Wim Wenders

EM PROMOÇÃO, O ACLAMADO “A CRIADA” E UMA GRANDE SELEÇÃO DE CINEMA EUROPEU

A CRIADA

Novo cult movie do cineasta sul-coreano Park Chan-Wook, que ganhou fama no Brasil com “Oldboy” (2003). Visualmente suntuoso, “A Criada” é uma produção de época bastante moderna, tratando de temas como conflito de classes, empoderamento feminino, homossexualidade e jogos de poder.

Exibido na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado e tem como base o livro “Fingersmith” (2002), da autora galesa Sarah Waters. O cenário do romance – a Londres vitoriana – foi transposto no longa para a Coreia do Sul dos anos 1930, época em que o país foi ocupado pelo Japão.

Na trama, a jovem Sooke é contratada para ser criada de Hideko, uma rica herdeira que leva uma vida reclusa junto de Kouzuki, seu tio dominador. No entanto, a empregada tem um segredo: é uma ladra recrutada por vigarista para seduzir a patroa e roubar sua fortuna.

Repleto de reviravoltas, o filme conta com a violência e sensualidade à flor da pele de outros trabalhos de Chan-Wook, além de uma história surpreendente, narrada por três pontos de vista.

13 MINUTOS

Depois de “A Queda! As Últimas Horas de Hitler” (2004), o cineasta Oliver Hirschbiegel volta ao tema neste longa baseado na história real do fracassado atentado a Hitler em 8 de novembro de 1939. Se em “Operação Valquíria” (2008) tentativa semelhante foi planejada por altos oficiais alemães, em “13 minutos” celebra-se o espírito individual de um inconformista, Georg Elser (Christian Friedel), que quase evitou a II Guerra Mundial.

NINGUÉM DESEJA A NOITE

Inspirado na história real da americana Josephine Peary, o filme tem direção da catalã Isabel Coixet (“Minha Vida Sem Mim”) e rendeu à versátil Juliette Binoche indicação ao Goya – o principal prêmio de cinema espanhol. Em 1908, a personagem deixa a alta sociedade de Washington e viaja ao Polo Norte atrás de seu marido, o explorador Robert Beary (Gabriel Byrne). Durante sua jornada a um dos lugares mais inóspitos do planeta, ela conhece Allaka (Rinko Kikuchi, revelada em “Babel”), uma esquimó que vai influenciar profundamente sua vida.

AS CONFISSÕES

Depois de “Viva a Liberdade” (2013), o cineasta italiano Roberto Andò volta a tratar dos bastidores da política – e a trabalhar com Toni Servillo, de “A Grande Beleza”. O ator interpreta Roberto Salus, monge convidado para participar de uma reunião do G-8 sobre a economia europeia. Uma confissão do presidente do Banco Mundial (papel de Daniel Auteuil) dá início ao clima de mistério do longa, que ainda traz Moritz Bleibtreu, Lambert Wilson e Marie-Josée Croze no elenco.

SIERANEVADA

Pré-selecionado pela Romênia para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, este é o mais recente trabalho do cineasta Cristi Puiu, vencedor da Palma de Ouro por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” em 2007. Em “Sieranevada“, uma família se prepara para a cerimônia que marca os 40 dias da morte do patriarca, Emil. Enquanto aguardam a chegada de um padre da Igreja Ortodoxa, familiares de diferentes gerações discutem de banalidades a conflitos da sociedade atual.

BELOS SONHOS

O grande cineasta italiano Marco Bellocchio (“Vincere”) esteve na 40ª Mostra Internacional de Cinema de SP, em outubro de 2016, para divulgar este sensível relato de um homem que é atormentado desde a infância pela morte prematura da mãe. Baseado na autobiografia homônima de Massimo Gramellini, o filme alterna de forma poética o passado e o presente do jornalista, interpretado por Valerio Mastandrea (“A Primeira Coisa Bela”).  Ainda no elenco, duas ótimas atrizes francesas: Bérénice Bejo (“O Passado“) e Emmanuelle Devos (“Violette“).

MEU REI

Inspirado em experiências pessoais, o filme de Maïwenn (diretora de “Polissia“) valeu a Emmanuelle Bercot o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Neste recorte da vida íntima de uma mulher, Bercot interpreta Marie Antoinette, que amarga um relacionamento infeliz – e por vezes abusivo – com o sedutor Georgio Milevski (Vincent Cassel), com quem se envolve. Quando acredita finalmente ter encontrado a felicidade, ela se depara com um homem violento e possessivo.

MARGUERITE

Um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês de 2016, o filme é livremente inspirado na vida da socialite americana Florence Foster Jenkins (1868-1944). “Marguerite” traz Catherine Frot no papel-título, uma ricaça desafinada que sonha em virar cantora de ópera, na Paris dos anos 1920. Versão mais livre e lúdica da história de Florence, o longa francês demonstra compaixão por sua biografada, sem nunca cair na caricatura. Graças, sobretudo, à interpretação inspirada de Catherine Frot, premiada com o César de melhor atriz.

MARGUERITE E JULIEN – UM AMOR PROIBIDO

Novo filme da atriz e cineasta francesa Valérie Donzelli, que ganhou inúmeros prêmios com “A Guerra Está Declarada” em 2011. Na trama, Marguerite (Anaïs Demoustier, de “Uma Nova Amiga“) e Julien de Ravalet (Jérémie Elkaïm, “Polissia“) são irmãos, filhos do Senhor de Tourlainville. Muito próximos desde a infância, os dois nobres se apaixonam, mas a sociedade a seu redor não aceita essa relação, fazendo de tudo para afastá-los um do outro.

ROMANCE À FRANCESA

Nem só de dramas difíceis vive o cinema francês, mas também de comédias leves como esta, mais uma ciranda amorosa escrita e dirigida por Emmanuel Mouret (de “A Arte de Amar”). Nela, um professor tímido (o próprio Mouret) realiza o sonho de namorar uma famosa atriz, Alicia (Virginie Efira), mas encontra Caprice (Anaïs Demoustier), uma jovem extrovertida que deseja sair com ele – sem se importar em ser sua amante. Enquanto isso, o melhor amigo dele, Thomas, começa a ficar muito interessado na atriz.

UM DOCE REFÚGIO

Escrita, dirigida e estrelada por Bruno Podalydès (de “Adeus Berthe“), esta comédia dramática indicada ao César foi um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês em 2016. Podalydès interpreta Michel, artista gráfico fascinado pela ideia de um dia pilotar um avião. Quando descobre que a engenharia de um caiaque é muito parecida com a de uma aeronave, ele compra um e parte numa jornada em busca de um novo estilo de vida.

TUDO VAI FICAR BEM

Depois de documentários aclamados como “Pina” e “O Sal da Terra”, o cineasta Wim Wenders retorna à ficção neste sóbrio drama sobre a perda e o luto, concebido para exibição em 3D nos cinemas. Ao som da trilha de Alexandre Desplat, o filme segue cerca de dez anos da vida de Tom (James Franco), escritor em crise consumido pela culpa após um acidente de carro. Charlotte Gainsbourg (“A Árvore”), Rachel McAdams (“Spotlight”) e Marie-Josée Croze (“O Escafandro e a Borboleta”) completam o elenco.

ÚLTIMOS DIAS NO DESERTO

Filho do escritor Gabriel García Márquez, Rodrigo García (diretor da versão americana da série “Em Terapia”) revisita de maneira minimalista um episódio do Novo Testamento: a peregrinação de Jesus Cristo (Ewan McGregor) rumo a Jerusalém. No caminho, ele ajuda uma família com problemas, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as tentações do Diabo (também interpretado por McGregor).

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ESTOQUES LIMITADOS.

A “TRILOGIA DA ESTRADA” DE WIM WENDERS: EDIÇÃO ESPECIAL COM CARDS E VÁRIOS EXTRAS

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Filho de um cirurgião, Wim Wenders nasceu em 14 de agosto de 1945 em Düsseldorf (Alemanha). Começou a estudar medicina e depois filosofia, mas interrompeu ambos os cursos para se tornar pintor. Mudou-se para Paris e, paralelamente ao trabalho de aprendiz de pintor, frequentou a Cinemateca Francesa, onde via em média cinco filmes por dia.

Em 1967, de volta à Alemanha, entrou para a Escola de Cinema de Munique. Nesse período, começou a escrever críticas e realizou vários curtas-metragens, concluindo o curso com o filme “Summer in the City” (1970), rodado durante o inverno berlinense.

"Alice nas Cidades"

“Alice nas Cidades”

Depois filmou “O Medo do Goleiro diante do Pênalti” (1971), baseado em romance de Peter Handke, e “A Letra Escarlate” (1973), sua versão para o clássico de Nathaniel Hawthorne, até o reconhecimento internacional com “Alice nas Cidades” (1974). O filme inicia uma trilogia de road movies que se completa com “Movimento em Falso” (1975) e “No Decorrer do Tempo” (1976), trabalhos profundamente influenciados pela geração beat de “On the Road”, de Jack Kerouac.

Agora, os cinéfilos têm a oportunidades de conhecer (ou rever) a famosa trilogia de Wenders em DVD, com cerca de quatro horas de extras.

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TRILOGIA DA ESTRADA

DISCO 1:

ALICE NAS CIDADES (Alice in den Städten ,1974, 112 min)
Com Yella Rottländer, Rüdiger Vogler, Lisa Kreuzer, Edda Köchl.

1

Sem inspiração, Philip Winter, um jornalista alemão vivendo nos EUA, decide retornar à sua terra natal. A caminho, no aeroporto, encontra por acaso com Lisa e sua filha Alice. Uma reviravolta faz com que Philip precise cuidar sozinho da menina.

DISCO 2:

MOVIMENTO EM FALSO (Falsche Bewegung, 1975, 104 min.)
com Rüdiger Vogler, Hanna Schygulla, Hans Christian Blech, Nastassja Kinski.

2

Baseado em obra de Goethe, o filme descreve seis dias na vida de Wilhelm. No vagão de um trem ele encontra desde um atleta que participou das Olimpíadas de 1936, uma atriz, até interromper o suicídio de um passageiro. Mais uma parceria entre Wenders e o roteirista Peter Handke (“O Medo do Goleiro”, “Asas do Desejo”).

DISCO 3:

NO DECURSO DO TEMPO (Im Lauf der Zeit, 1976, 175 min.)
Com Rüdiger Vogler, Hanns Zischler, Lisa Kreuzer, Rudolf Schündler.

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Um técnico de projetores viaja pela Alemanha visitando cinemas desativados quando encontra um homem recém-separado. Eles ficam amigos e resolvem viajar juntos. Vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes.

EXTRAS:

* Entrevistas
* Cenas não editadas
* Curtas-metragens dirigidos por Wim Wenders
* Entrevista com o diretor

DICAS DA EQUIPE 2001: PINA

CONSIDERADA UMA DAS MAIORES COREÓGRAFAS DA HISTÓRIA, PINA BAUSCH (1940-2009) É HOMENAGEADA POR MEIO DE DEPOIMENTOS DE BAILARINOS QUE TRABALHAM COM ELA E RECRIAÇÕES DE ALGUNS DE SEUS ESPETÁCULOS.

Um dos maiores nomes do “novo cinema alemão” surgido nos anos 1960 e 1970, Wim Wenders (Alice nas Cidades, Asas do Desejo) assistiu Pina Bausch pela primeira vez em 1985. Desde então, passou a acompanhar sua carreira.

Tornaram-se amigos e prometeram realizar algo juntos, mas só em 2008 chegaram a um projeto concreto. A coreógrafa alemã escolheu quatro espetáculos de sua companhia, a Tanztheater Wuppertal, para serem filmados; o primeiro ensaio foi marcado para 2 de julho de 2009. Contudo, dois dias antes, ela faleceu de câncer, aos 68 anos.

Veja a entrevista exclusiva que a Equipe 2001 realizou com Wim Wenders, na época do lançamento do filme em DVD, em uma parceria com a distribuidora Imovision

Confira a entrevista exclusiva que a Equipe 2001 realizou com Wim Wenders, na época do lançamento do filme em DVD, em uma parceria com a distribuidora Imovision

Exibido nos cinemas também em 3D, o documentário Pina não é um projeto que Bausch e Wenders idealizaram juntos, mas um tributo à artista.

O cineasta alemão foi reverente à amiga, seguindo seu desejo de não adotar uma abordagem biográfica. Bausch queria que o filme enfocasse apenas sua obra e legado. Por isso a ausência de explicações didáticas sobre sua vida e carreira.

Pina recria quatro de seus principais espetáculos (A Sagração da Primavera, Café Muller, Contato e Lua Cheia), valorizando a importância dos objetos e dos cenários na construção cênica. E transporta os dançarinos, todos ex-colaboradores de Bausch (incluindo a brasileira Regina Advento), para números ao ar livre, explorando ainda mais o espaço físico.

 

Ao final, pouco se sabe sobre a grande homenageada graças ao documentário. Como Bausch queria, ela vai ser lembrada mesmo é por suas impressionantes coreografias, que mesclam teatro e dança conceitual em movimentos repletos de significado. “Dance, dance, senão estaremos perdidos”, costumava dizer a bailarina e coreografa que revolucionou a dança moderna.

Antes de Wim Wenders em Pina, Pedro Almodóvar homenageou Pina Bausch em “Fale Com Ela”. Em uma seqüencia do filme, vencedor do Oscar de melhor roteiro original em 2003, o cineasta espanhol também recria a coreografia de Café Müller.

Confira o trailer de “Pina“:

*Indicado ao Oscar de melhor documentário/ Melhor documentário no European Film Awards/ Indicado ao Bafta de melhor filme estrangeiro

“Não me interesso em como as pessoas se movem, mas o que as move.”
Pina Bausch

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA DE 30 ANOS DA 2001: WIM WENDERS (“PINA”)

PREÇOS IMBATÍVEIS,
O LANÇAMENTO EXCLUSIVO DE O BURACO DA AGULHA.
O CANAL CINE INDEPENDENTE.
O SITE DE CARA NOVA.
E PARA COMPLETAR TUDO ISSO, NO MÊS EM QUE COMEMORA 30 ANOS, A 2001 VÍDEO TRAZ UMA ENTREVISTA MAIS DO QUE ESPECIAL COM WIM WENDERS.

Pina
A REINVENÇÃO DE UM CINEASTA PELA DANÇA

O Estado das Coisas (1982), Paris, Texas (1984), Asas do Desejo (1987) e Buena Vista Social Club (1999) são alguns dos filmes que marcaram a carreira de Wim Wenders na 2001 Vídeo. Em comemoração aos 30 anos da rede, o grande cineasta alemão falou com exclusividade sobre Pina e sua carreira.

Por Eduardo Lucena

2001: Parabéns por Pina. O que o inspirou a realizar o documentário?
Wim Wenders: Pura e simplesmente: o trabalho de Pina Bausch. Suas coreografias e as peças que criou estão entre as coisas mais belas e emocionantes que já vi. Quando testemunhei pela primeira vez seu trabalho, fiquei extasiado. Sentei para ver Café Müller e chorei como um bebê durante todo o espetáculo. Não entendia o que tinha mexido tanto comigo. Apenas sabia que nunca tinha visto nada semelhante e que aquilo estava para mudar minha vida. E mudou. Sugeri a ela um filme em comum em nosso primeiro encontro, no verão de 1984. Desde então, e por 20 anos, eu e Pina sonhávamos com esse projeto juntos.

Ela me cobrava: “Quando vamos finalmente fazer isso, Wim? Que tal agora?”. “Ainda não estou pronto, Pina!”, respondia. Isso foi se tornando uma piada recorrente entre nós.

Wim Wenders e Pina Bausch, em 2008

Eu estava ganhando tempo na época. Eu simplesmente não tinha ideia de como fazê-lo, de como filmar a dança. Por mais que eu tentasse imaginar o trabalho de Pina na tela, menos eu podia vê-lo, mesmo tendo estudado a história dos filmes de dança. A companhia Tanztheater de Pina tinha tanta liberdade e alegria, tanta fisicalidade, era tão cheia de vida, que eu realmente não sabia como filmá-la apropriadamente. Até o dia em que tive o primeiro vislumbre do novo 3D digital, em 2007, ao assistir ao show U2 3D. A experiência foi uma revelação. Enquanto eu assistia, pensei: “Essa é a linguagem para um filme de dança!”. Era o único modo que o filme poderia ser feito.

O 3D era a resposta. Essa nova tecnologia e a dança foram feitos um para o outro. Finalmente, pude entrar no próprio domínio dos dançarinos, o espaço, e não apenas assisti-los sem parar, de fora. Eu sempre os vi como peixes na água, comigo e minhas câmeras posicionados de fora do aquário. Com a ajuda do 3D eu pude finalmente nadar com eles. Foi quando então liguei para Pina, ainda do cinema: “Agora eu sei como fazer, Pina”. Não precisei falar mais, ela entendeu. E começamos a preparar o filme logo depois.

2001: Pina morreu semanas antes do início das filmagens. Como a morte dela mudou a  concepção do projeto?
WW: Escrevemos o conceito juntos e trabalhamos no projeto por dois anos. Planejamos as filmagens para o outono de 2009, mas a poucas semanas do início, Pina se foi [Pina Bausch faleceu em 30 de junho de 2009]. Seus familiares, bailarinos e minha equipe, é claro, ficamos devastados. Foi uma perda tão súbita e brutal. De repente, Pina estava morta. Imediatamente parei os preparativos para o filme.

Acima de tudo, o filme foi escrito para e com Pina. Queríamos vê-la nos ensaios, acompanhá-la em turnê com sua companhia. Tudo isso tornou-se impossível. Então eu parei o projeto. Dois meses depois, os bailarinos começaram a ensaiar as peças selecionadas por Pina para o filme. Os dançarinos me fizeram entender que talvez essa fosse a última vez em que os espetáculos seriam apresentados! Nós tínhamos de fazer o filme de qualquer maneira, agora mais do que nunca. Poderíamos não fazer um filme com Pina, mas juntos poderíamos realizar outro filme para ela. Foi nossa forma de lidar com a morte dela, com sua perda e a dor.

Um dos clássicos do diretor, Alice nas Cidades faz parte do acervo da 2001 Vídeo

2001: Curiosamente, Pina foi filmado em Wuppertal, a mesma cidade onde você dirigiu parte de Alice nas Cidades, nos anos 1970. Quais são as suas memórias dessa época, quando você representava um dos principais nomes do Novo Cinema Alemão, ao lado de Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder?
WW: Visto hoje, parecia um tempo de inocência. Realmente não havia uma “cultura de cinema” na Alemanha, começamos tudo do nada. O que é uma coisa boa, inventar suas próprias regras. Cada um de nós tinha seus próprios “pais” cinematográficos. Fassbinder, por exemplo, amava os filmes de Douglas Sirk, Herzog era inspirado por F.W. Murnau, e eu, pelo cinema americano, John Ford ou Howard Hawks.

Foto histórica: Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders reunidos

A falta de uma indústria nos levou a uma situação incomum, mesmo no cinema. Os jovens diretores e autores do que se tornaria o Novo Cinema Alemão foram forçados a se organizar. O fato de todos nós criarmos filmes e tê-los distribuídos se deu graças a um ato de incrível solidariedade coletiva. E como ninguém queria nos produzir, e muito menos distribuir os nossos filmes, fundamos nossa própria produtora e distribuidora, a Filmverlag der Autoren, uma espécie de “companhia de autores unidos”. Não havia competição ou inveja. Se um de nós tivesse sucesso, seria bom para todos. Nesse clima, fomos capazes de ser incrivelmente produtivos. Fassbinder dirigia três ou quatro filmes por ano, Herzog e até mesmo eu produzíamos regularmente um filme por ano, o que hoje pode parecer utópico. Atualmente, um jovem cineasta, se tiver sucesso com seu primeiro filme, terá de esperar anos para dirigir seu segundo longa-metragem.

2001: O 3D foi crucial na realização de Pina. Como essa nova tecnologia mudou sua forma de dirigir e ver filmes?
WW: Você não pode simplesmente pegar qualquer roteiro e dizer: “Vamos fazer isto em 3D”. É uma nova linguagem de cinema, e você precisa aprender e respeitar sua gramática e vocabulário. Porque ver um filme em 3D é também uma experiência diferente para o espectador. Emocionalmente, você está envolvido de maneira diferente do que no “cinema plano”. Essa é a grande diferença: o envolvimento! No 3D, você pode levar o público a outros lugares que o cinema jamais conseguiu. O espectador pode ser imerso numa realidade diferente. Por isso estou tão convencido de que no futuro o 3D será a mídia ideal para o documentário.

Wim Wenders durante as filmagens de Pina: uso diferenciado da tecnologia 3D

2001: Em sua filmografia, você sempre foi atraído por explorar formas diferentes de narrativa, e em dar vida a cidades e personalidades reais. Por isso, a alternância entre a ficção e o documentário?
WW: Sim. Acho que é muito saudável para um cineasta não filmar apenas histórias ficcionais, mas ser exposto agora e sempre à simples realidade. Estar nas ruas, com uma equipe pequena de duas ou três pessoas atrás de você, e não com uma centena, e 20 caminhões e trailers à sua volta. Fazer um documentário pode ajudá-lo a tornar-se modesto de novo. Como cineasta, você corre o risco de se levar muito a sério.

Conheço vários colegas que possivelmente seriam pessoas melhores – e possivelmente realizariam filmes melhores – se fossem forçados a dirigir um documentário depois do segundo filme. Além disso, um documentário pode ser feito espontaneamente. [Bem, não é o caso de Pina, mas certamente é o de Buena Vista Social Club, por exemplo.] Longas ficcionais envolvem muita espera, até serem finalmente escritos, terem o elenco escalado, e conseguirem financiamento. O que pode ser uma verdadeira perda de tempo.

2001: Tivemos o privilégio, aqui no Brasil, de ver algumas de suas fotos na exposição “Lugares, Estranhos e Quietos”, no Masp, dois anos atrás. Qual a importância dessa forma de expressão em seu trabalho?
WW: Comecei a tirar fotos quando era garoto. Aos seis anos, tinha uma câmera fotográfica e depois tive minha própria câmara escura. Mas só comecei a fotografar a sério em 1983, quando comecei a trabalhar na preparação de Paris, Texas, pesquisando a luz e as cores do oeste americano. O que me levou, anos depois, à minha primeira exposição de fotos, Escrito no Oeste. Desde então, a fotografia é parte integral da minha vida. Hoje, preenche metade do meu tempo.

Estrela Solitária: mais um grande filme do cineasta – e a segunda parceria com Sam Shepard

2001: Uma das fotos (Street Corner Butte) da exposição foi tirada em uma das locações de Estrela Solitária (2005), filme que retoma sua parceria com Sam Shepard depois de Paris, Texas (1984). Vocês ainda mantêm contato? E há planos para algo novo juntos?
WW: Falo com Sam de vez em quando. Não é fácil entrar em contato com ele, um homem recluso que não usa a internet. Acabei de vê-lo em Dublin, onde se apresentou com Patti Smith. Sam é um grande guitarrista e cantor. Foi um dos mais memoráveis concertos que vi em muito tempo. Nos damos bem, e adoraríamos trabalhar juntos de novo.

2001: Falando em colaboração, no último dia 29 de setembro o mestre Michelangelo Antonioni (1912–2007) teria completado 100 anos. Fale sobre sua experiência ao lado dele em Além das Nuves (1995).

Com Michelangelo Antonioni, durante as filmagens de Além das Nuvens

WW: Foi uma triste e ao mesmo tempo extasiante experiência. Triste, já que Michelangelo era incapaz de falar, e imensamente gratificante, ao vê-lo realizar o filme exatamente do jeito que queria, usando sua força de vontade e imaginação. Fui seu assistente de direção e ao mesmo tempo diretor substituto em caso de uma eventualidade, para a seguradora.

Aceitei de bom grado a tarefa quando Michelangelo sugeriu meu nome para o trabalho. Mas nunca precisei assumir a direção. Ele controlou o filme do início até o último dia de filmagem. Era maravilhoso ver como ele conduzia tudo apenas com a linguagem de sinais e desenhos para expresssar suas intenções para a equipe e os atores. Tentei ser a sua “voz”, junto com a mulher dele, Enrica. Mas Michelangelo se impôs heroicamente.

2001: Além disso, neste mês começa a 36º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Infelizmente, sem o seu fundador (e amigo pessoal), Leon Cakoff…
WW: Leon era um grande cara, e um dos últimos diretores de festival do planeta realmente devotados aos filmes. Ele amava o cinema, era um profundo conhecedor do que acontecia ao redor do mundo. Era um homem doce e gentil, o que significa que todos perdemos alguém importante, não apenas para a comunidade e a cidade de São Paulo. Nossos melhores momentos juntos foram compartilhados durante as filmagens do meu curta Ver ou Não Ver para o projeto coletivo Mundo Invisível (2011), que ele produziu. Dessa experiência, sei que Leon não se importava apenas com os filmes, mas também com as pessoas. Eu sinto profundamente a sua falta.

Túnel do tempo: Wim Wenders ao longo dos anos

2001: Berlim, Tóquio, Havana, Los Angeles, Palermo e Wuppertal, só para citar algumas cidades. Qual a próxima “viagem” de Wim Wenders?
WW: Estou preparando meu próximo longa. É um drama familiar chamado Everything Will Be Fine, uma história original de um roteirista norueguês, Bjorn Olaf Johannessen. Sempre desenvolvi meu próprio material, mas esse roteiro é uma exceção. Bjorn Olaf enviou seu primeiro tratamento do roteiro, li e foi amor à primeira vista. O filme será rodado em Montreal e Québec, no Canadá. É possível que ele não lembre nenhum de meus filmes anteriores, exceto talvez O Amigo Americano (1977). Filmaremos em 3D, como Pina. O 3D foi a ferramenta perfeita para um filme de dança. O desafio agora é aplicar essa tecnologia a um formato narrativo tradicional. Mas estou completamente convencido de que funcionará.

SERVIÇO:

Pina
(Idem, ALE/FRA/ING, 2011, Cor, 106′)
Imovision – Arte – Livre
Direção: Wim Wenders
Elenco: Pina Bausch, Regina Advento, Malou Airaudo

Sinopse: Considerada uma das maiores coreógrafas da história, Pina Bausch (1940-2009) é homenageada por meio de depoimentos de bailarinos que trabalharam com ela e recriações de alguns de seus espetáculos. Disponível para locação nas lojas da 2001 Vídeo.

 

WIM WENDERS EM DVD NA 2001:

Pina (2011)
Cada um com Seu Cinema (2007) curta War in Peace
Estrela Solitária (2005)
Medo e Obsessão (2004)
The Blues – The Soul of a Man (2003)
O Hotel de Um Milhão de Dólares (2000)
Buena Vista Social Club (1999)
Um Truque de Luz (1995)
O Céu de Lisboa (1994)
Tão Longe, Tão Perto (1993)
Identidade de Nós Mesmos (1989)
Asas do Desejo (1987)
Tokyo-Ga (1985)
Paris, Texas (1984)
O Estado das Coisas (1982)
Quarto 666 (1982)
Um Filme Para Nick (1980)
O Amigo Americano (1977)
No Decurso do Tempo (1976)
Movimento em Falso (1975)
Alice nas Cidades (1974)
O Mundo dos Crocodilos (1974) Curta-Metragem
A Letra Escarlate (1973)

Obs. Todos disponíveis para locação na prateleira de ARTE, nas lojas da 2001 Vídeo

CENTENÁRIO DE NICHOLAS RAY

Um dos grandes rebeldes do cinema, Nicholas Ray (1911-1979)

NICHOLAS RAY, DIRETOR DE CLÁSSICOS COMO NO SILÊNCIO DA NOITEJOHNNY GUITAR JUVENTUDE TRANSVIADA E UM DOS MAIORES OUTSIDERS DE HOLLYWOOD, COMPLETARIA HOJE 100 ANOS.

 

Um dos grandes rebeldes do cinema norte-americano entre os anos 1940 e 1960, Nicholas Ray nasceu em 7 de agosto de 1911, em Galesville (Wisconsin, EUA). Fez de tudo em seu início profissional: escreveu programas de rádio, estudou arquitetura e chegou a trabalhar como ator na companhia Group Theater, de Elia Kazan, até estrear como diretor de cinema com Amarga Esperança (1948). A partir daí, deu início a sua extensa galeria de outsiders, indivíduos fora dos padrões ou com dificuldades para se adaptar ao seu meio ou grupo social. Entre eles, destacam-se o roteirista interpretado por Humphrey Bogart em No Silêncio da Noite (1950), clássico do cinema “noir”; a inesquecível personagem de Joan Crawford em Johnny Guitar (1954), faroeste pseudofeminista; o rebelde vivido por James Dean em Juventude Transviada (1955), que transformou o jovem ator em astro da noite para o dia; e o professor dependente químico interpretado por James Mason em Delírio de Loucura (1956), ainda inédito em DVD no Brasil.

Nicholas Ray dirige James Dean durante as filmagens de Juventude Transviada (1955)

Viciado em drogas e famoso por seus relacionamentos amorosos (Natalie Wood, Gloria Grahame), o cineasta tornou-se personagem de si mesmo e, com o tempo, maior que os próprios filmes. Foi vencido pelo câncer de pulmão em 16 de junho de 1979, sem concluir o projeto Lightning Over Water ao lado de Wim Wenders. O diretor de Paris, Texas filmou seus encontros com o amigo, então doente, e os usou no documentário Um Filme para Nick (1980), homenagem ao artista famoso pelos excessos e por suas brigas com os estúdios. Homenageado ainda em Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, e idolatrado por diretores como François Truffaut e Jean-Luc Godard, Ray permanece um dos precursores da chamada Nova Hollywood, fase de ouro do cinema norte-americano que revelou ao mundo, a partir do final da década de 1960, nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Robert Altman e Hal Ashby.

No final da vida, o cineasta trabalhou com Wim Wenders em projeto não concluído, base para o documentário Um Filme para Nick

NICHOLAS RAY EM DVD NA 2001:


55 Dias em Peking (1963)
O Rei dos Reis (1961)
Juventude Transviada (1955)
Johnny Guitar (1954)
Cinzas que Queimam (1952)
Horizonte de Glórias (1951)
No Silêncio da Noite (1950)
A Vida Íntima de uma Mulher (1949)

VEJA TAMBÉM:
Um Filme para Nick (1980)
Documentário em que Wim Wenders homenageia Nicholas Ray