Woody Harrelson

QUARTAS COM SUZANA VIDIGAL: “TRUQUE DE MESTRE”

EDITORA DO CINE GARIMPO, A JORNALISTA SUZANA VIDIGAL ESCREVE TODA QUARTA-FEIRA PARA O BLOG DA 2001, DESTACANDO UM GRANDE LANÇAMENTO PARA LOCAÇÃO OU VENDA NAS LOJAS DA REDE

Um dos maiores sucessos-surpresa de 2013, com mais de U$ 200 milhões em bilheteria em todo o mundo, "Um Truque de Mestre" acaba de chegar para locação em DVD e Blu-ray na 2001. A trama intrincada acompanha um grupo de ilusionistas que rouba bancos durante seus espetáculos de mágica, e ainda oferece o dinheiro à plateia

Um dos maiores sucessos-surpresa de 2013, com mais de U$ 200 milhões em bilheteria em todo o mundo, “Um Truque de Mestre” acaba de chegar para locação em DVD e Blu-ray na 2001. A trama intrincada acompanha um grupo de ilusionistas que rouba bancos durante seus espetáculos de mágica, e ainda oferece o dinheiro à plateia

Dizem os mágicos – e quem já viu boa mágica sabe que é verdade – que o truque está no detalhe. Ou melhor, em fazer o público olhar bem para um ponto específico (a cartola, o coelho, o armário), enquanto o truque acontece em outro lugar. Ou seja, quanto mais perto você olha, menos você vê. Assim dizem – e fazem – os quatro ilusionistas de Truque de Mestre.

Pode ter lá seus furos – e acho que tem mesmo. Os personagens vividos por Michael Caine e Morgan Freeman (também juntos na trilogia de Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan), por exemplo, poderiam ser melhor explorados. No frenesi do próprio tema do ilusionismo – onde tudo tem que ser rápido, para que a ilusão pareça verdade – o espectador também é levado a se ater demais ao caminho traçado pelos mágicos, deixando para trás as histórias pessoais desses personagens. E tem também quem diga que o desfecho é óbvio demais. Intriga da oposição. Este tipo de filme é feito para entreter, portanto não seja rígido demais e aproveite.

01

Truque de Mestre exige atenção. Não porque seu roteiro seja lá muito elaborado, mas porque é confuso, cheio de meandros, reviravoltas e meias-verdades. Tudo começa quando quatro ilusionistas são intimados a se encontrar. Só não sabemos quem é que está coordenando este encontro, nem o que pretende. Depois de um ano eles formam um time afiadíssimo de ilusionistas, patrocinados por um milionário, que lota a casa de shows de um cassino de Las Vegas e executa o que parece ser impossível: do palco, roubam um banco na França. E mais: o dinheiro cai em cima da plateia, boquiaberta.

A partir daí, o agente do FBI Dylan Rhodes (Mark Ruffalo, também em Minhas Mães e Meu Pai, Ilha do Medo) e da Interpol Alma Dray (Mélanie Laurent, também em Toda Forma de Amor, O Concerto, Bastardos Inglórios) são acionados para tentar descobrir se foi mágica, se foi roubo e o que a trupe pretende. Claro que os ilusionistas dão um baile nas autoridades, se safam de todas as situações e deixam o espectador intrigado. E confuso. O que faz parte do jogo, imagino – a arte de confundir também faz parte da mágica.

Independente da verossimilhança das reviravoltas da trama, o grande diferencial mesmo do filme é o seu elenco, con nomes como Michael Caine, Morgan Freeman, Mark Ruffalo, Jesse Eisenberg, Isla Fisher, Woody Harrelson e a francesa Mélanie Laurent

Além das reviravoltas da trama, o grande diferencial do filme é mesmo o seu elenco, com nomes como Michael Caine, Morgan Freeman, Mark Ruffalo, Jesse Eisenberg, Isla Fisher, Woody Harrelson e a francesa Mélanie Laurent

Mas agora que você está avisado, preste bastante atenção. Eu confesso que deixei alguns detalhes passarem, que fizeram falta no final para fechar o quebra-cabeça. Vale assistir de novo. E pelo desfecho “mágico”, você também vai sentir vontade de ver pela segunda vez, para ter certeza de que faz sentido. Ou de que realmente enganaram você direitinho.

 

Cliente da 2001, Suzana Vidigal é jornalista e editora do Cine Garimpo, blog com dicas de cinema e DVD para você escolher de acordo com seu estado de espírito.

“SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU”: HUMOR NEGRO, METALINGUAGEM E VIOLÊNCIA

Segundo longa de Martin McDonagh ("Na Mira do Chefe"), "7 Psicopatas e um Shih Tzu" recebeu muitos elogios para sua mistura surreal de comédia, drama e policial com ecos de Jim Jarmusch e Takeshi Kitano, referências assumidas pelo diretor-roteirista

Segundo longa de Martin McDonagh (“Na Mira do Chefe”), “7 Psicopatas e um Shih Tzu” recebeu muitos elogios para sua mistura surreal de comédia, drama e policial descolado com ecos de Jim Jarmusch e Takeshi Kitano, referências assumidas pelo diretor-roteirista

Sete Psicopatas e um Shih Tzu
(Seven Psychopaths, ING, 2012, Cor, 110′)
Paris – Policial – 16 anos
Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Abbie Cornish, Harry Dean Stanton, Tom Waits

Sinopse: Em Los Angeles, Marty, um roteirista irlandês, tenta encontrar inspiração para seu novo roteiro, “Sete Psicopatas”. Seu amigo Billy, um ator fracassado envolvido em sequestros de cachorros, o ajuda a desenvolver o roteiro, além de envolvê-lo em inúmeras confusões.

 
Vencedor do Oscar de melhor curta-metragem por Six Shooter (2004), o dramaturgo e roteirista britânico Martin McDonagh estreou na direção de longa em 2007 com o inusitado Na Mira do Chefe, policial marcado pela ironia. Em seu mais recente trabalho, Sete Psicopatas e um Shih Tzu, McDonaugh eleva à enésima potência seu humor negro, parodiando de maneira metalinguística a indústria de Hollywood.

O personagem central é Marty, um roteirista alcoólatra – e irlandês, mas não necessariamente nessa ordem – que vive um bloqueio criativo e começa a escrever sobre… si mesmo. O roteiro, que ele chama de “um filme de ação budista com mensagem pacifista”, passa a se chamar “Sete Psicopatas” e o primeiro maluco na lista é um fictício vietnamita à procura de vingança. Quem serão os outros seis?

A inspiração surge na excêntrica fauna de desajustados de Los Angeles, com amigos como o imprevisível Billy (Sam Rockwell, roubando a cena) e o veterano Hans (Christopher Walken, tocante), envolvidos em um esquema de sequestro de “cachorros de madame” em troca de gratificação. Os dois roubam um shih-tzu (raça de cães originária da China), sem saber que o animal de estimação pertence a um perigoso gângster (e psicopata) chamado Charlie (Woody Harrelson, sempre divertido), que não vai poupar esforços (e mortes) para encontrá-los.

Citado no título do filme, o motivo real de tanta confusão: o adorável cachorro da raça shih tzu (na foto, com Colin Farell) sequestrado pelos personagens de Sam Rockwell e Christopher Walken

Citado no título do filme, o motivo real de tanta confusão: o adorável cachorro da raça shih tzu (na foto, com Colin Farell) sequestrado pelos personagens de Sam Rockwell e Christopher Walken

O protagonista encontra nos diferentes personagens que encontra pelo caminho – incluindo um assassino em série de criminosos, vivido pelo ator e cantor Tom Waits – elementos para os psicopatas de sua história. Divertido (para quem aprecia humor negro) exercício de metalinguagem com ecos de Charlie Kaufman (Adaptação), o filme se beneficia da presença do elenco estelar e dos diálogos anárquicos e propositalmente absurdos de McDonagh, que incorpora as experiências da realidade do personagem de Farrell à ficção que o mesmo desenvolve na escrita.

Apaixonado por Akira Kurosawa, cujo Sete Samurais serviu de inspiração para o título, o diretor-roteirista de Na Mira do Chefe tem um senso de humor cruel e muito particular, que torna difícil rotular seus filmes. Sua escrita se equilibra sobre uma linha tênue entre a comédia de humor negro e a tragédia, ironizando, em rompantes de violência desconcertante e inesperada, as soluções narrativas empregadas pelo cinema para atrair o público. Com sua mistura de gêneros, a trama de Sete Psicopatas se confunde com o processo criativo que, em grupo, toma as mais variadas formas. Tão surreal que, em certo ponto, Marty pergunta aos amigos: “E o que deveríamos fazer na vida real?”.

Oficina de roteiro: em cena, Marty, Billy e Hans discutem o final do filme fictício baseado em suas experiências reais

Oficina de roteiro: em cena, Marty, Billy e Hans discutem o final do filme fictício baseado em suas experiências reais. O filme real, disponível em DVD e Blu-ray na 2001, concorreu ao Bafta de melhor filme britânico e ao Independent Spirit Awards de melhor roteiro e ator coadjuvante (Sam Rockwell)

ALUGUE TAMBÉM NA 2001:

Na Mira do Chefe*
(In Bruges, ING/EUA, 2008, Cor, 107′)
Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Jérémie Renner, Zeljko Ivanek

05Depois de um trabalho mal feito, os matadores Ray e Ken são mandados por seu chefe Harry para a Bélgica. Enquanto Ken aproveita a oportunidade para apreciar a paisagem, o acelerado Ray vai atrás de aventura.

Com essa trama inicial, o dramaturgo inglês Martin mcDonagh procura humanizar seus dois personagens centrais, ambos em conflito existencial: os matadores profissionais interpretados por Brendan Gleeson (O Guarda) e Colin Farrell (O Vingador do Futuro). Depois de O Sonho de Cassandra (2007), o jovem galã irlandês interpreta aqui mais um homem atormentado pela culpa. E, além da presença de Ralph Fiennes (O Paciente Inglês) no papel do vilão, outro destaque fica por conta da própria cidade de Bruges, com suas belas locações.

* Indicado ao Globo de Ouro de melhor filme e melhor ator (Brendan Gleeson e Colin Farrell) em comédia ou musical