Novo Cinema Alemão

A “TRILOGIA DA ESTRADA” DE WIM WENDERS: EDIÇÃO ESPECIAL COM CARDS E VÁRIOS EXTRAS

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Filho de um cirurgião, Wim Wenders nasceu em 14 de agosto de 1945 em Düsseldorf (Alemanha). Começou a estudar medicina e depois filosofia, mas interrompeu ambos os cursos para se tornar pintor. Mudou-se para Paris e, paralelamente ao trabalho de aprendiz de pintor, frequentou a Cinemateca Francesa, onde via em média cinco filmes por dia.

Em 1967, de volta à Alemanha, entrou para a Escola de Cinema de Munique. Nesse período, começou a escrever críticas e realizou vários curtas-metragens, concluindo o curso com o filme “Summer in the City” (1970), rodado durante o inverno berlinense.

"Alice nas Cidades"

“Alice nas Cidades”

Depois filmou “O Medo do Goleiro diante do Pênalti” (1971), baseado em romance de Peter Handke, e “A Letra Escarlate” (1973), sua versão para o clássico de Nathaniel Hawthorne, até o reconhecimento internacional com “Alice nas Cidades” (1974). O filme inicia uma trilogia de road movies que se completa com “Movimento em Falso” (1975) e “No Decorrer do Tempo” (1976), trabalhos profundamente influenciados pela geração beat de “On the Road”, de Jack Kerouac.

Agora, os cinéfilos têm a oportunidades de conhecer (ou rever) a famosa trilogia de Wenders em DVD, com cerca de quatro horas de extras.

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TRILOGIA DA ESTRADA

DISCO 1:

ALICE NAS CIDADES (Alice in den Städten ,1974, 112 min)
Com Yella Rottländer, Rüdiger Vogler, Lisa Kreuzer, Edda Köchl.

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Sem inspiração, Philip Winter, um jornalista alemão vivendo nos EUA, decide retornar à sua terra natal. A caminho, no aeroporto, encontra por acaso com Lisa e sua filha Alice. Uma reviravolta faz com que Philip precise cuidar sozinho da menina.

DISCO 2:

MOVIMENTO EM FALSO (Falsche Bewegung, 1975, 104 min.)
com Rüdiger Vogler, Hanna Schygulla, Hans Christian Blech, Nastassja Kinski.

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Baseado em obra de Goethe, o filme descreve seis dias na vida de Wilhelm. No vagão de um trem ele encontra desde um atleta que participou das Olimpíadas de 1936, uma atriz, até interromper o suicídio de um passageiro. Mais uma parceria entre Wenders e o roteirista Peter Handke (“O Medo do Goleiro”, “Asas do Desejo”).

DISCO 3:

NO DECURSO DO TEMPO (Im Lauf der Zeit, 1976, 175 min.)
Com Rüdiger Vogler, Hanns Zischler, Lisa Kreuzer, Rudolf Schündler.

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Um técnico de projetores viaja pela Alemanha visitando cinemas desativados quando encontra um homem recém-separado. Eles ficam amigos e resolvem viajar juntos. Vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes.

EXTRAS:

* Entrevistas
* Cenas não editadas
* Curtas-metragens dirigidos por Wim Wenders
* Entrevista com o diretor

ENTREVISTA EXCLUSIVA DE 30 ANOS DA 2001: WIM WENDERS (“PINA”)

PREÇOS IMBATÍVEIS,
O LANÇAMENTO EXCLUSIVO DE O BURACO DA AGULHA.
O CANAL CINE INDEPENDENTE.
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E PARA COMPLETAR TUDO ISSO, NO MÊS EM QUE COMEMORA 30 ANOS, A 2001 VÍDEO TRAZ UMA ENTREVISTA MAIS DO QUE ESPECIAL COM WIM WENDERS.

Pina
A REINVENÇÃO DE UM CINEASTA PELA DANÇA

O Estado das Coisas (1982), Paris, Texas (1984), Asas do Desejo (1987) e Buena Vista Social Club (1999) são alguns dos filmes que marcaram a carreira de Wim Wenders na 2001 Vídeo. Em comemoração aos 30 anos da rede, o grande cineasta alemão falou com exclusividade sobre Pina e sua carreira.

Por Eduardo Lucena

2001: Parabéns por Pina. O que o inspirou a realizar o documentário?
Wim Wenders: Pura e simplesmente: o trabalho de Pina Bausch. Suas coreografias e as peças que criou estão entre as coisas mais belas e emocionantes que já vi. Quando testemunhei pela primeira vez seu trabalho, fiquei extasiado. Sentei para ver Café Müller e chorei como um bebê durante todo o espetáculo. Não entendia o que tinha mexido tanto comigo. Apenas sabia que nunca tinha visto nada semelhante e que aquilo estava para mudar minha vida. E mudou. Sugeri a ela um filme em comum em nosso primeiro encontro, no verão de 1984. Desde então, e por 20 anos, eu e Pina sonhávamos com esse projeto juntos.

Ela me cobrava: “Quando vamos finalmente fazer isso, Wim? Que tal agora?”. “Ainda não estou pronto, Pina!”, respondia. Isso foi se tornando uma piada recorrente entre nós.

Wim Wenders e Pina Bausch, em 2008

Eu estava ganhando tempo na época. Eu simplesmente não tinha ideia de como fazê-lo, de como filmar a dança. Por mais que eu tentasse imaginar o trabalho de Pina na tela, menos eu podia vê-lo, mesmo tendo estudado a história dos filmes de dança. A companhia Tanztheater de Pina tinha tanta liberdade e alegria, tanta fisicalidade, era tão cheia de vida, que eu realmente não sabia como filmá-la apropriadamente. Até o dia em que tive o primeiro vislumbre do novo 3D digital, em 2007, ao assistir ao show U2 3D. A experiência foi uma revelação. Enquanto eu assistia, pensei: “Essa é a linguagem para um filme de dança!”. Era o único modo que o filme poderia ser feito.

O 3D era a resposta. Essa nova tecnologia e a dança foram feitos um para o outro. Finalmente, pude entrar no próprio domínio dos dançarinos, o espaço, e não apenas assisti-los sem parar, de fora. Eu sempre os vi como peixes na água, comigo e minhas câmeras posicionados de fora do aquário. Com a ajuda do 3D eu pude finalmente nadar com eles. Foi quando então liguei para Pina, ainda do cinema: “Agora eu sei como fazer, Pina”. Não precisei falar mais, ela entendeu. E começamos a preparar o filme logo depois.

2001: Pina morreu semanas antes do início das filmagens. Como a morte dela mudou a  concepção do projeto?
WW: Escrevemos o conceito juntos e trabalhamos no projeto por dois anos. Planejamos as filmagens para o outono de 2009, mas a poucas semanas do início, Pina se foi [Pina Bausch faleceu em 30 de junho de 2009]. Seus familiares, bailarinos e minha equipe, é claro, ficamos devastados. Foi uma perda tão súbita e brutal. De repente, Pina estava morta. Imediatamente parei os preparativos para o filme.

Acima de tudo, o filme foi escrito para e com Pina. Queríamos vê-la nos ensaios, acompanhá-la em turnê com sua companhia. Tudo isso tornou-se impossível. Então eu parei o projeto. Dois meses depois, os bailarinos começaram a ensaiar as peças selecionadas por Pina para o filme. Os dançarinos me fizeram entender que talvez essa fosse a última vez em que os espetáculos seriam apresentados! Nós tínhamos de fazer o filme de qualquer maneira, agora mais do que nunca. Poderíamos não fazer um filme com Pina, mas juntos poderíamos realizar outro filme para ela. Foi nossa forma de lidar com a morte dela, com sua perda e a dor.

Um dos clássicos do diretor, Alice nas Cidades faz parte do acervo da 2001 Vídeo

2001: Curiosamente, Pina foi filmado em Wuppertal, a mesma cidade onde você dirigiu parte de Alice nas Cidades, nos anos 1970. Quais são as suas memórias dessa época, quando você representava um dos principais nomes do Novo Cinema Alemão, ao lado de Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder?
WW: Visto hoje, parecia um tempo de inocência. Realmente não havia uma “cultura de cinema” na Alemanha, começamos tudo do nada. O que é uma coisa boa, inventar suas próprias regras. Cada um de nós tinha seus próprios “pais” cinematográficos. Fassbinder, por exemplo, amava os filmes de Douglas Sirk, Herzog era inspirado por F.W. Murnau, e eu, pelo cinema americano, John Ford ou Howard Hawks.

Foto histórica: Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders reunidos

A falta de uma indústria nos levou a uma situação incomum, mesmo no cinema. Os jovens diretores e autores do que se tornaria o Novo Cinema Alemão foram forçados a se organizar. O fato de todos nós criarmos filmes e tê-los distribuídos se deu graças a um ato de incrível solidariedade coletiva. E como ninguém queria nos produzir, e muito menos distribuir os nossos filmes, fundamos nossa própria produtora e distribuidora, a Filmverlag der Autoren, uma espécie de “companhia de autores unidos”. Não havia competição ou inveja. Se um de nós tivesse sucesso, seria bom para todos. Nesse clima, fomos capazes de ser incrivelmente produtivos. Fassbinder dirigia três ou quatro filmes por ano, Herzog e até mesmo eu produzíamos regularmente um filme por ano, o que hoje pode parecer utópico. Atualmente, um jovem cineasta, se tiver sucesso com seu primeiro filme, terá de esperar anos para dirigir seu segundo longa-metragem.

2001: O 3D foi crucial na realização de Pina. Como essa nova tecnologia mudou sua forma de dirigir e ver filmes?
WW: Você não pode simplesmente pegar qualquer roteiro e dizer: “Vamos fazer isto em 3D”. É uma nova linguagem de cinema, e você precisa aprender e respeitar sua gramática e vocabulário. Porque ver um filme em 3D é também uma experiência diferente para o espectador. Emocionalmente, você está envolvido de maneira diferente do que no “cinema plano”. Essa é a grande diferença: o envolvimento! No 3D, você pode levar o público a outros lugares que o cinema jamais conseguiu. O espectador pode ser imerso numa realidade diferente. Por isso estou tão convencido de que no futuro o 3D será a mídia ideal para o documentário.

Wim Wenders durante as filmagens de Pina: uso diferenciado da tecnologia 3D

2001: Em sua filmografia, você sempre foi atraído por explorar formas diferentes de narrativa, e em dar vida a cidades e personalidades reais. Por isso, a alternância entre a ficção e o documentário?
WW: Sim. Acho que é muito saudável para um cineasta não filmar apenas histórias ficcionais, mas ser exposto agora e sempre à simples realidade. Estar nas ruas, com uma equipe pequena de duas ou três pessoas atrás de você, e não com uma centena, e 20 caminhões e trailers à sua volta. Fazer um documentário pode ajudá-lo a tornar-se modesto de novo. Como cineasta, você corre o risco de se levar muito a sério.

Conheço vários colegas que possivelmente seriam pessoas melhores – e possivelmente realizariam filmes melhores – se fossem forçados a dirigir um documentário depois do segundo filme. Além disso, um documentário pode ser feito espontaneamente. [Bem, não é o caso de Pina, mas certamente é o de Buena Vista Social Club, por exemplo.] Longas ficcionais envolvem muita espera, até serem finalmente escritos, terem o elenco escalado, e conseguirem financiamento. O que pode ser uma verdadeira perda de tempo.

2001: Tivemos o privilégio, aqui no Brasil, de ver algumas de suas fotos na exposição “Lugares, Estranhos e Quietos”, no Masp, dois anos atrás. Qual a importância dessa forma de expressão em seu trabalho?
WW: Comecei a tirar fotos quando era garoto. Aos seis anos, tinha uma câmera fotográfica e depois tive minha própria câmara escura. Mas só comecei a fotografar a sério em 1983, quando comecei a trabalhar na preparação de Paris, Texas, pesquisando a luz e as cores do oeste americano. O que me levou, anos depois, à minha primeira exposição de fotos, Escrito no Oeste. Desde então, a fotografia é parte integral da minha vida. Hoje, preenche metade do meu tempo.

Estrela Solitária: mais um grande filme do cineasta – e a segunda parceria com Sam Shepard

2001: Uma das fotos (Street Corner Butte) da exposição foi tirada em uma das locações de Estrela Solitária (2005), filme que retoma sua parceria com Sam Shepard depois de Paris, Texas (1984). Vocês ainda mantêm contato? E há planos para algo novo juntos?
WW: Falo com Sam de vez em quando. Não é fácil entrar em contato com ele, um homem recluso que não usa a internet. Acabei de vê-lo em Dublin, onde se apresentou com Patti Smith. Sam é um grande guitarrista e cantor. Foi um dos mais memoráveis concertos que vi em muito tempo. Nos damos bem, e adoraríamos trabalhar juntos de novo.

2001: Falando em colaboração, no último dia 29 de setembro o mestre Michelangelo Antonioni (1912–2007) teria completado 100 anos. Fale sobre sua experiência ao lado dele em Além das Nuves (1995).

Com Michelangelo Antonioni, durante as filmagens de Além das Nuvens

WW: Foi uma triste e ao mesmo tempo extasiante experiência. Triste, já que Michelangelo era incapaz de falar, e imensamente gratificante, ao vê-lo realizar o filme exatamente do jeito que queria, usando sua força de vontade e imaginação. Fui seu assistente de direção e ao mesmo tempo diretor substituto em caso de uma eventualidade, para a seguradora.

Aceitei de bom grado a tarefa quando Michelangelo sugeriu meu nome para o trabalho. Mas nunca precisei assumir a direção. Ele controlou o filme do início até o último dia de filmagem. Era maravilhoso ver como ele conduzia tudo apenas com a linguagem de sinais e desenhos para expresssar suas intenções para a equipe e os atores. Tentei ser a sua “voz”, junto com a mulher dele, Enrica. Mas Michelangelo se impôs heroicamente.

2001: Além disso, neste mês começa a 36º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Infelizmente, sem o seu fundador (e amigo pessoal), Leon Cakoff…
WW: Leon era um grande cara, e um dos últimos diretores de festival do planeta realmente devotados aos filmes. Ele amava o cinema, era um profundo conhecedor do que acontecia ao redor do mundo. Era um homem doce e gentil, o que significa que todos perdemos alguém importante, não apenas para a comunidade e a cidade de São Paulo. Nossos melhores momentos juntos foram compartilhados durante as filmagens do meu curta Ver ou Não Ver para o projeto coletivo Mundo Invisível (2011), que ele produziu. Dessa experiência, sei que Leon não se importava apenas com os filmes, mas também com as pessoas. Eu sinto profundamente a sua falta.

Túnel do tempo: Wim Wenders ao longo dos anos

2001: Berlim, Tóquio, Havana, Los Angeles, Palermo e Wuppertal, só para citar algumas cidades. Qual a próxima “viagem” de Wim Wenders?
WW: Estou preparando meu próximo longa. É um drama familiar chamado Everything Will Be Fine, uma história original de um roteirista norueguês, Bjorn Olaf Johannessen. Sempre desenvolvi meu próprio material, mas esse roteiro é uma exceção. Bjorn Olaf enviou seu primeiro tratamento do roteiro, li e foi amor à primeira vista. O filme será rodado em Montreal e Québec, no Canadá. É possível que ele não lembre nenhum de meus filmes anteriores, exceto talvez O Amigo Americano (1977). Filmaremos em 3D, como Pina. O 3D foi a ferramenta perfeita para um filme de dança. O desafio agora é aplicar essa tecnologia a um formato narrativo tradicional. Mas estou completamente convencido de que funcionará.

SERVIÇO:

Pina
(Idem, ALE/FRA/ING, 2011, Cor, 106′)
Imovision – Arte – Livre
Direção: Wim Wenders
Elenco: Pina Bausch, Regina Advento, Malou Airaudo

Sinopse: Considerada uma das maiores coreógrafas da história, Pina Bausch (1940-2009) é homenageada por meio de depoimentos de bailarinos que trabalharam com ela e recriações de alguns de seus espetáculos. Disponível para locação nas lojas da 2001 Vídeo.

 

WIM WENDERS EM DVD NA 2001:

Pina (2011)
Cada um com Seu Cinema (2007) curta War in Peace
Estrela Solitária (2005)
Medo e Obsessão (2004)
The Blues – The Soul of a Man (2003)
O Hotel de Um Milhão de Dólares (2000)
Buena Vista Social Club (1999)
Um Truque de Luz (1995)
O Céu de Lisboa (1994)
Tão Longe, Tão Perto (1993)
Identidade de Nós Mesmos (1989)
Asas do Desejo (1987)
Tokyo-Ga (1985)
Paris, Texas (1984)
O Estado das Coisas (1982)
Quarto 666 (1982)
Um Filme Para Nick (1980)
O Amigo Americano (1977)
No Decurso do Tempo (1976)
Movimento em Falso (1975)
Alice nas Cidades (1974)
O Mundo dos Crocodilos (1974) Curta-Metragem
A Letra Escarlate (1973)

Obs. Todos disponíveis para locação na prateleira de ARTE, nas lojas da 2001 Vídeo