homossexualidade

O CINEMA EM PROL DA DIVERSIDADE SEXUAL

COMEÇA HOJE, EM SÃO PAULO, A 22ª EDIÇÃO DO FESTIVAL MIX BRASIL, COM FILMES QUE ABORDAM, SOB DIFERENTES ÂNGULOS E POR MEIO DE LINGUAGENS INOVADORAS, A QUESTÃO DA DIVERSIDADE SEXUAL.

POR ISSO, SELECIONAMOS 13 FILMES QUE TRATAM DOS CONFLITOS E DILEMAS ENFRENTADOS PELA COMUNIDADE LGBT EM DIFERENTES CONTEXTOS.

Grande vencedor do Festival de Cannes em 2013, "A Vida de Adele" foi dirigido por Abdellatif Kechiche e narra a intensa história de amor entre duas jovens, interpretadas por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux

Grande vencedor do Festival de Cannes em 2013, “A Vida de Adele” foi dirigido por Abdellatif Kechiche e narra a intensa história de amor entre duas jovens, interpretadas por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux

Azul é a Cor Mais Quente
(La vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2, FRA/ESP/BEL, 2013, Cor, 179′)
Direção: Abdellatif Kechiche
Elenco: Lea Seydoux, Adele Exarchopoulos, Salim Kechiouche

Logo no início de Azul é a Cor Mais Quente, o professor de uma escola no norte da França reflete com seus alunos sobre o romance A Vida de Marianne, escrito no século 18 por Pierre de Marivaux. A obra retrata o rito de passagem de uma jovem que aprende a amar e ser amada, em meios às convenções – e aparências – da sociedade da época. O professor fala também do papel decisivo da predestinação no curso de uma relação amorosa.

Adèle (a revelação Adèle Exarchopoulos) acompanha atentamente a aula. Aos 15 anos, ela experimenta a incrível fase de descobertas da adolescência, assim como suas inseguranças. Estimulada pelas amigas, começa a sair com um colega do colégio, ainda sem saber o que esperar ou querer. O que a bela Adèle sabe é que sente um grande vazio. Algo lhe falta e infelizmente não é preenchido por seu primeiro namoradinho.

Capa da HQ (já publicada no Brasil) que originou o filme

Capa da HQ (já publicada no Brasil) que originou o filme

A resposta vem justamente na forma da predestinação. Certo dia, Adèle caminha na rua quando é cativada pela presença de uma estranha com visual andrógino e inconfundível cabelo tingido de azul. Seus olhares se cruzam numa fração de segundo, um momento aparentemente banal que não sai de sua cabeça. Define o seu desejo, mesmo sem se dar conta disso. Até que o destino cumpre seu papel e Adèle encontra por acaso Emma (Léa Seydoux, de Meia-Noite em Paris e Adeus, Minha Rainha), estudante de artes plásticas, independente e que já assumiu sua homossexualidade.

Emma abre o mundo então limitado de Adèle, ao mesmo tempo em que a expõe ao preconceito no colégio. Após ser vista com Emma, ela é agredida verbalmente pelas “amigas” que a rotulam pejorativamente. Rótulos que Adèle recusa, já que não sabe ainda qual é a sua opção sexual, nem se quer assumir uma. Livremente baseado na HQ homônima escrita por Julie Maroh, o filme não cai na estereotipagem do homossexual no cinema, e passa a enfocar o relacionamento das duas personagens centrais ao longo de vários anos, desde o encantamento inicial até as dificuldades inerentes a qualquer relacionamento.

Filha de pais de classe média baixa e sem a cultura elitizada de Emma, Adèle estabelece uma forte conexão sexual com a parceira, a deixa para Azul é a Cor Mais Quente não economizar na carga erótica, incluindo uma longa sequência de sexo explícito entre as amantes. Consideradas pornográficas, as cenas de sexo causaram furor e polêmica no último Festival de Cannes, de onde o filme saiu com a Palma de Ouro. Numa decisão inédita, o prêmio foi dividido entre o diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche (de O Segredo do Grão, Vênus Negra) e, por suas atuações corajosas, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Pela primeira vez na história do festival, duas atrizes levaram a Palma e, ao lado de Jane Campion (O Piano), são as únicas mulheres donas de tal honraria.

Laurence Anyways*
(Idem, CAN/FRA, 2012, Cor, 168′)
Direção: Xavier Dolan
Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monia Chokri

1

Exibido na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado, Laurence Anyways é a terceira incursão do franco-canadense Xavier Dolan na direção.

Nascido em Montreal (Québec, Canadá) e homossexual assumido, dirigiu seu primeiro filme, Eu Matei Minha Mãe (2009), aos 19 anos de idade, e o segundo, Amores Imaginários (2010), aos 20.

Em trabalhos extremamente pessoais, Dolan projeta sua sensibilidade e paixão pelas minorias sexuais e excluídos, reafirmando sua luta contra a intolerância. Em Laurence Anyways não é diferente. Logo no início, uma série de closes revela as reações de desconhecidos a uma misteriosa figura andando na rua. É o personagem-título, cuja trajetória é narrada em flashbacks que perfazem cerca de dez anos de sua vida.

Laurence Alia (Melvil Poupaud, substituindo Louis Garrel) completa 35 anos em 1989, tem um emprego estável como professor e uma namorada que o ama, Fred Belair (Suzanne Clément, de Eu Matei Minha Mãe). O equilíbrio do casal é quebrado quando ele revela seu desejo de tornar-se uma mulher. Fred o indaga sobre uma possível homossexualidade, que ele nega, afirmando apenas estar no corpo errado, e ter vivido uma mentira por tanto tempo. É o ponto de virada na vida do protagonista à procura de uma nova identidade, identidade intimamente ligada à definição de sua sexualidade.

Melvil Poupaud ("O Tempo que Resta") assumiu o papel de Laurence após desistência do galã francês Louis Garrel ("Bem Amadas"), e Suzanne Clément trabalhou antes com Xavier Dolan em "Eu Matei Minha Mãe". "Laurence Anyways" conta ainda com uma ótima participação da veterana Nathalie Baye ("Uma Doce Mentira"), no papel da mãe do protagonista. Ator principal em seus dois primeiros filmes, Dolan faz aqui apenas uma ponta no filme

Melvil Poupaud (“O Tempo que Resta”) assumiu o papel de Laurence após desistência do galã francês Louis Garrel (“Bem Amadas”), e Suzanne Clément trabalhou antes com Xavier Dolan em “Eu Matei Minha Mãe”. “Laurence Anyways” conta ainda com uma ótima participação da veterana Nathalie Baye (“Uma Doce Mentira”), no papel da mãe do protagonista. E, ator principal em seus dois primeiros filmes, Dolan faz aqui apenas uma ponta

Em um mundo cada vez mais violento e pródigo em agredir minorias, Dolan quer incutir o contrário, mostrando com naturalidade relações e papéis sexuais atípicos. Ambicioso e fiel à persona de seu diretor, Laurence Anyways prova que um grande amor transcende convenções, gêneros sexuais e, sobretudo, preconceitos.

* Prêmio de melhor atriz (Suzanne Clément) na mostra Un Certain Regard e vencedor da “Queer Palm” no Festival de Cannes. Eleito melhor longa canadense no Festival de Toronto

Kaboom
(Idem,  EUA/FRA, 2010, Cor, 86′)
Direção: Gregg Araki
Elenco: Thomas Dekker, Haley Bennett, Chris Zylka, Juno Temple

2Nascido em Los Angeles, Gregg Araki tornou-se um dos principais nomes da cena independente graças a filmes tematicamente ousados e carregados de homoerotismo como Geração Maldita (1995) e Mistérios da Carne (2004).

A confusão sexual, o desejo em ebulição e os distúrbios emocionais dos jovens retratados em sua perturbadora “trilogia adolescente do apocalipse” (formada por Totally F***ed Up, Geração Maldita e Nowhere) retornam em Kaboom (ou Ka-Boom, como descrito na capa do DVD).

Comédia teen com toques surreais de ficção-científica que lembram, por vezes, a atmosfera de Donnie Darko, o filme transcorre em um campus universitário no sul da Califórnia, onde o jovem Smith, dividido entre seu colega de quarto surfista e sua melhor amiga lésbica, experimenta os prazeres do sexo e uma série de inquietações. Sob influência de cookies alucinógenos, o estudante de cinema começa a sofrer delírios com assassinos usando máscaras de animais, uma seita de bruxas e até mesmo o fim do mundo.

No elenco, destaque para Juno Temple (à esquerda), jovem atriz inglesa que não tem medo de se expor em filmes transgressores - e que exploram a sexualidade - como "Killer Joe" e "Lovelace" (ainda inédito no Brasil). Ainda este ano, ela poderá ser vista em mais uma produção contra-indicada para estômagos mais sensíveis: a continuação de "Sin City".

No elenco, destaque para Juno Temple (à esquerda), jovem atriz inglesa que não tem medo de se expor em filmes transgressores – e que exploram a sexualidade – como “Killer Joe” e “Lovelace” (ainda inédito no Brasil). Ainda este ano, ela poderá ser vista em mais uma produção que promete carregar no sexo e na violência: a continuação de “Sin City”

As coisas se complicam a partir do momento em que o jovem – assim como o espectador – não consegue mais distinguir o que é real e o que é imaginado, pretexto para um caleidoscópio de personagens bizarros, imagens desconcertantes e cenas de sexo bem ao gosto do diretor.

Elvis e Madona*
(Idem, BRA, 2010, Cor, 105′)
Direção: Marcelo Laffitte
Elenco: Simone Spoladore, Igor Cotrim, Sérgio Bezerra

15Fotógrafa obrigada a trabalhar como entregadora de pizzas para pagar as contas, Elvis se apaixona por Madona, travesti que sonha produzir e estrelar um espetáculo de revista.

Marcelo Laffitte coescreveu, produziu, dirigiu e ainda distribuiu por conta própria este inusitado romance entre dois personagens à margem dos modelos impostos pela sociedade. Com uma subtrama policial como pano de fundo, Elvis e Madona humaniza seu casal de protagonistas, criando uma relação terna e inédita no cinema brasileiro.

* Melhor filme (Júri Popular) do 12º Festival de Cinema Brasileiro em Paris e prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio

Minhas Mães e Meu Pai
(The Kids Are All Right, EUA, 2010, Cor, 106′)
Direção: Lisa Cholodenko
Elenco: Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson

4

Indicado ao Oscar de melhor atriz (Annette Bening), ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e roteiro original em 2011, Minhas Mães e Meu Pai não ganhou nenhuma estatueta, mas merece ser descoberto (ou assistido pela segunda vez) em tempos de discussão em torno da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Com leveza e sem estereótipos, o filme aborda as dificuldades de um casal de lésbicas que tem de lidar com o surgimento do pai biológico de seus dois filhos adolescentes.

Roteirista (em parceria com Stuart Blumberg) e diretora do filme, Lisa Cholodenko imprime sua própria experiência de vida e sensibilidade ao projeto mais pessoal de sua carreira. Ausente da direção de longa desde Laurel Canyon, Cholodenko passou a trabalhar, esporadicamente, na TV americana, dirigindo episódios para A Sete PalmosThe L Word, séries que também trazem personagens homossexuais tendo de lidar com as consequências do desejo. Vivendo há anos com a música Wendy Melvoin , ela aproveitou esse hiato no cinema para tornar-se mãe através de inseminação artificial e doador desconhecido, em 2006.

Com vários traços autobiográficos, Minhas Mães e Meu Pai marca o retorno da cineasta ao cinema em trama semelhante à experiência vivida na vida pessoal: Nic (Annette) e Jules (Julianne Moore, esquecida pelos votantes do Oscar) criam seus dois filhos – Laser, com 15 anos, e Joni, 18 – em Los Angeles; cada uma das mães ficou grávida de um dos filhos depois de ser inseminada artificialmente com o sêmen do mesmo doador anônimo – Paul (Ruffalo). Após completar 18 anos, Joni decide contactar seu pai biológico, o que irá mudar a dinâmica de toda a família.

Ao apresentar um casal fora dos padrões moralistas vigentes, o filme reacendeu a discussão nos EUA em torno da legalização da união civil entre homossexuais, mas nada mais é do que o relato singelo de um casamento maduro tentando sobreviver à passagem do tempo e a elementos externos. Em entrevista à imprensa americana, Cholodenko explica suas escolhas: “Não quis fazer um filme de agenda social. Não queria que fosse sobre direitos gay. Queria apenas começar uma história a partir do ponto de que isso é normal e é o que é, e ir mais fundo numa história mais rica e universal”.

Patrik 1.5
(Patrik 1,5, SUE, 2008, Cor, 103′)
Direção: Ella Lemhagen
Elenco: Gustaf Skarsgård, Torkel Petersson, Tom Ljungman

Um casal homossexual consegue permissão para adotar Patrik, órfão sueco que acreditavam ter apenas um ano e meio. Porém, por um erro de digitação, os dois recebem um jovem homofóbico de 15 anos.

Questão polêmica bastante em voga na atualidade, a união civil entre pessoas do mesmo sexo suscita todo tipo de reação. A produção sueca Patrick 1.5 toma partido, discutindo preconceito com humanidade, sem apelar para clichês. Apesar de parecer uma comédia rasgada, o filme é mais um drama familiar sobre a superação das diferenças, mostrando o preconceito arraigado, infelizmente, não só nos adultos, mas também entre crianças e adolescentes.

Como Esquecer
(Idem, BRA, 2010, Cor, 100′)
Direção: Malu De Martino
Elenco: Ana Paula Arósio, Murilo Rosa, Natália Lage

9

Com diálogos cortantes e belas reflexões na primeira pessoa, Como Esquecer narra a angústia emocional de Júlia, uma professora universitária reservada e por vezes irascível, que sofre para superar o fim de uma intensa e duradoura relação amorosa.

Premiada como melhor atriz pela APCA, Ana Paula Arósio interpreta um contraponto feminino ao deprimido professor de Colin Firth em Direito de Amar (2010), construindo uma personagem contraditória, sem apelar para a simpatia do espectador.

 

Toda Forma de Amor
(Beginners, EUA, 2010, Cor, 105’)
Direção: Mike Mills
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic

Aos 38 anos, o artista gráfico Oliver relembra os últimos anos ao lado de seu pai. Aos 75 anos, ele revelou ao filho, logo após a morte da esposa, ser homossexual.

Inédito nos cinemas brasileiros, o segundo filme de Mike Mills (Impulsividade) valeu ao veterano Christopher Plummer (A Noviça Rebelde, A Última Estação), o Oscar de melhor ator coadjuvante no ano passado. Com dignidade, ele interpreta um pai de família que “sai do armário” nessa comédia dramática centrada em sua relação com o filho (Ewan McGregor). Com sensibilidade, respeito à diversidade sexual e com toques surreais – um cachorro “fala” por meio de legendas com McGregor –, o filme é um olhar apaixonado para dois homens em busca de um relacionamento afetivo significativo na vida.

 

Um Quarto em Roma
(Habitación en Roma, ESP, 2010, Cor, 107′)
Direção: Julio Medem
Elenco: Elena Anaya, Natasha Yarovenko

5

Depois do incompreendido Caótica Ana (2007), o espanhol Julio Medem prossegue com mais um trabalho pessoal e controverso. Com inúmeras cenas de sexo entre suas duas protagonistas, o filme acompanha, de modo intimista (e por vezes, voyeurístico) e por quase toda a sua duração, a longa noite de descobertas e prazeres carnais de duas mulheres.

Alba (a misteriosa Vera de A Pele que Habito) e Natasha (a ucraniana Natasha Yarovenko, de Diário Proibido) se encontram em Roma e, no quarto da primeira, passam uma longa noite de sedução, com o erotismo que se tornou marca do diretor de Lucia e o Sexo.

 

O Primeiro que Disse
(Mine Vaganti, ITA, 2010, Cor, 108′)
Direção: Ferzan Ozpetek
Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Grimaudo, Alessandro Preziosi

6

O filme mais bem sucedido do turco (radicado na Itália) Ferzan Ozpetek resgata a velha comédia de costumes sem perder a crítica social humanista. Como em seus outros trabalhos, o diretor expõe as dificuldades da nova geração para se adaptar às expectativas e anseios dos pais, colocando em risco a própria identidade.

Em O Primeiro que Disse, dois irmãos precisam vencer o dilema de seguir com suas vidas, revelando sua homossexualidade, ou escondê-la a fim de administrar os negócios da família conservadora.

Comparado a Pedro Almodóvar por alguns críticos, Ozpetek é um cronista sensível das mudanças comportamentais na Itália. Respeitoso aos valores tradicionais da unidade familiar, o filme equilibra drama e humor numa narrativa em dois tempos, passado e presente, interligados por meio da memorável personagem de Ilaria Occhini. Veterana atriz de teatro e TV, ela interpreta a avó dos irmãos e a primeira “bala perdida” (tradução do título original) da família. Com sua experiência e sabedoria, ela é o elemento nostálgico que aproxima diferentes gerações – sem preconceito.

A Viagem de Lucia
(La Llamada/Il Richiamo, ARG/ ITA, 2009, Cor, 93′)
Direção: Stefano Pasetto
Elenco: Sandra Ceccarelli, Francesca Inaudi, César Bordón

8

Infeliz no casamento, Lucía redescobre a alegria de viver ao conhecer Lea, jovem extrovertida com quem inicia um romance.

A relação amorosa entre duas mulheres bem diferentes é tratada de maneira discreta e com muita sensibilidade nesta coprodução ítalo-argentina, filmada em Buenos Aires e na Patagônia. Cansada da insensibilidade do marido, a personagem-título se reinventa por meio do turbilhão de emoções proporcionado por uma mulher mais nova, e mergulha de cabeça em um relacionamento carnal (e instável) que lhe traz uma segunda chance na vida.

 

Contracorrente
(Contracorriente, PER/COL/FRA, 2009, Cor, 100′)
Direção: Javier Fuentes-León
Elenco: Cristian Mercado, Tatiana Astengo

6

Poucos títulos da produção cinematográfica peruana chegam ao mercado brasileiro. Depois de A Teta Assustada, Contracorrente é o segundo filme a ser lançado em DVD por aqui. História de um triângulo amoroso à la O Segredo de Brokeback Mountain, o drama peruano com toques de realismo mágico narra a jornada interior de um homem casado aprendendo a aceitar quem é – e não a imagem que a comunidade faz dele.

Na trama, Miguel trabalha como pescador em um tradicional vilarejo à beira-mar, mas guarda um segredo: um amante chamado Santiago, pintor homossexual estigmatizado pela sociedade local.

 

Paixão Selvagem
(Je t’aime moi non plus, FRA, 1976, Cor, 83′)
Direção: Serge Gainsbourg
Elenco: Jane Birkin, Joe Dallesandro, Hugues Quester

3Estreia na direção do compositor e cantor francês Serge Gainsbourg (1928-1991), a ousada história de amor entre o personagem homossexual de Joe Dallesandro (ator-fetiche de Andy Warhol e Paul Morrissey) e uma misógina Jane Birkin provocou escândalo e eternizou a música Je T’Aime Moi Non Plus.

Composta originalmente para Brigitte Bardot, a escandalosa canção encontrou na inglesa Jane o par perfeito para Serge. Os dois foram casados e tiveram uma filha, Charlotte Gainsbourg, que recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes por sua corajosa interpretação em Anticristo, de Lars von Trier.

Jane Birkin e o objeto do desejo de Warhol e Paul Morrissey, Joe Dallessandro, em "Paixão Selvagem", filme causou furor nos anos 1970 graças à música-tema de Serge Gainsbourg e a cenas de sexo que desafiam as convenções sexuais

Jane Birkin e o objeto do desejo de Warhol e Paul Morrissey, Joe Dallessandro, em “Paixão Selvagem”. O filme causou furor nos anos 1970 graças à música-tema de Serge Gainsbourg e a cenas de sexo que desafiam convenções

DICA DA EQUIPE 2001: AZUL É A COR MAIS QUENTE

Por Eduardo Lucena

Logo no início de Azul é a Cor Mais Quente, o professor de uma escola no norte da França reflete com seus alunos sobre o romance A Vida de Marianne, escrito no século 18 por Pierre de Marivaux. A obra retrata o rito de passagem de uma jovem que aprende a amar e ser amada, em meios às convenções – e aparências – da sociedade da época. O professor fala também do papel decisivo da predestinação no curso de uma relação amorosa.

Adèle (a revelação Adèle Exarchopoulos) acompanha atentamente a aula. Aos 15 anos, ela experimenta a incrível fase de descobertas da adolescência, assim como suas inseguranças. Estimulada pelas amigas, começa a sair com um colega do colégio, ainda sem saber o que esperar ou querer. O que a bela Adèle sabe é que sente um grande vazio. Algo lhe falta e infelizmente não é preenchido por seu primeiro namoradinho.

Adèle Exarchopoulos

Adèle Exarchopoulos

A resposta vem justamente na forma da predestinação. Certo dia, Adèle caminha na rua quando é cativada pela presença de uma estranha com visual andrógino e inconfundível cabelo tingido de azul. Seus olhares se cruzam numa fração de segundo, um momento aparentemente banal que não sai de sua cabeça. Define o seu desejo, mesmo sem se dar conta disso. Até que o destino cumpre seu papel e Adèle encontra por acaso Emma (Léa Seydoux, de Meia-Noite em Paris e Adeus, Minha Rainha), estudante de artes plásticas, independente e que já assumiu sua homossexualidade.

Léa Seydoux

Léa Seydoux

Emma abre o mundo então limitado de Adèle, ao mesmo tempo em que a expõe ao preconceito no colégio. Após ser vista com Emma, ela é agredida verbalmente pelas “amigas” que a rotulam pejorativamente. Rótulos que Adèle recusa, já que não sabe ainda qual é a sua opção sexual, nem se quer assumir uma. Livremente baseado na HQ homônima escrita por Julie Maroh, o filme não cai na estereotipagem do homossexual no cinema, e passa a enfocar o relacionamento das duas personagens centrais ao longo de vários anos, desde o encantamento inicial até as dificuldades inerentes a qualquer relacionamento.

Filha de pais de classe média baixa e sem a cultura elitizada de Emma, Adèle estabelece uma forte conexão sexual com a parceira, a deixa para Azul é a Cor Mais Quente não economizar na carga erótica, incluindo uma longa sequência de sexo explícito entre as amantes. Consideradas pornográficas, as cenas de sexo causaram furor e polêmica no último Festival de Cannes, de onde o filme saiu com a Palma de Ouro. Numa decisão inédita, o prêmio foi dividido entre o diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche (de O Segredo do Grão, Vênus Negra) e, por suas atuações corajosas, Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Pela primeira vez na história do festival, duas atrizes levaram a Palma e, ao lado de Jane Campion (O Piano), são as únicas mulheres donas de tal honraria.

O diretor Abdellatif Kechiche entre as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos

O diretor Abdellatif Kechiche entre as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos

Em recente coletiva de imprensa no Brasil, o diretor defendeu-se das críticas: “Filmei uma história de amor e o desejo faz parte da atração. A exposição dos corpos tem a ver com a minha escrita cinematográfica, com a minha forma de expressar aquilo que não é possível com as palavras”.  Definitivamente impactantes, por sua longa duração, as cenas de sexo do filme ainda vão dividir muitas opiniões, é verdade. Mas exprimem a entrega quase espiritual de Adèle a sua relação com Emma, e fazem parte da proposta do cinema sensorial de Kechiche, que filma a maioria das cenas com a câmera muito próxima, quase colada ao corpo e rosto das atrizes. Em três horas de duração, esse estilo naturalista do chamado “cinema-verdade” pode cansar quem não estiver acostumado aos filmes de autor comumente realizados na Europa.

As diferenças sociais entre Adèle e Emma começam a interferir na relação. A partir daí, a narrativa perde um pouco o fôlego com a rotina de Adèle como professora primária, anos depois. Desdobramento que ilustra o crescimento individual da protagonista do filme chamado, no original, La vie d’Adèle – Chapitre 1 & 2 (“A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”). Na entrevista coletiva em São Paulo, Kechiche explicou também que planeja montar uma espécie de diário pessoal de Adèle, revisitando a personagem em outras fases da vida.

Azul é a Cor Mais Quente vai dar o que falar, pena que pelos motivos errados. O que fica é o retrato dilacerante de uma jovem com seus desejos, dilemas e frustrações, lutando para encontrar-se por meio da sexualidade. Independente de qualquer definição de gênero.

DIREÇÃO: Abdellatif Kechiche
ROTEIRO: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix
ELENCO: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Jérémie Laheurte, Mona Walravens | 2013 (179 min)

KABOOM! MAIS UMA CELEBRAÇÃO DA DIVERSIDADE SEXUAL E DA TRANSGRESSÃO POR GREGG ARAKI

Homossexual assumido, o cineasta norte-americano Gregg Araki fez sucesso junto a cinéfilos mais alternativos com o perturbador "Mistérios da Carne". Seus filmes são presença constante em festivais voltados ao público LGBT. "Kaboom" é mais um filme independente do cineasta - e uma orgia de sexo e drogas que faz o protagonista não distinguir mais a alucinação da realidade

Homossexual assumido, o cineasta norte-americano Gregg Araki fez sucesso junto a cinéfilos mais alternativos com o perturbador “Mistérios da Carne”, de 2004. Seus filmes são presença constante em festivais voltados ao público LGBT e “Kaboom” (disponível para locação e venda na 2001) é mais um trabalho independente. Nele, uma orgia de sexo e drogas faz o protagonista não distinguir mais alucinação da realidade

Kaboom
(Idem,  EUA/FRA, 2010, Cor, 86′)Vinny – Drama – 16 anos
Direção: Gregg Araki
Elenco: Thomas Dekker, Haley Bennett, Chris Zylka, Juno Temple

Sinopse: Smith passa seus dias na universidade à toa com sua melhor amiga, Stella. Depois de experimentar um biscoito temperado com alucinógenos, o rapaz começa a ter longas e estranhas viagens e, durante um de seus sonhos, vê uma garota ruiva ser assassinada. Sem saber se o que ele viu é real ou imaginário, ele decide descobrir a verdade por trás dessa alucinação.

 
Nascido em Los Angeles, Gregg Araki tornou-se um dos principais nomes da cena independente graças a filmes tematicamente ousados e carregados de homoerotismo como Geração Maldita (1995) e Mistérios da Carne (2004).

A confusão sexual, o desejo em ebulição e os distúrbios emocionais dos jovens retratados em sua perturbadora “trilogia adolescente do apocalipse” (formada por Totally F***ed Up, Geração Maldita e Nowhere) retornam em Kaboom (ou Ka-Boom, como descrito na capa do DVD).

Comédia teen com toques surreais de ficção-científica que lembram, por vezes, a atmosfera de Donnie Darko, o filme transcorre em um campus universitário no sul da Califórnia, onde o jovem Smith, dividido entre seu colega de quarto surfista e sua melhor amiga lésbica, experimenta os prazeres do sexo e uma série de inquietações. Sob influência de cookies alucinógenos, o estudante de cinema começa a sofrer delírios com assassinos usando máscaras de animais, uma seita de bruxas e até mesmo o fim do mundo.

No elenco, destaque para Juno Temple (à esquerda), jovem atriz inglesa que não tem medo de se expor em filmes transgressores - e que exploram a sexualidade - como "Killer Joe" e "Lovelace" (ainda inédito no Brasil). Ainda este ano, ela poderá ser vista em mais uma produção contra-indicada para estômagos mais sensíveis: a continuação de "Sin City".

No elenco, destaque para Juno Temple (à esquerda), jovem atriz inglesa que não tem medo de se expor em filmes transgressores – e que exploram a sexualidade – como “Killer Joe” e “Lovelace” (ainda inédito no Brasil). Ainda este ano, ela poderá ser vista em mais uma produção que promete carregar no sexo e na violência: a continuação de “Sin City”

As coisas se complicam a partir do momento em que o jovem – assim como o espectador – não consegue mais distinguir o que é real e o que é imaginado, pretexto para um caleidoscópio de personagens bizarros, imagens desconcertantes e cenas de sexo bem ao gosto do diretor.

XAVIER DOLAN EM DOSE DUPLA NA 2001

Xavier Dolan, novo queridinho dos cinéfilos descolados (e sem preconceito)

EXIBIDO NA 36ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO E NO RESERVA CULTURAL, NO FINAL DO ANO PASSADO, LAURENCE ANYWAYS É A TERCEIRA INCURSÃO DO FRANCO-CANADENSE XAVIER DOLAN NA DIREÇÃO.

CONSIDERADO UMA DAS NOVAS PROMESSAS DO CINEMA INDEPENDENTE, DOLAN DIRIGIU SEU PRIMEIRO FILME, EU MATEI MINHA MÃE, AOS 19 ANOS DE IDADE, E O SEGUNDO, AMORES IMAGINÁRIOS, AOS 20. CONFIRA OS DOIS PARA LOCAÇÃO NA 2001.

Premiado no Festival de Cannes, Eu Matei Minha Mãe (à venda por apenas 14,90 na 2001) causou sensação ao revelar o talento de um jovem (e transgressor) ator, cineasta e roteirista de apenas (até então) 19 anos, Xavier Dolan. Hoje, aos 23, já dirigiu e escreveu três longas-metragens

Eu Matei Minha Mãe
(J’ai tué ma Mère, CAN, 2009, Cor, 96′)
Paris – Drama – 16 anos
Direção: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval, François Arnaud

Sinopse: Adolescente problemático, Hubert Minel vive um relacionamento conflituoso com a mãe, que despreza.

 

Nascido em Montreal (Québec, Canadá) e homossexual assumido, Xavier Dolan baseou-se em suas próprias experiências para escrever, aos 16 anos, Eu Matei Minha Mãe. Também diretor e ator principal do longa, o jovem canadense causou furor com a problemática relação entre mãe e filho. Criado sozinho pela mãe, o personagem mantém em segredo seu namorado e extravasa nela toda a sua insatisfação com o mundo.

Em Eu Matei Minha Mãe, Xavier Dolan reinventa na tela situações que experimentou em sua vida pessoal

Em longas discussões, mãe e filho não conseguem se entender; ela não entende as inclinações artísticas e desejos do filho, que a considera ignorante e provinciana.

Dolan em cena: angústia e sentimento de inadequação adolescentes

Olhando diretamente para a câmera ou em ataques verbais, Dolan expressa não só as suas angústias pessoais, mas o sentimento de inadequação adolescente.

Vencedor de três prêmios no Festival de Cannes em 2009, Eu Matei Minha Mãe foi o representante do Canadá para disputar uma das vagas de melhor filme estrangeiro no Oscar, em 2010.

 

Amores Imaginários
(Les Amours Imaginaires, CAN, 2010, Cor, 101′)
Polifilmes – Drama – 14 anos
Direção: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider

Sinopse: Amigos inseparáveis, Francis e Marie se apaixonam pela mesma pessoa, o jovem Nicolas, sem saber exatamente qual é a sua orientação sexual.

 

Antes de Laurence Anyways (lançado em novembro de 2012 nos cinemas de São Paulo), Dolan dirigiu, escreveu e estrelou Amores Imaginários – seu segundo longa, realizado quando tinha apenas 20 anos de idade. Nele, o flerte de dois amigos que cobiçam o mesmo homem se transforma em uma disputa permeada pela ironia e pela tensão sexual, na medida em que ambos não conhecem as reais intenções de seu objeto do desejo.

“A única verdade é o amor além de qualquer razão.” Frase do poeta e dramaturgo francês Alfred de Musset, citada logo no início do filme

Intercalando depoimentos pseudodocumentais com um ambíguo triângulo amoroso, Dolan projeta mais uma vez na ficção suas fantasias e seu universo pessoal.

Elenco e diretor de Laurence Anyways – Melvil Poupaud, Nathalie Baye, Suzanne Clement, Xavier Dolan e Monia Chokri – posam para as câmeras durante o Festival de Cannes realizado em maio do ano passado. Por sua avassaladora interpretação no filme, Suzanne conquistou o prêmio de melhor atriz na mostra Un Certain Regard

Considerado excessivo e petulante por alguns, ou talento precoce e até mesmo jovem gênio por outros, Dolan vem construindo estilo próprio, marcado pela estética de videolipe, com muitas cenas em câmera lenta, closes, interpretações exacerbadas e personagens à margem, inspirados em seu cotidiano. Sempre ao som de eclética e extravagante trilha sonora, combinando canções pop e música clássica como no exemplo abaixo, que reproduz o track list de Laurence Anyways. [Todas as músicas da trilha tocam em sequência, automaticamente ao término de cada uma]

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