, 86′)
California – Drama – 14 anos
Direção: Colin Trevorrow
Elenco: Aubrey Plaza, Jake Johnson, Mark Duplass, Karan Soni

Sinopse: Três funcionários de uma revista têm a missão de encontrar o misterioso sujeito que colocou um classificado à procura de alguém para viajar no tempo com ele.

* Melhor roteiro de estreia no Independent Spirit Awards e prêmio Waldo Salt Screenwriting no Sundance Film Festival

Um classificado publicado numa revista norte-americana, nos anos 1990, serviu de inspiração para esta cativante e surpreendente produção independente que não passou nos cinemas brasileiros.

Em Sem Segurança Nenhuma, Jake Johnson (da série New Girl) interpreta Jeff, um cínico e malandro jornalista da Seattle Magazine que descobre um inusitado anúncio nos classificados: “Procura-se alguém para viajar no tempo comigo. Isto não é uma piada. Você será pago após nós voltarmos. Traga suas próprias armas. Segurança não é garantida. Eu fiz isso apenas uma vez antes”. Assim surge a ideia de escrever um perfil sobre o autor maluco dessa proposta inusitada.

02

A matéria é autorizada pela chefe de redação da revista e Jeff dispõe de dois estagiários, os melancolicamente desanimados Darius (Aubrey Plaza, uma revelação) e Arnau (Karan Soni), para ajudá-lo na tarefa .

Com o número da caixa postal do anúncio, não demora para a equipe de reportagem localizar, em uma pequena cidade de Washington, o seu alvo: Kenneth Calloway. Com trinta e poucos anos, Kenneth (Mark Duplass) é um homem excêntrico, paranóico e solitário que trabalha numa loja de materiais para construção. Após frustradas tentativas de aproximação por parte de Jeff, cabe a Darius tentar o contato. “E se ele for um assassino?”, pergunta. “Aí a história fica melhor ainda”, responde o repórter, mais preocupado em rever um antigo amor na cidade do que escrever o artigo.

Darius, Arnau e Jeff espionando seu objeto de reportagem: seria será que ele é mesmo um maluco?

Darius, Arnau e Jeff espionando seu objeto de reportagem: será que ele é mesmo um maluco?

Pessimista e por vezes sarcástica, Darius se formou na faculdade e nunca experimentou um grande amor ou algo que a tirasse do tédio de sua vida. A reportagem oferece o tipo de emoção e perigo que reacendem a jovem desencantada, que consegue fazer Kenneth acreditar nela como candidata à viagem no tempo. Os dois iniciam um lúdico jogo de construção de confiança, com a estagiária passando por um rigoroso treinamento físico e mental para ser finalmente aceita na missão.

A troca de experiências com seu objeto de pesquisa tira Darius da solidão, estabelecendo entre esses dois indivíduos deslocados uma profunda ligação. A garota até então reservada entra no que parecia ser uma brincadeira para depois torcer pela possibilidade de ali haver alguma verdade, por mais insana que a missão pareça.

Dupla em treinamento para viajar no tempo: cumplicidade entre dois estranhos unidos pelo sentimento de inadequação

Dupla em treinamento para viajar no tempo: cumplicidade entre dois estranhos unidos pelo sentimento de inadequação

Produzido pelos irmãos Jay e Mark Duplass (a mesma dupla de diretores de Cyrus e Jeff e as Armações do Destino), o filme é um bom exemplo de produção indie que parte de uma ideia aparentemente simples (e também absurda) para construir um divertido e ao mesmo tempo sensível microcosmos de personagens que questionam a noção do que é ser normal.

Personagens à procura de algo que não sabem bem o que é – nem o espectador, que é mantido à margem, também intrigado em saber o que o autor do classificado realmente pretende.

3 LANÇAMENTOS INÉDITOS NO CINEMA, DIRETO PARA A 2001

JASON SEGEL E EMILY BLUNT NUMA COMÉDIA ROMÂNTICA, ROBERT DE NIRO EM BOA FASE E UM PERTURBADOR DRAMA INDEPENDENTE SOBRE OS PERIGOS DE UMA SEITA DE FANÁTICOS, ESTÃO ENTRE AS PRODUÇÕES LANÇADAS NO BRASIL DIRETO EM DVD. 

Inédito nos cinemas brasileiros, apesar da presença de Jason Segel e Emily Blunt, "Cinco Anos de Noivado" é mais uma comédia com produção de Judd Apatow, cujo currículo inclui sucessos como "O Virgem de 40 Anos" e "Missão Madrinha de Casamento"

Inédito nos cinemas brasileiros, apesar da presença de Jason Segel e Emily Blunt, “Cinco Anos de Noivado” é mais uma comédia com produção de Judd Apatow, responsável por sucessos como “O Virgem de 40 Anos” e “Missão Madrinha de Casamento”

Cinco Anos de Noivado
(The Five-Year Engagement, EUA, 2012)
Universal – Comédia Romântica – 10 anos
Direção: Nicholas Stoller
Elenco: Jason Segel, Emily Blunt, Chris Pratt, David Paymer, Jacki Weaver

Sinopse: Depois de cinco anos de tentativas frustradas por confusões e imprevistos, Tom e Violet decidem finalmente se casar, mas o destino coloca a cerimônia e seus arranjos na espera de novo.

 
Depois de dividirem o roteiro do simpático Os Muppets, o diretor Nicholas Stoller e o ator Jason Segel juntam forças de novo em Cinco Anos de Noivado, alternando drama e humor para contar o longo percurso de um casal para finalmente subir ao altar e dizer: “Eu Aceito”.

Planejar um casamento não é tarefa fácil, muito menos decidir o melhor momento para realizá-lo em meio às atribulações e compromissos da vida moderna. Tom (Jason Segel, Os Muppets) e Violet (Emily Blunt, vista recentemente em Looper) chegam bem perto, mas sucessivas confusões e imprevistos familiares acabam impedindo o casal de dar um fim ao noivado do título. Quando finalmente decidem pôr um fim nessa “maldição”, Violet consegue o emprego que almeja, só que em outra cidade, os forçando a uma mudança drástica, principalmente para Tom, que sacrifica um bem-sucedido cargo de chef em São Francisco para algo incerto em Michigan. A partir daí, o que parecia ser uma típica comédia romântica sobre noivos que não conseguem se casar vira um retrato agridoce dos sacrifícios que acompanham o compromisso com aquele que se ama. E o subsequente amadurecimento de cada um no processo.

Escrito e dirigido por Paul Weitz ("Um grande Garoto"), o drama independente é baseado em livro de memórias sobre o reencontro entre um pai (Robert De Niro) e seu filho (Paul Dano), ambos aspirantes a escritor

Escrito e dirigido por Paul Weitz (“Um Grande Garoto”), o drama independente é baseado em livro de memórias sobre o reencontro entre pai (Robert De Niro) e filho (Paul Dano) aspirantes a escritor

A Família Flynn
(Being Flynn, EUA, 2012, Cor, 102′)
Universal – Drama – 16 anos
Direção: Paul Weitz
Elenco: Paul Dano, Robert De Niro, Julianne Moore, Olivia Thirlby

Sinopse:  Nick Flynn, um aspirante a escritor, começa a trabalhar em um abrigo para sem-tetos até que um dia encontra nele o próprio pai – Jonathan, que não via há 18 anos – à procura de um lugar para dormir. Em situação financeira difícil, os dois tentam se reconciliar, apesar de mágoas do passado.

 
O cinema independente americano é pródigo em relatos de famílias disfuncionais e como o peso de experiências traumáticas ecoam por toda uma vida. Inédito no Brasil, A Família Flynn se insere nesse filão ao adaptar o livro de memórias Another Bullshit Night in Suck City, de Nick Flynn. No filme, o autor é interpretado por Paul Dano (Os Acompanhantes) e relembra a infância marcada pela ausência do pai (Robert De Niro, humano e sutil em sua melhor atuação em anos) e o suicídio da mãe (Julianne Moore, discreta).

Com sua presença marcante, Robert De Niro e Julianne Moore dão brilho aos pais do melancólico personagem de Paul Dano

Com sua presença marcante, Robert De Niro e Julianne Moore dão brilho aos pais do melancólico personagem de Paul Dano

Nick recebe uma inesperada ligação de seu pai, Jonathan, após 18 anos sem contato. É o início de uma série de flashbacks que trazem à tona a atribulada trajetória de cada um, constituindo dois pontos de vista distintos – e interligados. Em comum, pai e filho trazem dentro de si a ambição de escrever e vencer na vida com uma obra significativa. Comovente em sua ingenuidade, Jonathan é um sonhador e, mesmo sem nunca ter sido publicado, acredita ser “o novo grande romancista americano”. Já Nick busca apenas um canal de expressão, encontrando sua voz na poesia.

Para Nick, encontrar o pai significa confrontar seu passado, e a aproximação entre os dois não é fácil. Depois do telefonema e de um encontro rápido, ele irá se depara por acaso com o pai abandonado no abrigo em que começa a trabalhar. Os dois em crise financeira, vulneráveis, mas sem ceder ou expressar qualquer sentimento plausível. O filho não sabe o que fazer com o pai que, por sua vez, segue num crescendo de demência e megalomania tragicômica. Em seu mundo de fantasia (ou autonegação), Jonathan acredita coletar material para um novo romance quando, na verdade, não tem para onde ir, a não ser dormir em um abrigo. Desprovida de sentimentalismo, a jornada dos dois é melancólica e por vezes deprimente, mas nunca sem esperança, já que Nick conseguiu tornar-se o escritor que seu pai apenas fingia ser.

Considerado pela crítica americana um dos melhores filmes de 2011, chega só agora no Brasil e em DVD o aclamado thriller psicológico premiado no Festival de Sundance. O drama independente é um mergulho teno e fascinante na psique de uma jovem envolvida com uma perigosa seita de fanáticos disfarçada de comunidade alternativa

Considerado pela crítica americana um dos melhores filmes de 2011, chega só agora no Brasil, direto em DVD, o aclamado thriller psicológico premiado no Festival de Sundance. O drama independente é um mergulho tenso e fascinante na psique de uma jovem envolvida com perigosa seita de fanáticos disfarçada de comunidade alternativa

Martha Marcy May Marlene
(Idem, EUA, 2011, Cor, 102′)
Fox – Drama – 16 anos
Direção: Sean Durkin
Elenco: Elizabeth Olsen, Sarah Paulson, John Hawkes, Hugh Dancy

Sinopse: Martha escapa de uma estranha comuna rural e tenta recomeçar a vida ao lado da irmã, que não via há anos. Mas sua adaptação não vai ser fácil, pois não consegue esquecer dos terríveis eventos que testemunhou na seita dominada por um carismático e perigoso líder.

 
Vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Sundance e exibido no Festival de Cannes, o filme é um perturbador thriller psicológico que transita entre a realidade, a fantasia e a memória de uma jovem que acaba de fugir de uma comunidade “alternativa”.

Depois de dois anos, o difícil reencontro: Martha (a elogiada Elizabeth Olsen, irmãs das gêmeas Olsen) e Lucy (Sarah Paulson, de "Virada no Jogo")

Depois de dois anos, o difícil reencontro: Martha (a elogiada Elizabeth Olsen, irmã das gêmeas Olsen) e sua irmã Lucy (Sarah Paulson, de “Virada no Jogo”)

À medida em que a fragilizada Martha tenta recomeçar a vida ao lado da irmã numa casa de campo, a narrativa vai embaralhando a cronologia dos fatos em uma série de flashbacks que revelam a passagem da jovem impressionável pela comuna. Desde seu encontro com o messiânico líder Patrick (John Hawkes, do recente As Sessões), que muda o nome dela para “Marcy May” e inicia um perigoso processo de manipulação psicológica. Ao “batizá-la”, o líder a priva de sua própria identidade, apagando traços de sua vida anterior, tornando-a sua criação.

Por isso o título Martha Marcy May Marlene, indicando as diferentes identidades da protagonista, incluindo “Marlene”, nome-código usado por todas as mulheres do grupo para atender ao telefone. A despersonalização continua com a prática de sexo grupal como forma de “cumplicidade” e o direito do líder poder estuprar sistematicamente todas as mulheres dessa comunidade neo-hippie que esconde uma terrível e violenta seita de fanáticos.

7

Traumatizada e em estado de crescente paranoia, Martha tem dificuldade para se adaptar à vida ao lado da irmã casada, após a verdadeira lavagem cerebral que a deixou alienada do mundo exterior. A personagem mantém-se um enigma na trama, que revela e ao mesmo tempo deixa em aberto acontecimentos de seu passado. Ela estaria com algum distúrbio psicológico, não discernindo mais suas memórias do que é real, ou haveria mesmo a possibilidade de membros da seita virem atrás dela?

Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por "Inverno da Alma" e, recentemente, ao Globo de Ouro por "As Sessões", John Hawkes compõe o manipulador e sedutor líder da comuna, Patrick. O personagem tem vários pontos de contato com outro maníaco e líder de seita, Charles Manson. Condenado por múltiplos assassinatos em 1969, ele permanece encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, na Califórnia

Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por “Inverno da Alma” e, recentemente, ao Globo de Ouro por “As Sessões”, John Hawkes compõe o manipulador e sedutor líder da coluna, Patrick. O personagem tem vários pontos de contato com outro maníaco e líder de seita, Charles Mason. Condenado por múltiplos assassinatos em 1969, Manson permanece encarcerado na Penitenciária Estadual de Corcoran, na Califórnia

De fato, o delírio coletivo do grupo vira uma espiral de violência, emanando o horror de um maníaco real, Charles Manson. Líder de uma comunidade alternativa em Spahn Ranch, perto de Los Angeles, nos anos 1960, ele e um grupo de seguidores assassinaram de maneira brutal e ritualística Sharon Tate (esposa de Roman Polanski) e quatro amigos do casal em 9 de agosto de 1969. Há várias similaridades com o fictício Patrick: ambos atraem jovens bem nascidos para uma propriedade rural, Manson também renomeava suas seguidoras, transava com elas e ainda encorajava o grupo a invadir residências de luxo.

A comuna de Martha Marcy May Marlene promete um mundo sem códigos morais e sociais, mas termina sendo um pesadelo. Aparentemente distante, confuso, por vezes fascinante e que termina abruptamente, sem explicações.

“A ARTE DA CONQUISTA”

O rito de passagem de um jovem inconformista é  desenvolvido com sensibilidade em "A Arte da Conquista", drama

O rito de passagem de um jovem inconformista é desenvolvido com sensibilidade em “A Arte da Conquista”, elogiado drama adolescente exibido no Sundance Festival

A Arte da Conquista
(The Art of Getting By, EUA, 2011, Cor, 83′)
Vinny – Drama – 12 anos
Direção: Gavin Wiesen
Elenco: Freddie Highmore, Emma Roberts, Michael Angarano, Rita Wilson

Sinopse: George Zinavoy é um jovem amargurado que acredita que o ser humano nasce e morre sozinho. Com este pensamento, é difícil para ele ir à escola ou fazer os deveres de casa, tarefas que despreza. Mergulhado em sua amargura, conhece a bela Sally e começa a sentir novas sensações.

 

O filme é estrelado por

Freddie Highmore e Emma Roberts: romance teen

Exibido no Sundance Festival de 2011, o filme é, diferentemente do que o título sugere, uma produção independente sobre o rito de passagem de um jovem inconformista (Freddie Highmore, o menino de A Fantástica Fábrica de Chocolate) tentando encontrar seu lugar no mundo. Desligado de tudo, ele tem talento para desenhar e, com a ajuda de uma nova colega na escola, começa a ver o lado bom das coisas.

Ao som de bandas indie e do cantor Leonard Cohen, o protagonista encontra no amor que nutre pela amiga a motivação para seguir em frente. Além do clichê romântico de amar alguém que só o quer (aparentemente) como melhor amigo.

A OUTRA TERRA

Aclamada nos EUA e na Inglaterra, A Outra Terra é uma intrigante ficção-científica, inédita nos cinemas brasileiros. Sua chegada em DVD à 2001 permite que um público maior finalmente conheça o filme

A Outra Terra
(Another Earth, EUA, 2011, Cor, 92′)
Fox – Ficção Científica – 12 anos
Direção: Mike Cahill
Elenco: Brit Marling, William Mapother

Sinopse: Rhoda Williams, uma estudante de astrofísica no MIT, bate acidentalmente seu carro em uma van, provocando a morte da família de um compositor. Nos anos em que fica presa, astrônomos descobrem um segundo planeta Terra, que poderia ser a chave para uma realidade paralela.

 

Foi no Sundance Festival, idealizado por Robert Redford, que A Outra Terra estreou no ano passado, chamando a atenção da crítica. Filmado com poucos recursos e escrito pelo diretor estreante Mike Cahill em parceria com a atriz Brit Marling, a ficção-científica existencialista relaciona, em uma esfera universal, a tragédia pessoal sofrida por uma jovem astrofísica. Responsável por um terrível acidente, ela é consumida pelo sentimento de culpa e pela existência de um novo planeta Terra.

A notícia de uma realidade paralela mexe com sua psique, suscitando uma série de questionamentos em torno da possibilidade de haver outro “eu”. Poderei encontrar um novo “eu”, melhorado? Assim como a Terra, poderei encontrar a mim mesmo? Pensamentos que levam aos temas do duplo e da personalidade idealizada no universo intrigante de Cahill e Marling.

A partir da introspecção da personagem central, interpretada por Brit Marling (também coroteirista), A Outra Terra propõe inúmeras indagações filosóficas a respeito do lugar do indivíduo no universo

Diferentemente de outros filmes de ficção científica, A Outra Terra não depende de recursos tecnológicos, sustos e extraterrestres; seu mistério provém da mente e do medo. O medo do desconhecido.

Com cenas visualmente elaboradas (e repletas de significado), A Outra Terra não parece uma produção independente com orçamento inicial de 100 mil dólares

Coescrito, dirigido, fotografado e montado por Mike Cahill, A Outra Terra teve orçamento inicial de US$ 100 mil, financiados por sua família. As filmagens foram realizadas na cidade natal do diretor, New Haven (Connecticut, EUA), e incluíram a casa de sua mãe. O esforço valeu a pena: o filme conquistou dois prêmios no Sundance Festival em 2011, e arrecadou mais de US$ 1 milhão nos EUA.

OPINIÃO: O HOMEM AO LADO

Premiado em diversos festivais internacionais, O Homem ao Lado é mais uma prova da qualidade e diversidade do cinema argentino. Disponível em DVD na 2001, o filme é um drama imprevisível com toques de humor negro e crítica social

Quando pensamos em cinema argentino, logo associamos filmes com Ricardo Darín. Porém, o filme O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado, 2009) foge desse estereótipo. A história se desenvolve através do conflito gerado entre dois vizinhos – Leonardo (Rafael Spregelburd) e Victor (Daniel Aráoz). O primeiro é um designer industrial de sucesso que vê, junto com a esposa, filha e empregada, sua privacidade invadida quando Victor  resolve abrir uma janela em frente a sua casa (por sinal, única obra projetada na América Latina pelo renomado arquiteto franco-suíço Le Corbusier).

O filme foi todo rodado na casa Curutchet, projetada pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier na cidade argentina de La Plata entre 1948 e 1949

Apesar do barulho, da situação conflituosa entre um vizinho que a todo custo quer um pouco de sol em sua casa – e o outro que acha tudo um absurdo –  e das discussões até engraçadas, a trama mostra a dificuldade que Leonardo tem em lidar com a filha e com a esposa, assim como a iniciativa de Victor em iniciar uma ‘amizade’ com o vizinho.

O ponto alto de O Homem ao Lado é esmiuçar as diferenças sociais entre um vizinho rico, egocêntrico e prepotente, que a princípio parece ser a vítima da situação, e o vizinho rude, mas de coração mole e engraçado. À distância, ele tenta de todas as formas animar a filha do vizinho com seu show, em que seus dedos vestem saias e botas estilo cowboy, dançando em um cenário com bananas, feito em uma caixa de papelão.

Premiados no Sundance Festival, os atores Rafael Spregelburd (Leonardo) e Daniel Aráoz (Victor) em cena: Duelo de interpretação – e classes sociais

O filme merece ser visto, pelo enredo e, sobretudo, pela bela atuação de Daniel Aráoz e Rafael Spregelburd, que dividiram o prêmio de melhor ator no Festival Sundance em 2010. O festival criado por Robert Reford ainda reconheceu o longa argentino nas categorias de melhor fotografia e direção (Mariano Cohn e Gastón Duprat).    

 

Comentário de
Daniele Fuica
Colaboradora da 2001 Jardins
Rua Estados Unidos, 1324, Jd. América – São Paulo – SP