minimalismo

A ARTE DE UM DOS MESTRES DO CINEMA

A VERSÁTIL LANÇA BOX COM QUATRO OBRAS-PRIMAS DO MESTRE FRANCÊS, EM EDIÇÃO ESPECIAL COM 4 CARDS, E TRAZ DE VOLTA AO CATÁLOGO 7 VOLUMES ANTERIORES DA COLEÇÃO “A ARTE DE…”

Na filmografia de Robert Bresson (1901–1999), uma das mais pessoais, independentes e coerentes da história do cinema, predominam os temas espirituais e o estilo narrativo minimalista. Seu trabalho prima pelo uso de cenas curtas, planos-detalhe repletos de significado, brilhantes elipses ditadas pela montagem e atuações naturalistas de atores não-profissionais.

Cena de “A Grande Testemunha” (1966), incluído na coleção

Bresson nunca se rendeu a modismos, a padrões de mercado ou ao público. Seu estilo austero e minimalista influenciou diferentes gerações de cineastas, de Jean-Luc Godard a Andrei Tarkovski, passando por Jean-Marie Straub, até Bruno Dumont. As ações de seus personagens continuam a intrigar, assim como seus dilemas morais. Em sua busca por transcendência espiritual, ele elevou seu cinema à condição de arte.

O DVD duplo reúne quatro clássicos fundamentais para entender a obra do diretor. Cultuados por cinéfilos experientes, os trabalhos do diretor francês são periodicamente relacionados em inúmeras listas de melhores filmes de todos os tempos.

DISCO 1:

A GRANDE TESTEMUNHA (Au Hasard Balthazar, 1966, 95 min.)
Com Anne Wiazemsky, Walter Green, François Lafarge.

A triste vida e a morte de Balthazar, um jumento, desde sua infância idílica cercado por crianças, até a idade adulta, tiranizado como animal de carga. Em 2017, “A Grande Testemunha” ficou em 16º lugar na votação dos melhores filmes de todos os tempos promovida pela revista inglesa Sight & Sound com críticos e diretores de todo o mundo.

MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA (Mouchette, 1967, 81 min.)
Com Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal.

A história de uma menina do campo violentada por um caçador é o ponto de partida para Bresson colocar em evidência, de maneira implacável, a miséria e a crueldade humana. Baseado em romance de Georges Bernanos.

DISCO 2:

DIÁRIO DE UM PADRE (Journal d’un Curé de Campagne, 1951, 115 min.)
Com Claude Laydu, Nicole Ladmiral, Jean Riveyre.

Um jovem é nomeado padre em uma pequena aldeia da França. Os moradores locais o recebem com hostilidade. Com a saúde debilitada, ele terá dificuldades em se adaptar. Baseado em romance de Georges Bernanos.

UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (Un condamné à mort s’est échappé ou Le vent souffle où il veut, 1956, 101 min.)
Com François Leterrier, Charles Le Clainche, Maurice Beerblock.

Aprisionado pelos nazistas, membro da Resistência Francesa passa a elaborar um plano de fuga, sem saber se pode confiar totalmente em seu colega de cela. Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes.

EXTRAS:
* Documentário sobre Bresson (56 min.)
* Depoimentos e trailers (22 min.)

EDIÇÃO LIMITADA COM 4 CARDs:

E COMPLETE SUA COLEÇÃO:

DISCO 1:
O REI DE NOVA YORK
SEDUÇÃO E VINGANÇA

DISCO 2:
OS CHEFÕES
INIMIGOS DO DESTINO

DISCO 1:
UM TIRO NA NOITE

DISCO 2:
IRMÃS DIABÓLICAS
O FANTASMA DO PARAÍSO

DISCO 1:
SATYRICON DE FELLINI
CIAO, FEDERICO

DISCO 2:
ROMA DE FELLINI
A VOZ DA LUA

DISCO 1:
O CÍRCULO VERMELHO
CODINOME MELVILLE

DISCO 2:
TÉCNICA DE UM DELATOR
DOIS HOMENS EM MANHATTAN

DISCO 1:
A BESTA HUMANA
O RIO SAGRADO

DISCO 2:
A CADELA
AMOR À TERRA

DISCO 1:
A CANÇÃO DA ESPERANÇA
ASSIM FALOU O AMOR

DISCO 2:
AMANTES
CASSAVETES: O HOMEM E SUA OBRA

DISCO 1:
TRÊS MULHERES
ALTMAN, UM RETRATO

DISCO 2:
O PERIGOSO ADEUS
RENEGADOS ATÉ A ÚLTIMA RAJADA

DISCO 1:
TÓQUIO VIOLENTA
HISTÓRIA DE UMA PROSTITUTA

DISCO 2:
A VIDA DE UM TATUADO
PORTAL DA CARNE

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “ALÉM DA ESTRADA”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Pouco visto nos cinemas brasileiros, Além da Estrada fez belíssima carreira em festivais e merece ser conhecido, agora em DVD na 2001

Que lindas as paisagens uruguaias. Aliás, dá vontade de ir. Ainda mais porque a câmera do diretor brasileiro Charly Braun consegue mostrar bem o olhar do argentino Santiago (Esteban Feune de Colombi) e da belga Juliette (Jill Mulleady), os protagonistas desse road movie. É o olhar deles que conta, tanto da percepção que eles têm do território uruguaio, onde se conhecem por acaso por causa de uma carona, quanto da percepção deles mesmos. Com uma produção intimista, percebemos que a viagem de ambos em um território estrangeiro é uma metáfora para a descoberta dessa nova relação, descoberta daquilo que são­ nesse momento da vida e daquilo que buscam.

Juliette e Santiago: forte (e singela) ligação em solo uruguaio

Santiago vai para o Uruguai para cuidar de assuntos de família; Juliette vai atrás de um antigo namorado. Ele fala espanhol, ela francês. A língua em comum, portanto, é o inglês – estrangeira, assim como aquele país. Aos poucos vão se conhecendo durante a viagem, a relação é construída passo a passo, sem sobressaltos, sem precipitações. Simplesmente acontece, com o olhar natural que as lentes do diretor fazem questão de deixar bem claro.

Mesmo com orçamento limitado, Charly Braun criou cenas de rara beleza estética

Gosto bastante da adaptação do título deste filme que ganhou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio. Originalmente Por el Camino, a opção por Além da Estrada traz uma conotação muito sutil do que realmente acontece na tela. A história vai além da carona, de duas pessoas que percorrem um trajeto juntas. Transcende e passa para o campo afetivo, sem ser apelativo, sexualmente falando – aliás, isso é o que menos tem no filme. O bonito e delicado são os olhares, as risadas, as brincadeiras e principalmente a sinceridade com que a relação é elaborada. E é aos poucos mesmo, no mesmo ritmo em que Santiago e Juliette também percebem que estão envolvidos, que nós percebemos que eles vão se encontrando dentro deles também.

Além da Estrada me lembrou um filme que também publiquei no Cine Garimpo: Antes do Amanhecer, em que dois jovens se conhecem por acaso em um trem na Europa. Bonita essa releitura do mesmo tema. Singela e inteligente.

 

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

ENTREVISTA EXCLUSIVA: JEAN-PIERRE DARDENNE (“O GAROTO DA BICICLETA”)

O Garoto da Bicicleta
REALISMO EM BUSCA DA EMOÇÃO

Em virtude do lançamento de O Garoto da Bicicleta em DVD na 2001, entrevistamos Jean-Pierre Dardenne, diretor do filme ao lado de seu irmão, Luc

O cineasta belga Jean-Pierre Dardenne discute seu trabalho mais recente e seus métodos de trabalho ao lado do irmão, Luc, em entrevista exclusiva para a Revista da 2001 Vídeo de Maio.

Por Eduardo Lucena

2001: Como surgiu o projeto de O Garoto da Bicicleta?
Jean-Pierre Dardenne: A ideia veio por meio de uma notícia que lemos durante uma viagem ao Japão, sobre um garoto que tinha sido abandonado em um orfanato por seu pai, que prometeu ir buscá-lo, mas não foi. O garoto acabou fugindo para procurar o pai.

No tapete vermelho do Festival de Cannes em 2011, Jean-Pierre, Thomas Doret, Cécile De France e Lud Dardenne

2001: Onde vocês acharam o ótimo Thomas Doret, intérprete do garoto do título?
JPD: Fizemos testes com diversos atores para achar aquele que seria o protagonista. Thomas foi o quinto garoto do primeiro dia de testes. Todos os garotos interpretavam a primeira cena do filme (de uma maneira mais simplificada, é claro). Quando vimos a atuação de Thomas falando ao telefone, soubemos imediatamente que ele seria o protagonista. Ele demostrou uma força e uma sensibilidade que nos impressionaram.

2001: Além de filmar pela primeira vez no verão, há também algumas inserções de trilha sonora, algo que vocês costumam evitar. Por que essas exceções agora?
JPD: Achamos que a luz do filme combinava mais com o verão. Mesmo na Bélgica, nem sempre faz sol no verão, mas tivemos sorte em filmar algumas cenas, como as de Cécile De France e Thomas Doret passeando de bicicleta ao ar livre. A luz e a estética do filme combinavam com essa estação. Em relação à música, queríamos que ela funcionasse como um carinho para o personagem. Essa criança, que foi abandonada, precisa de carinho. Ela não vive como uma criança deveria viver. Ela precisa sair dessa solidão e queríamos que a música viesse pontualmente, como uma forma de acariciar essa criança que vive essa dura realidade.

Thomas Doret e Cécile De France em cena do filme mais solar e esperançoso dos irmãos Dardenne

2001: Novamente, há uma mistura de atores profissionais com estreantes. Fale sobre o processo de ensaios e a imersão dos atores.
JPD: Trabalhamos basicamente com ensaios. Nós ensaiamos diariamente com os atores todas as cenas, um mês antes do início das filmagens. Primeiro, começamos com as cenas mais físicas – porque, para nós, os atores devem incorporar os personagens por meio do físico. Começamos com Thomas, por exemplo, na cena da briga com os garotos. E depois partimos para as cenas com mais diálogos.

2001: Sua câmera segue os atores como um detetive, sempre muito próxima ao protagonista, Cyril.
JPD: No caso deste filme, achamos que a câmera deveria trabalhar mais como observadora, mantendo um pouco de distância do personagem principal. Queriamos mostrar a solidão na qual esse garoto vivia, e para isso achamos que a câmera deveria ficar um pouco mais distante, apenas observando o personagem.

2001: Em O Garoto da Bicicleta, assim como em O Filho, temos um menino abandonado no centro dos conflitos. Vocês têm alguma experiência pessoal ou fizeram algum tipo de pesquisa específica sobre o tema?
JPD: Não foi uma experiência pessoal, e sim uma notícia que nos fez ter a ideia de contar essa história de abandono de um garoto por seu pai. Além do abandono, queríamos falar da promessa que foi feita ao menino e não foi cumprida. O pai prometeu que iria buscá-lo no orfanato, mas não foi. E era sobre isso que mais queríamos falar.

2001: Jérémie Renier [Guy, o pai do garoto Cyril] também interpretou um pai imaturo em A Criança (2005). Foi uma escolha proposital?
JPD: Não. Não queríamos falar sobre um pai imaturo. Na verdade, a escolha do ator se deu exclusivamente porque gostamos muito de trabalhar com Jérémie; nos comunicamos bem com ele e apreciamos seu trabalho. Quando terminamos o roteiro, achamos que ele seria um bom intérprete para o personagem do pai. Achamos que ele interpretaria bem um pai descuidado, que não se importa com seu filho.

Ator de A Criança e O Silêncio de Lorna, Jérémie Renier volta a trabalhar com os Dardenne em O Garoto da Bicicleta

2001: O filme aborda também um fenômeno comum, o crescente número de mulheres que criam seus filhos sozinhas. Esse é um tema que vocês tentaram enfocar?
JPD: Queríamos falar sobre uma criança que é abandonada e que encontra alguém que quer lhe dar amor, tirando-a dessa solidão. Pensamos que essa pessoa só poderia ser uma mulher, porque não conhecemos nenhum homem que faça isso. Nenhum homem que seja capaz de cuidar sozinho de uma criança e ser pai e mãe ao mesmo tempo. Mas não era essa história que queríamos contar, e sim a história de um garoto que está sozinho e tem a oportunidade de receber amor. Queríamos saber se ele aceitaria esse amor ou não.

2001: Uma curiosidade dos fãs de cinema: como você e seu irmão [Luc Dardenne] dividem o trabalho?
JPD: Normalmente, fazemos tudo juntos. A unica exceção é o roteiro. Para construir o roteiro, meu irmão Luc é o motor. Ele trabalha sozinho e depois nós discutimos juntos. De resto, fazemos tudo juntos: a composição dos personagens, os ensaios com os atores, o figurino, a montagem do set de filmagens etc.

Dupla de diretores mais importante do cinema europeu hoje, Luc e Jean-Pierre Dardenne tiveram cinco de seus filmes premiados nos Festival de Cannes, dois deles com a Palma de Ouro

2001: Após mais de 30 anos de trabalho, desde o formato documentário até seus últimos longas-metragens, o que os inspira e encoraja a continuar narrando histórias humanas (e universais) como a de O Garoto da Bicicleta?
JPD: O que nos estimula a continuar contando histórias é a tentativa de compreender o mundo atual. No caso de O Garoto da Bicicleta, o que nos estimulou foi a vontade de entender como o ser humano pode conviver com a adversidade hoje. Como é possivel ser solidário, ajudar alguém no mundo tão conturbado em que vivemos. São essas questões que nos estimulam a contar mais histórias.

Irmãos Dardenne
Os Grandes Humanistas do Cinema Contemporâneo

Jean-Pierre Dardenne nasceu em Liége (Bélgica), em 21/4/1951. Seu irmão, Luc Dardenne, em 10/3/1954, em Awirs (também na Bélgica). Os dois produzem, escrevem e dirigem seus filmes. Em 1978, realizaram o primeiro de seus documentários, Le Chant du Rossignol. Estrearam na direção de longa de ficção com A Promessa (1996), que já abordava a situação de imigrantes na Bélgica. A consagração internacional veio três anos depois, com a Palma de Ouro em Cannes por Rosetta, premiação obtida também por A Criança (2005). Afeitos a questões sociais e atentos à realidade européia, os irmãos Dardenne criaram um estilo próprio, marcado pelo despojamento estético, filmagens em continuidade, ausência de trilha sonora e câmera muito próxima dos atores. Como se ouvíssemos sua respiração, seus atores precisam comer, sentir frio, brigar, correr, enfim, viver todas as emoções de seus personagens.

Em busca de um minimalismo narrativo sem concessões para o espectador, os irmãos Dardenne tornaram-se mestres do drama social, sem cair no melodrama barato. A sensação que se tem ao ver um filme da dupla é a de se assistir a um vídeo caseiro (mas bem filmado) com a urgência da realidade, com seres humanos imprevisíveis e capazes de atos condenáveis. Em seu cinema, o indivíduo é falível – como todos nós.

MAIS IRMÃOS DARDENNE NA 2001:


O Silêncio de Lorna (2008)
Cada um com seu Cinema (2007), curta Dans L’Obscurité
A Criança (2005)
O Filho (2002)