surrealismo

UM DOS LANÇAMENTOS DO ANO, A COLEÇÃO TRAZ 4 FILMES DO DIRETOR, INCLUINDO O CULT “ERASERHEAD”

Um dos diretores mais cultuados pelos cinéfilos, David Lynch transcende a sétima arte. É um inquieto artista multimídia também com trabalhos nas artes plásticas, fotografia, escultura, desenho, música e até nos quadrinhos (“O Cão Mais Raivoso do Mundo”). Produtor de música eletrônica, lançou em 2001 o álbum “Crazy Clown Time”, em que continua suas experimentações sonoras no cinema.

Considerado um dos diretores mais originais e influentes do cinema, Lynch é um dos poucos a desafiar (ou mesmo subverter) as convenções da indústria, mantendo-se sempre fiel a seu estilo e experiências. Para ele, ao representar a vida, os filmes devem ser complicados, e, em alguns casos, inexplicáveis. Por isso, dificilmente o cineasta explica o enredo de suas produções; cabe ao próprio espectador estabelecer sentido e significação para aquilo que vê.

O CINEMA DE DAVID LYNCH

A coleção reúne quatro de seus filmes – três deles fora de catálogo. Anteriormente lançado pela Lume, “Eraserhead” (1977) – estreia de Lynch na direção de longa – virou item de colecionador. Indicado a 8 Oscar, “O Homem Elefante” (1980), “Coração Selvagem” (1990) – vencedor da Palma de Ouro em Cannes -, e o surreal quebra-cabeça “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) completam o box.

ERASERHEAD

Primeiro longa-metragem do cineasta, o filme começou a ser rodado em 1971 e foi lançado apenas em 1977. Seu penoso processo de produção resultou inclusive no primeiro divórcio do diretor.

Bizarro, original, surrealista. “Eraserhead” é um pesadelo em forma de drama familiar, acompanhando Henry Spencer (Jack Nance), que luta internamente para lidar com sua raivosa namorada e os gritos de seu filho, um bebê mutante. Entre os admiradores deste cult incontornável do cinema, estão Stanley Kubrick e Mel Brooks que, impressionado, produziria o filme seguinte do diretor, “O Homem Elefante”.

O HOMEM ELEFANTE

Usado como uma atração de circo, John Merrick (John Hurt) é constantemente humilhado pela sociedade a sua volta. Frederick Treeves (Anthony Hopkins), um famoso cirurgião, o leva para o hospital em que trabalha e descobre que, a despeito de sua aparência incomum, Merrick é um ser humano sensível, inteligente e gentil.

Drama vitoriano filmado na Inglaterra, com bela fotografia em preto e branco influenciada pelo expressionismo alemão, o filme foi reconhecido pela Academia de Hollywood com oito indicações ao Oscar, incluindo a primeira das três nomeações de Lynch a melhor direção.

CORAÇÃO SELVAGEM

Lynch homenageia à sua maneira o clássico “O Mágico de Oz” por meio da bizarra jornada de Sailor (Nicolas Cage) e Marilyn (Laura Dern), que deixam sua cidade para fugir das garras da diabólica mãe dela (papel de Diane Ladd, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Premiado com uma polêmica Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1990, o longa é um road movie erótico, perturbador e violento, repleto de humor negro. O elenco ainda conta com Willem Dafoe, Isabella Rossellini e Harry Dean Stanton – falecido em 15 de setembro deste ano, aos 91 anos.

TWIN PEAKS – OS ÚLTIMOS DIAS DELAURA PALMER

Cercado de expectativa, por conta do sucesso da série criada por Lynch e o roteirista Mark Frost, o filme estreou no Festival de Cannes de 1992. Duramente vaiado na Croisette e incompreendido na época de seu lançamento, é mais um surreal conto de horror lynchiano sobre a perda da inocência.

Na trama (ou anti-trama), o agente do FBI Chet Desmond (Chris Isaak) e seu parceiro Sam Stanley (Kiefer Sutherland) investigam o assassinato da garçonete Teresa, em uma pequena cidade do estado de Washington. Após descobrir uma pista, Chet desaparece a alguns quilômetros da cidade de Twin Peaks. Um ano depois, outra morte parece ter ligação com o crime: o assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Seus últimos dias de vida podem ajudar a solucionar o mistério.

Reavaliado com o passar do tempo, o filme adquiriu status de cult e ganha mais relevância agora com o retorno – 25 anos depois – da série, com a qual estabelece conexões importantes.

EM EDIÇÕES ESPECIAIS, “ALICE”, “A GUERRA DO FOGO” E “FERVURA MÁXIMA”

TRÊS CULTS DO CINEMA AGORA EM DVD: UMA ANIMAÇÃO DO TCHECO JAN SVANKMAJER, UM FILME DE REFERÊNCIA PREMIADO COM O OSCAR, E O ÚLTIMO LONGA DE AÇÃO DO DIRETOR JOHN WOO REALIZADO EM HONG KONG ANTES DE SUA PARTIDA PARA HOLLYWOOD. EDIÇÕES COM EXTRAS + 1 CARD EM CADA UMA.

ALICE

Oportunidade de conhecer o trabalho do animador tcheco Jan Svankmajer, cuja obra marcadamente surrealista influenciou cineastas como Tim Burton.

O clássico de Lewis Carroll ganha uma interpretação singular neste filme lúdico, com poucos diálogos e ênfase na concepção visual, que mistura técnicas de animação stop-motion com elementos live action.

Vencedor do prémio de melhor filme no Festival de Cinema de Animação de Annecy, “Alice” é uma transposiçãolivre (e surreal) da obra de Carroll, a partir do momento em que a personagem-título (vivida pela atriz-mirim Kristýna Kohoutová) segue um misterioso coelho branco.

Edição caprichada com extras preciosos mais 1 card com imagem da produção.

EXTRAS:
* A primeira adaptação cinematográfica de “Alice no País das Maravilhas” (1903, 9 minutos)
* Curta-metragem “Alice in Label Land” (1974, 12 minutos)
* Dois inéditos curtas musicais dos irmãos Quay: “Stille Nacht II: Are We Still Married?” (1992, 3 minutos) e “Stille Nacht IV: Cant Go Wrong Without You” (1993, 3 minutos)
* Curta “Elsie and the Brown Bunny” (1921, 8 minutos)

A GUERRA DO FOGO

Vencedor do Oscar de melhor maquiagem e do César de melhor filme e direção, este longa-metragem de 1981 se tornou referência para estudantes, professores e interessados no período pré-histórico.

Ao mostrar a jornada de homens primitivos em busca de fogo em outras tribos, “A Guerra do Fogo” apresenta uma recriação do passado através da imaginação. A linguagem primitiva, por exemplo, foi desenvolvida por Anthony Burgess (autor do livro “Laranja Mecânica“), que criou neologismos especialmente para o roteiro.

Filmado em locações no Quênia, Escócia e Canadá, confirma a predileção do cineasta Jean-Jacques Annaud pelo passado e paisagens inóspitas. Em filmes como “O Urso” e “Sete Anos no Tibet”, Annaud retratou o embate de forças entre o homem e seu meio, visitante e habitante local.

Os personagens de “A Guerra do Fogo” procuram novas tribos, algumas mais avançadas, para roubar-lhes o fogo – que ainda não aprenderam a criar. Na luta pela sobrevivência, a apropriação (seja de algo ou do “outro”) é mais fácil do que a criação.

EXTRAS:
* Making of
* Entrevista com Jean-Jacques Annaud
* Galeria de vídeos com comentários do diretor
* Áudio comentários de Annaud

FERVURA MÁXIMA

Estrelado por Chow Yun-Fat (de “O Tigre e o Dragão”) e Tony Leung (“Amor à Flor da Pele”), o filme é o último trabalho de John Woo realizado em Hong Kong antes de sua mudança para Hollywood. Nos EUA, ele se tornaria um dos maiores nomes do cinema de ação, dirigindo filmes como “O Alvo” (1993) “A Outra Face” (1997) e “Missão: Impossível 2″ (2000). Woo voltaria à dirigir na China somente em 2007, com as duas partes do épico “A Batalha dos Três Reinos”.

Ao centro, John Woo no set do filme

Em “Fervura Máxima“, Yuen (Yun-Fat) – também conhecido como “Tequila”, é um inspetor de polícia de Hong Kong. Transtornado com a morte de seu parceiro em um tiroteio, ele se une a Alan (Leung), um assassino profissional, a fim de vingar o amigo e impedir que uma quadrilha mate gente inocente.

Depois de “O Matador” (1989) e “Bala na Cabeça” (1990), Woo aperfeiçoa aqui sua marca registrada, “importada” por Hollywood: cenas de ação de tirar o folego, encenadas em câmera lenta e coreografadas como um balé da violência.

EXTRAS:
* Entrevista com o diretor John Woo (38 minutos)
* Entrevista com Villain K. Choi (24 min.)
* Arte Imita Vida: Entrevista com Philip Chan (15 min.)
* Fervura Máxima: Guia de localização (8 min.)

“HOLY MOTORS”, O FILME SENSAÇÃO DE CANNES 2012

Com a surpreendente Palma de Ouro anunciada para "A Vida de Adele" no último domingo, vale a pena conferir o filme que causou mais frisson no Festival de Cannes no ano passado - "Holy Motors". Vencedor do Prêmio da Juventude", o filme marca a volta do provocador Leos Carax, diretor francês responsável por trabalhos autorais como "Os Amantes da Ponte Neuf" e "Pola X"

Com a surpreendente Palma de Ouro anunciada para “A Vida de Adele”, no último domingo, vale a pena conferir o filme que causou mais frisson no Festival de Cannes do ano passado: “Holy Motors”, vencedor do Prêmio da Juventude. O longa marca a volta do provocador Leos Carax, diretor francês responsável por trabalhos autorais como “Os Amantes da Ponte Neuf” e “Pola X”

Holy Motors
(Idem, FRA/ALE, 2012, Cor, 115′)
Imovision – Cinema Europeu – 14 anos
Direção: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Michel Piccoli, Leos Carax

 
Quinto longa do francês Leos Carax, e seu primeiro desde Pola X (1999), Holy Motors provocou furor no Festival de Cannes do ano passado, desconcertando público e crítica com suas imagens surrealistas e referências que apontam para a representação na arte e em nossas vidas.

Charada-cinéfila: intérprete da motorista da limousine (e cúmplice de Oscar), a atriz Edith Scob  usa uma máscara que remete ao clássico "Os Olhos Sem Rosto" (de Georges Franju) , filme que estrelou em 1959, homenageado também por Pedro Almodóvar em "A Pele que Habito"

Charada-cinéfila: intérprete da motorista da limousine (e cúmplice do protagonista-camaleão), a atriz Edith Scob usa uma máscara que remete ao clássico “Os Olhos Sem Rosto” (de Georges Franju) , filme que estrelou em 1959, homenageado também por Pedro Almodóvar em “A Pele que Habito”

O filme já começa com uma auto-ironia – o público de um cinema dormindo – e corta para o próprio Carax, depois contemplando a mesma plateia inerte. Assim como no média-metragem Merda, parte da trilogia Tokyo!, Denis Lavant (ator-assinatura do diretor) aparece sob pesada maquiagem, revisitando o desagradável “Monsieur Merde”, uma das dez personas de Oscar, um misterioso empresário que, à maneira do protagonista de Cosmópolis, utiliza sua limousine high tech como base de operações – e palco para suas transmutações por Paris, a fim de completar uma série de compromissos. Para cada encontro, um novo disfarce e personagem aparece.

De uma velhinha que pede esmolas, passando por um pai preocupado, um tocador de acordeão, um amante apaixonado ou o ser inominável de Tokyo!, são inúmeros os disfarces usados por Lavant, que se maquia ritualisticamente dentro do carro que é ao mesmo tempo seu camarim.

Ator-assinatura de Leos Carax, Denis Lavant interpreta 11 identidades, entre elas  o repugnante "Merda" de "Tokyo!", que volta a atacar o status quo, e qualquer noção de civilização

Ator-assinatura de Leos Carax, Denis Lavant interpreta 11 identidades, entre elas a do repugnante “Merda” de “Tokyo!”, que volta a atacar o status quo, e qualquer noção de civilidade

Ao som de trilha sonora que remete a “filmes de monstro”, “Merda” ressurge dos esgotos e é uma das maiores provocações do cineasta, é o seu agente do caos que, entre outros atos bizarros, interrompe uma sessão de fotos para comer o dedo de uma assistente e sequestrar a modelo, vivida por Eva Mendes. Um pontapé, um ataque violento do roteiro à superficialidade do mundo do showbizz, ironizado na caricatura do fotógrafo que não para de tirar fotos da tragédia.

Em outro segmento, as inúmeras possibilidades da tecnologia virtual são sugeridas na performance de um acrobata vestido em um traje especial usado para captura de movimento, uma alusão aos efeitos especiais usados em produções como O Senhor dos Anéis, As Aventuras de Pi e em jogos de videogame.

Uma das sequências mais impressionantes de "Holy Motors": uma performance com captura de movimento que culmina numa das sequências de sexo mais originais do cinema recente. E uma prova que Carax continua, mesmo após anos sem filmar, profundamente atual e crítico

Uma das sequências mais impressionantes de “Holy Motors”: uma performance com captura de movimento que culmina numa das sequências de sexo mais originais do cinema recente. E uma prova que Carax continua, mesmo após anos sem filmar, profundamente atual e crítico

Numa sala escura, após várias acrobacias, correr na esteira e empunhar uma arma – uma crítica velada de Carax à violência atual, ou virtual -, o personagem começa a fazer sexo performático com uma mulher vestida em látex. Ou não necessariamente virtual, pois a performance pode realmente significar um ato real para os dois, cujo intercurso é construído paralelamente em forma de animação. A virtualidade levada às últimas consequências, e não necessariamente mais bonita, saudável ou melhor do que a vida real.

Em outra subtrama, a cantora australiana Kylie Minogue interpreta um triste número musical que evoca o romantismo trágico presente no cinema francês, de Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor) à Jean Seberg (Acossado).

Esses são apenas alguns dos personaqens das histórias sem ligação formal de Holy Motors, um quebra-cabeça melhor sentido do que explicado, dada a gama de possibilidades de interpretação. É uma viagem delirante por diversos gêneros e uma elegia ao cinema enquanto artifício de representação. E, sobretudo, espelho da caótica e cada vez mais estranha vida moderna.

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