EM DOIS LANÇAMENTOS, O CINEMA PERTURBADOR DE MICHAEL HANEKE

PELA PRIMEIRA VEZ NO BRASIL, A COLEÇÃO “A TRILOGIA DA TRISTEZA” REÚNE OS TRÊS PRIMEIROS LONGAS-METRAGENS DO ACLAMADO DIRETOR DE “A PROFESSORA DE PIANO” E “AMOR”. E ACABA DE SAIR, EM EDIÇÃO ESPECIAL, O DESCONCERTANTE “VIOLÊNCIA GRATUITA”.

Um dos cineastas mais importantes da Europa, Michael Haneke conquistou a Palma de Ouro duas vezes: por “A Fita Branca”, em 2009, e “Amor”, em 2012. Concorreu ainda ao Oscar de direção pelo segundo, considerado um dos melhores filmes dos anos 2000.

Haneke (ao lado de Isabelle Huppert) com a Palma de Ouro recebida por “A Fita Branca” em 2009

Nascido em Munique, mas naturalizado austríaco, Haneke nasceu em 23 de março de 1942, e cresceu no meio das artes por ser filho de um diretor e uma atriz. Estudou filosofia e psicologia em Viena, foi crítico de cinema e começou a carreira artística escrevendo roteiros para o teatro, migrando depois para a TV.

Sua estreia no cinema se deu com “O Sétimo Continente” (1989), retrato perturbador da alienação de uma família, que deu início à sua “Trilogia da Frieza“, lançada em DVD com 3 cards e 1 hora de extras. Nesses trabalhos, ele revela sua visão niilista de mundo, mostrando com concisão cirúrgica a falta de comunicação e a indiferença no cotidiano de nossa sociedade. Seus filmes provocam incômodo – basta lembrar de “Violência Gratuita” (1997) e “A Professora de Piano”(2001) –, com seus rompantes de violência inesperada e personagens que perderam o sentido da vida.

Segundo Haneke, “Falamos muito e não comunicamos nada”.

TRILOGIA DA FRIEZA

DISCO 1:

O SÉTIMO CONTINENTE (Der siebente Kontinent, 1989, 104 min.)
Com Birgit Doll, Dieter Berner, Leni Tanzer.

Baseado na história real de uma família alemã, o filme disseca a apatia e o isolamento de Georg e sua esposa Anna, além da filha Evi, que tem o costume de se fingir de cega. A família decide então alterar sua realidade e mudar para a Austrália.

DISCO 2:

O VÍDEO DE BENNY (Benny’s Video, 1992, 105 min.).
Com Arno Frisch, Angela Winkler, Ulrich Mühe.

Filho de pais ausentes, Benny é um adolescente de 14 anos obcecado em vídeos, que ele assiste o dia todo na TV e que também produz com sua câmera. Alienado do mundo exterior, ele não consegue mais distinguir o que é real ou representação, pois suas experiências são mediadas pela televisão e pelos vídeos.

DISCO 3:

71 FRAGMENTOS DE UMA CRONOLOGIA DO ACASO (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls, 1994, 95 min.)

Na véspera do Natal de 1993, um estudante de 19 anos matou três pessoas numa agencia bancária em Viena e depois se suicidou com um tiro na cabeça. A seguir, 71 cenas mostram situações aparentemente prosaicas do dia a dia de cidadãos austríacos antes do massacre. Pessoas comuns da multidão, como um imigrante que acabou de chegar ao país, um casal que adotou uma menina, um universitário ou um velho solitário, entre outros personagens.

EXTRAS:
* Entrevista com o diretor Michael Haneke sobre “O sétimo Continente” (16 min.)
* Entrevista com o diretor Michael Haneke sobre “O Vídeo de Benny” (20 min.)
* Entrevista com o diretor Michael Haneke sobre “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso” (23 min.)

VIOLÊNCIA GRATUITA

Depois da impactante “Trilogia da Frieza”, Haneke voltou a chocar público e crítica com este desconcertante exercício narrativo, em 1997.

Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme desafia os próprios limites do espectador em relação à violência que vê na tela; de certa forma, nos tornamos cúmplices do sadismo de dois jovens psicopatas que invadem a casa de uma família de classe média alta. Haneke testa o espectador desde o título, passando pela promessa dos dois algozes de que o casal e seu filho não chegarão com vida até o final da noite, submetidos a uma série de torturas físicas e psicológicas.

Uma das sacadas do diretor é não mostrar os crimes sendo cometidos, mas seus efeitos –
antes e depois de cada ação, provocando ainda mais incômodo. Além disso, a “quarta parede” é quebrada sucessivas vezes, com um dos psicopatas dirigindo-se diretamente para a câmera, como se conversasse com o público.

Como em “O Vídeo de Benny“, Haneke investiga como a violência transmitida na mídia pode influenciar negativamente a sociedade. Dez anos depois, ele dirigiria uma refilmagem americana da história quadro a quadro, mudando apenas o elenco, agora com Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt.

EXTRAS:
* Entrevista com o diretor sobre “Violência Gratuita”
* Trailer original

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